Em romance histórico, Racine Santos revive personagens e cenários reais dos anos 60

Publicação: 2019-09-19 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

O ano é 1968. Eduardo desce na Estação Rodoviária da Ribeira. Está de volta à Natal depois de oito meses distante. Sem nenhuma bagagem, apenas uma envelope no bolso do casaco, ele sobe a Junqueira Ayres até a Cidade Alta. Passa pela praça Sete de Setembro, assiste um filme no Cinema Nordeste, faz uma parada no Cabaré de Maria Boa e parte em direção do destino final de sua missão: uma casa de endereço secreto onde um grupo clandestino aguardava pela carta que Eduardo trazia consigo. Esta é apenas a primeira das três noites em que se passa a história de “De susto, de bala, ou vício”, mais novo livro do romancista e dramaturgo Racine Santos. Publicada pelo Sebo Vermelho, a obra será lançada nesta quinta-feira (19), a partir das 19h30, na Academia Norte-Riograndense de Letras (Tirol).

Na obra, Racine revisita cenários culturais e políticos de seus 20 anos. Ao lembrar-se daquela Natal antiga, vê hoje dias de “apatia”
Na obra, Racine revisita cenários culturais e políticos de seus 20 anos. Ao lembrar-se daquela Natal antiga, vê hoje dias de “apatia”

Romance de fundo histórico, o livro traz no centro da trama o ator e ativista político Eduardo. Ele retorna a Natal para uma missão especial, mas em paralelo busca reencontrar a namorada Martha, que havia deixado para trás quando precisou partir. De volta à capital potiguar, ele se depara com uma cidade que vivia naquele ano de 1968 grande agitação cultural e política. Havia o Teatro de Amadores de Natal, o Cineclube Tirol, o Poema-Processo, as discussões acirradas nas Cocadas (Praça Kennedy), os papos de botequim n'A Palhoça (antigo bar na Deodoro da Fonseca, vizinho ao Cine Rio Grande), tudo isso é citado no livro, até a exposição de Falves Silva no Francesinha, o cabaré das Rocas.

Para recriar aquela Natal antiga, inclusive com personagens e acontecimentos reais, Racine bebeu nas memórias da juventude e em jornais antigos. Ele tinha exatos 20 anos na época, integrava o Teatro de Amadores de Natal, dirigido por Sandoval Wanderley, acompanhava o que tinha de debates culturais e políticos. “Lançamentos de livros, festivais de música, também vi debates acalorados em torno de política e arte nas Cocadas, que era um lugar onde dava intelectuais e políticos, e n'A Palhoça, que era o bar pra onde a gente ia depois das sessões do Cineclube. A peça 'À próxima vítima', por exemplo, de fato foi montada no Teatro Alberto Maranhão. Também tinham os hippies, que contestavam o status quo da época. É um romance muito referencial. Tentei criar o clima de 68”, conta o autor, sem esquecer de ressaltar a pesquisa documental. “E nisso sou agradecido à Tribuna do Norte por me dar acesso ao arquivo do jornal”.

Esta é a primeira vez que Racine toca na Ditadura Militar em um texto, embora já tenha abordado como tema a questão do poder em duas de suas peças,  no caso “A Farsa do Poder” (1978) – com quase 100 apresentações só no TAM – e “Elvira do Ypiranga” (1994). “Falei do poder nessa peças, mas ridicularizando, porque ridicularizar o poder é uma forma de derrubá-lo”, reflete o dramaturgo, que desde 2013 está afastado do teatro. Mas “De susto, de bala, ou vício” o autor revela que surgiu originalmente de um esboço de monólogo, que por sinal abre o romance. “Tinha essa ideia de um personagem sozinho num bar conversando com um gato. Escrevi há 20 anos, mas guardei na gaveta. Fui retomar nos últimos anos, já decidido a fazer um romance”.

“De susto, de bala, ou vício” seria lançado em 2018, exatamente quando se completava 50 anos de 68. Mas, por causa do ambiente político das eleições, Racine preferiu segurar o lançamento e evitar com isso más interpretações que pudesse surgir na época. Quis o destino, no entanto, que o lançamento acontecesse justamente num cenário nacional onde a classe artística suspeita de ataques à liberdade de expressão.

“Rever essa ameaça 50 anos depois de 68 é algo que me deixa apreensivo. Estou realmente preocupado com o que pode vir aí pela frente. Já estamos vendo um retrocesso na política e na cultura”, diz o escritor. “E, olhando para Natal, vendo o Alberto Maranhão e a Biblioteca fechados, eu me incomodo também. Até me pergunto onde estão os artistas de hoje? Percebo que há uma apatia. E o que muda a sociedade é a rebeldia”.

Nem bem lançou seu livro novo, Racine já tem em mente o próximo trabalho. Vai se chamar “Nas Asas do Pavão Misterioso”. Será o segundo romance de uma trilogia sobre um Nordeste Mágico, iniciada com a publicação do romance “Macaíba em Alvoroço”, em 2017. “O 'De susto, de bala, ou vício' não tem nada a ver com a trilogia. É um livro à parte, uma ficção histórica. O próximo romance é que vai dar continuidade ao universo ficcional iniciado em 'Macaíba em Alvoroço', se passando naquele mesmo espaço tempo”.

SERVIÇO
Lançamento “De susto, de bala, ou vício”, de Racine Santos, dia 19, às 19h30. Academia Norte-Riograndense de Letras (rua Mipibu, 443, Petrópolis). Preço: R$ 40

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