Emas

Publicação: 2019-11-08 00:00:00 | Comentários: 0
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Dácio Galvão
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Duas ou três historinhas da Rhea americana, da família Rheidae ave habitante da caatinga aberta perpassam tempos imemoriais no imaginário coletivo chegando a contemporaneidade. Ameaçada de extinção, resiste. Na década de 1990 do século passado foi introduzida na Estação Ecológica do Seridó, município de Serra Negra do Norte. 

Vulgarmente conhecida por “ema”, foi pintada em gravuras rupestres estimadas em datação de 9.000 anos. Estão em registros de grupos de caçadores pré-históricos. Paredes de cavernas arqueológicas conhecidas como subtradição Seridó, da Tradição Nordeste, do Rio Grande do Norte testemunham. Ave típica da região semi-árida. As pinturas estão nas serras escarpadas bem acima do nível do mar. O pesquisador sertanejo José de Azevedo Dantas reproduziu pioneiramente nos anos de 1920, do século XX inúmeras dessas imagens no seu livro caligráfico “Indícios de uma Civilização Antiquíssima”. Incluindo mais duas tradições: a Nordeste e a Itaquatiara.

Quando o pintor e paisagista holandês Frans Post, retratou em 1639, a Fortaleza dos Reis Magos para consistir na ilustração do livro do historiador Gaspar Barléu ("História dos Feitos Recentemente Praticados Durante Oito Anos no Brasil e Noutras Partes sob o Governo de Wesel, Tenente-General de Cavalaria das Províncias-Unidas sob o Príncipe de Orange"1647), na estampa de nº 30, aplicou arte heráldica no trabalho. Ali aparece emblemática a ema e a inscrição na flâmula: “Fluvius Grandis” referendando o Rio Potengi. Foi no contexto do Rio Grande do Norte sob domínio holandês. Natal recebia a charmosa denominação de Nova Amsterdã. Outro artista neerlandês, Albert Eckhout (1610-1666) produziu a tela Índio Tapuia, em 1641. Retrata a tipologia do guerreiro Tarairiú. Pintou e desenhou costumes e paisagismos. Estudiosos identificaram nesse quadro um enduape ou adorno de pena de ema. Adereço plumário conduzido por flecheiro. Aparece amarrado circularmente na altura do abdômen mas localizado e sustentado nas costas.

Contrário os versos de João do Vale indicando que a ratita “traz no meio do seu canto um bocado de azar”, o etnólogo Oswaldo Lamartine de Faria não à toa ressignifica por dentro da simbologia reversa o ovo da ema. É atitude de multiplicação amorosa. Sim. Amor pelos livros. Livros que já nascem raros. Edição limitada para escritores-consumidores. Mas de livros ilimitados nos seus conteúdos.  De teor regional, de alcance cosmopolita. Explico: Oswaldo de espírito bibliófilo tentou levar a efeito por mais de uma vez sem sucesso seu projeto “Alfarrabistas - Indez da Ema”, desde 1974. A missão era “tirar do choco o Indez da Ema”. O indez designa um ovo que é deixado no ninho de uma ave, para que ela volte a pôr ovos novamente. Multiplicando-os. Eis a chave metafórica lamartineana. Publicar livros e rareá-los. Sendo cada um potencial embrião para publicação de outros. Imediatamente. Gerando áurea contínua mesmo no apogeu da reprodutibilidade digital. E, olhando no retrovisor se constata que o texto clássico “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica” do filósofo alemão Walter Benjamin foi publicado em 1955! É o contraponto. Em 1998, Lamartine me procurou e passou cópia xerox da ata de fundação e do estatuto da entidade alfarrabista. Intencionava submeter a leitura dos documentos que datilografara ao grupo que seria diretivo: O Agresteiro Diógenes da Cunha Lima; O Salineiro Vicente Serejo; o Praieiro - Dácio Galvão; o Lazarino, Oswaldo Lamartine. O intuito era registrar em cartório oficializando os Alfarrabistas - Indez da Ema. Mais: trazia um layout de folder para divulgação. Projetara e fazia constar na capa a titulação em caixa alta “MEMÓRIA DO ACARI” acompanhando o desenho em grafite do ferro de marcar, da Ribeira de Serra Negra do Norte. O panfleto vincado distribuía em 6 faces a palavra, quase-frases caligráficas e soltas. Indicava textos que comporiam o folheto publicitário. Lamartine gostava de desenhar e de gerar concepções gráficas-visuais. Nas páginas estavam: “Homenagem... Quando se atravessa... Em abril de 1738... Olhei emocionado... Centro de Estudos e Pesquisas Juvenal Lamartine...” Chama a atenção o desenho-ícone que criara do ovo de ema aonde figura dentro do contorno um pintinho da ave. Logotipo de grande sacada. Ele aparece fixado na parte superior esquerda do papel ofício. O zelo oswaldiano e a consciência do apelo ao arcaico artesanal impressiona. Eleva plasticamente a visão etnográfica.

O disco Potiguar, da Orquestra Sinfônica – RN lançado pelo selo Nação Potiguar, da Fundação Helio Galvão, traz 11 faixas e participações de vários músicos convidados e repertório compacto de autores potiguares. Elenco da calibragem de Dominguinhos, Roberto Corrêa, Naná Vasconcelos, Paulo Moura... Arranjadores da categoria de Rogério Duprat, Gil Jardim, Júlio Medaglia, Antonio Madureira, Nailor Proveta Azevedo... E, fazendo uma única voz o multiartista Antonio Nóbrega. Na verdade, o CD é mostra intensa da criação musical local escrita por Hianto de Almeida, Paulo Tito, K-Ximbinho, Elino Julião, Chico Antônio, Tonheca e Felinto Lúcio Dantas... Entidades na identidade!! Lição conceitual de Mário de Andrade na tentativa de fazer valer as desfronteiras. Ou fronteiras em aberto. Localismos sem xenofobismos. Antes, a antropofagia cultural. Neste contexto de busca cosmopolita eis que estampamos na capa do CD, de acabamento em verniz UV localizado, a figura de duas emas! A ideia era reforçar identidade visual ancestral. Foram fotografadas no mural de imagens do sítio arqueológico Xiquexique, em Carnaúba dos Dantas. Subimos, escalamos... Guiados pelo historiador Helder Alexandre Medeiros de Macedo chegamos ao salão aonde se encontravam. Então, a fotógrafa Candinha Bezerra flagrou e clicou.  Resultado: a fotografia foi reproduzida e estendida da capa à contracapa. Um casal de emas caminhando. Uma atrás da outra. De perfil. Certamente como foram vistas pelo pintor pré-histórico. Bem tranquilas.

Criei por anos um terno de emas. Um macho e duas fêmeas. Não tinha canto. O macho emitia “esturros”. É assim que se diz no sertão. Esturros guturais. Som grave. Dub só com contrabaixo em rotação 45. Sensação de ondas sonoras graves imersas e propagadas no solo. O que eu mais curtia: era observar o hábito delas comerem moedas bancárias. Portanto, destruidora de acúmulo de capital!kkkk Uma vez convidado pelo mestre Dominguinhos fizemos parceria na música Saudades de um Amigo (Candeeiro). Mônica Salmaso arrebentou lindamente na voz. Foi dedicada a memória de Elino Julião. Meu texto: Candeeiro no sertão apagou / Corisco no céu riscou / Tangerino da alegria e da dor / Sorriu seu canto se encantou / Rastro de boi pelos campos / Sericóia, Casaca de Couro /  São Severino, Santana, Timbaúba / Os açudes sangram e na revença / Brotam flores da saudade que ficou / E no chão o olhos d’água a correr / Seridó serra serrote muçambê / No horizonte choram as nuvens / Nas latadas folhas de oiticica / O forró, o melê, as meninas / Dançam na sombra do juazeiro / E agora correm emas, voam seriemas.




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