Emerson Arcoverde: "A doença mental tem causa multifatorial"

Publicação: 2019-10-13 00:00:00 | Comentários: 0
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Ricardo Araújo
Editor de Economia

O uso indiscriminado de redes sociais diversas, a ampliação do tempo dispensado às telas de computador, tablets e smartphones diariamente têm contribuído para o adoecimento mental de crianças e adolescentes. O afastamento dos referenciais de família, o isolamento dos grupos, a queda no rendimento escolar e o pensamento de morte são apontados pelo Doutor em Psiquiatria e Diretor Médico do Hospital Dr Onofre Lopes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (HUOL/UFRN), Emerson Arcoverdes Nunes, como sinais de depressão em crianças, adolescentes e em jovens adultos. Na entrevista a seguir, Emerson Arcoverde detalha os motivos pelos quais a depressão é, cada vez, mais comum em crianças e adolescentes, os riscos do elevado consumo de redes sociais e o afastamento das relações interpessoais, que pode levar a um desfecho trágico: o suicídio. Acompanhe a entrevista.

Emerson Arcoverde Nunes, diretor Médico do Hospital Dr. Onofre Lopes (HUOL/UFRN)
Emerson Arcoverde Nunes, diretor Médico do Hospital Dr. Onofre Lopes (HUOL/UFRN)

O que está contribuindo para o aumento do número de casos de depressão entre crianças, adolescentes e jovens adultos?
Com os adultos, se tem a questão do adoecimento mental como causa, realmente, multifatorial. É difícil apontar uma só razão que vai fazer com que se tenha mais adoecimento mental. Se tem contribuintes. Então, a questão genética é um fator que contribui para a pessoa adoecer. Se alguém tem um parente com adoecimento mental grave, depressão, casos de suicídio na família, se tem uma chance maior de adoecer. Mas, além disso, o que se pode ter? Um grande fator de adoecimento na idade adulta são os estressores precoces. Desde os estressores na época do parto, um parto mais complicado, com uma assistência ao parto inadequada ou infecções, abusos físico ou sexual, contato com substâncias psicoativas na infância e na adolescência, tudo isso, favorece para que a pessoa tenha, realmente, mais contribuição para adoecer. A gente vê que as pessoas estão numa conjuntura que está levando a isso. Talvez uma infância/adolescência menos protegida, mais vulnerável tanto a estressores precoces como também ao uso de substâncias psicoativas e, talvez nessa conjuntura, uma genética que já existia na população, mas agora com as crianças e adolescentes mais vulneráveis a alguns estressores, se tenha o aumento do índice de adoecimento mental em infância, adolescência e adultos jovens. Tanto é que isso se reflete no número de suicídios que vem migrando: antes era mais prevalente em idosos e, hoje em dia, há uma prevalência aumentando muito em adolescentes e adultos jovens, que é a segunda faixa etária mais acometida por esse desfecho trágico.

O senhor falou em infância menos protegida e mais vulnerável. Quais tipos de vulnerabilidade se podem apontar?
Se há uma mudança dentro do perfil da própria família. Se tinha uma família que, antes, a gente acreditava que seria mais presente, visto que, se tinha o potencial de presença dos pais aumentado. Hoje, com jornadas de trabalho mais extensas, com pai e mãe, muitas vezes, não estando presentes como estavam antigamente, se teria esse contato muito maior com os pais que hoje é muito dificultado, também, por questões financeiras. Hoje, se tem uma infância/adolescência um pouco mais solta. Uma iniciação com o uso de substâncias (psicoativas) muito mais precoce do que era. Se tem cerca de 80% das pessoas até 18 anos no Brasil que já experimentaram álcool. Esse é um número gravíssimo, visto que, antes dos 18 anos não se pode usar álcool. Pais mais presentes, oportunidade de estar na escola, o índice de evasão escolar não diminuiu, o número de analfabetos não tem diminuído, ou seja, as crianças e adolescentes não estão nas escolas. Se tem pais menos presentes, até por necessidade financeira, uma escola que não está conseguindo manter os alunos nela, se tem uma permissividade e disponibilidade maior de substâncias psicoativas com os adolescentes cada vez mais soltos e as crianças mais vulneráveis. É uma conjuntura social que eu acredito que está contribuindo para uma piora da situação.

A questão da depressão e de outras doenças ligadas à mente, geralmente, não ocorrem de maneira abrupta, elas emitem sinais. Como esses sintomas podem ser identificados?
Como é um público que ainda está sendo muito exigido do ponto de vista acadêmico, se tem que estar indo para a escola, se tem notas, um rendimento que vai sendo avaliado regularmente, um grande indicador é o próprio rendimento escolar. Se uma pessoa vinha com um rendimento específico, aí se tem uma queda desse rendimento escolar, algumas vezes causada por falta de interesse ou empenho, mas em algumas partes das vezes é por adoecimento. Se alguém está deprimido, não se tem capacidade de concentração mantida. Se tem um prejuízo muito grande da capacidade de concentração e esse é um sintoma da depressão. Não é só tristeza, falta de gosto pelas coisas que antes dava prazer, pensamento de morte, não. Falta de concentração é um dos critérios de depressão. Logicamente, essa pessoa não irá conseguir prestar atenção na aula, ter um bom resultado nas provas, o rendimento vai cair naturalmente. Isso pode ser identificado pelos pais, com acompanhamento. Além disso, mudanças de comportamento, irritabilidade em excesso, isolamento social mais do que o esperado. A gente sabe que, geralmente, o adolescente se isola um pouco. Mas, se isolar até mesmo do grupo dele, que ele estava mais participante, uma irritabilidade aumentada, alterações graves de sono, isso com o rendimento escolar diminuído, já apontam para uma necessidade maior dos pais estarem mais próximos e indicam risco de adoecimento.

Estamos na era da conexão, do mundo digital. Como a proliferação de redes sociais, de avatares, contribui para o adoecimento mental?
Provavelmente, tem contribuído de maneira importante, tendo em vista que já existem estudos mostrando que o índice de depressão está relacionado ao tempo de tela de crianças e adolescentes. Quanto mais tempo expostas à tela dos aparelhos eletrônicos, maior chance de se ter depressão. Então, a gente está vendo uma relação que é cada vez mais crescente: o tempo que se passa exposto às redes sociais, à internet por meio de aparelhos eletrônicos. Estamos percebendo que ocorre um aumento do tempo que as pessoas passam e que, ao mesmo tempo, as pessoas estão adoecendo mais. E agora, existem estudos mais específicos que apontam que uma das causas é isso também: à exposição a esse tipo de experiência. Nós somos seres humanos e somos sociais. E parte da sociabilidade da gente depende do contato com outras pessoas. Então, existe um prejuízo quando esse contato é eletrônico. O contato interpessoal não é o mesmo.

Talvez, isso esteja interferindo no jeito das crianças e adolescentes se relacionarem, já que eles estão se relacionado com coisas que, realmente, não mimetizam, que não fazem jus ao que é um relacionamento humano. E, talvez, elas estejam ganhando em capacidade de um tipo de relacionamento, que seja o eletrônico, e perdendo numa capacidade de relacionamento genuíno que é o relacionamento interpessoal. E aí, talvez, se tenham pessoas mais frágeis, mais vulneráveis, mais ansiosas frente a qualquer problema que venham a ter na vida porque não tem a flexibilidade de uma pessoa que tem maior relacionamento interpessoal. Na rede social, se há muito mais controle e, talvez, isso ajuda a lidar com inseguranças e ansiedades. Num relacionamento interpessoal, ao vivo, não se tem esse controle todo. Você não pode bloquear a pessoa, desligar o aparelho porque a pessoa está na sua frente. Se você priva adolescentes e crianças de terem esse desenvolvimento mais saudável com as limitações que um relacionamento interpessoal traz, eles serão mais frágeis. Eles não terão o controle que tem no Youtube, que param o vídeo quando querem, o pai estará brigando e ele não controla aquilo. Então, se tem pessoas que estão mais vulneráveis porque, provavelmente, estão perdendo oportunidade de se desenvolverem do ponto de vista de relacionamento (interpessoal) que é uma coisa essencial para termos um desenvolvimento saudável.

É um erro os pais condicionarem determinadas atitudes dos filhos a um tempo maior de uso de rede social ou aparelho eletrônico?
Principalmente, se esse tempo de uso já for excessivo. Um tempo de tela de até três horas não é um tempo patológico. Mas é um tempo televisão, celular, tablet tudo somado. Imagine, o que uma criança/adolescente precisa fazer para se desenvolver de maneira saudável. Quantas horas precisa passar estudando, assistindo aula, brincando, com outras atividades que não sejam celular, tablet e TV. Então, já tem um tempo muito longo. Como ficar seis, sete horas nos aparelhos eletrônicos se há uma série de coisas para se fazer ao longo do dia? Então, eu acredito que os pais devam até ter algum tipo de barganha, de acordo relativo ao tempo de tela, que seja minimamente saudável. A ampliação do tempo de acesso às mídias eletrônicas tem de ser limitado para o mínimo de tempo saudável. Se passar daquilo, não vai fazer sentido e poderá contribuir para uma alteração do desenvolvimento dessa criança/adolescente como pessoa e na prevenção de um adoecimento mental maior.

Como as redes sociais influenciam na saúde mental das crianças e adolescentes?
Os adolescentes estão num momento ímpar do desenvolvimento deles. Eles têm um problema mais intenso quando comparado com outras faixas etárias em relação à autoimagem e à autoestima, que são prejudicadas. Eles estão num momento de mudança de perfil não só físico, hormonal e social. Eles estão tentando se encontrar. Então, nessa tentativa de se encontrar, ele terá questionamentos quanto à autoestima, imagem, e aí ele busca de maneira desenfreadas, modelos. Os pais não estão sendo mais sendo adequados e eles buscam isso fora, até mesmo em identificação de grupos. Há uma necessidade de identificação. As redes sociais mudaram isso. Hoje se tem os influenciadores digitais que ditam moda, ditam costumes e, inclusive, o que é o sucesso. Imagine que esse imediatismo pode fazer mal ao adolescente, que em sua cabeça não tem a questão do planejamento, à espera pelo resultado não está bem definida, ele é imediatista. Nessa fase, a parte do cérebro responsável pelo planejar, pelo racionalizar, ainda está em desenvolvimento. Ser exposto a isso, a essa mídia que dita regras diversas, é muito deletério nessa faixa etária. Um adulto vendo isso e que teve um desenvolvimento normal, pouco vai fazer diferença. Ele sabe que o sucesso é baseado em resultado de algo que se faz bem feito, pois já amadureceu. Colocar um adolescente frente a essa realidade quando ele está mais distante dos pais, por exemplo, é altamente danoso.

Quem
Emerson Arcoverde Nunes é médico, com Residência Médica em Psiquiatria na Universidade de São Paulo (USP). Doutor em Saúde Mental pela USP. Atualmente, é diretor médico do Hospital Universitário Dr Onofre Lopes (HUOL/UFRN).







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