Emprego, crescimento e indústria

Publicação: 2020-02-16 00:00:00
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Fernando Valente Pimentel

Presidente da Abit (Associação     Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção)



Embora o saldo positivo de empregos formais do Brasil em 2019 tenha superado as expectativas, com um resultado de 644,07 mil vagas, ainda falta cerca de 1,2 milhão para repormos as cerca de três milhões perdidas na recessão, já contabilizando as 1,1 milhão criadas em 2017 e 2018. Há, ainda, a demanda das pessoas que ingressam no mercado.

Para reduzirmos as desigualdades e ascendermos ao patamar de economia de renda alta, precisamos acelerar o crescimento e gerar empregos em escala maior e mais produtivos. O baixo desempenho resulta dos graves problemas que enfrentamos nos últimos anos, principalmente o imenso déficit fiscal que quebrou o País, que vem sendo enfrentado pelo atual governo.

Felizmente, vários passos já foram dados, como a reforma da previdência, avanços importantes na área trabalhista e o marco das telecomunicações, relevante para avançarmos na agenda da manufatura avançada. Abrimos 2020 com a expectativa de que haja continuidade na agenda de reformas e das medidas voltadas a destravar os investimentos. No entanto, coloca-se uma questão crucial para vencermos os desafios do crescimento: o fortalecimento da indústria e a recuperação de sua competitividade sistêmica.

Nos dados relativos aos empregos em 2019, ficou inconteste que o setor contribuiu pouco, com um saldo positivo de apenas 18,34 mil vagas, dentre as 644,07 mil do total nacional. Em contraste com isso, em 2010, período forte de expansão da manufatura, apesar de seu voo curto, somente o segmento têxtil e de confecção havia gerado 65 mil postos formais de trabalho. Iniciamos uma recuperação, mas em 2019 ainda registramos déficit de 10,28 mil vagas, muito menos, é verdade, do que em 2018, quando o saldo negativo foi de 27,32 mil.

As estatísticas relativas ao mercado de trabalho são um alerta sobre a necessidade de consistente retomada da indústria, cujo fortalecimento depende das reformas estruturais, para a redução do custo da produção no Brasil. Além da solução desses gargalos, precisamos de uma política industrial eficaz, focada no aumento da produtividade e já sintonizada com as tendências do mundo, que ruma para a quarta revolução industrial, ancorada em tecnologias muito avançadas e ao advento da produção sustentável e de ambientes de negócios marcados pelo compliance, transparência e lisura.

Como se observa nas principais e mais desenvolvidas economias, uma nação com as dimensões territoriais e demográficas do Brasil precisa de uma grande indústria. É premente voltarmos a ter políticas focadas para o setor, com a participação do governo, iniciativa privada, institutos de pesquisa e universidades. Nesse sentido, o setor têxtil e de confecção está trabalhando bastante com o Sistema S e organismos públicos, como a ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial) e Apex.

Aguardamos, ainda, o retorno do equivalente ao Programa Brasil Mais Produtivo (B+P). Também teremos de cuidar do enorme contingente de desempregados que se ocuparão de funções mais tradicionais, porém ainda necessárias.

O Brasil precisa de muito foco na agenda do desenvolvimento industrial, inovação e tecnologia. Por isso, cabe lembrar frase emblemática de Paul Krugman, economista agraciado com o Prêmio Nobel: “Produtividade não é tudo, mas no longo prazo é quase tudo”.


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