Empresa contratada pela Funpec quer ter acesso a inquérito do MPF

Publicação: 2019-06-04 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Luiz Henrique Gomes
Repórter

O Grupo Fields 360, único participante e vencedor da licitação para realizar a campanha publicitária “Sífilis Não” no valor de R$ 50 milhões, protocolou um pedido no Ministério Público Federal (MPF) para ter informações sobre o inquérito civil que investiga o contrato entre a empresa e a Fundação Norte-Rio-Grandense de Pesquisa (Funpec). O sistema do MPF registrou o pedido na última sexta-feira, 31, e juntou ao inquérito no mesmo dia. A investigação teve início do dia 20 de agosto do ano passado, 15 dias depois do registro do fim da licitação e antes da assinatura do contrato.

Entre as peças publicitárias da campanha Sífilis Não estão vídeos de uma webserie no Youtube
Entre as peças publicitárias da campanha “Sífilis Não” estão vídeos de uma webserie no Youtube

Apesar de tramitar na esfera civil, onde os processos não são sigilosos, o inquérito não está disponível para consulta porque o procurador da República Kleber Martins de Araújo pediu reservas. A reportagem solicitou acesso ao conteúdo do inquérito, mas não teve o pedido atendido até o fechamento desta matéria. De acordo com informação da assessoria de comunicação do MPF concedida na última sexta-feira, a maioria desses casos acontecem quando é necessário preservar dados pessoais.

A abertura da investigação começou a partir de uma denúncia anônima. As únicas movimentações processuais disponibilizados pelo MPF foram o recebimento da denúncia, às 16h12 do dia 20 de agosto, e a respectiva distribuição para o gabinete do procurador Kleber Martins de Araújo, às 18h26 do mesmo dia. Na consulta processual, consta que ele está no 'Grupo Temático de Combate à Corrupção', que investiga 'crimes de responsabilidade e improbidade administrativa'. De acordo com os registros do MPF, esse é o único inquérito aberto relativo à Funpec. 

O contrato entre a fundação e o Grupo Fields 360 aconteceu no dia 10 de setembro de 2018 para a realização da campanha “Sífilis Não”, que veiculou nacionalmente em jornais, revistas, redes sociais, canais de televisão e emissoras de rádio a partir de novembro. A campanha faz parte do “Projeto de Pesquisa Aplicada para Integração Inteligente Orientada ao Fortalecimento das Redes de Atenção para Resposta Rápida à Sífilis”, uma parceria entre o Ministério da Saúde e o Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (Lais), da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, para melhorar os indicadores da doença no Brasil nos próximos anos. O projeto se iniciou em dezembro de 2017 e vai até 2022.

De acordo com a Funpec, R$ 46,6 milhões já foram pagos ao Grupo Fields 360. Isso representa 92% dos R$ 50 milhões disponíveis para a campanha. O dinheiro é proveniente do Ministério da Saúde e foi transferido à Funpec no dia 2 de outubro do ano passado. Segundo  o empenho global da campanha, obtido com exclusividade pela TRIBUNA DO NORTE, esses pagamentos cobriram a produção das peças publicitárias, no valor de R$ 32,2 milhões, e a veiculação, de R$ 14,4 milhões.

Além do contrato com publicidade, o projeto também tem recursos para pagamento de bolsas, diárias, compra de equipamentos e montagem de 237 salas de monitoramento da situação da sífilis no Brasil, totalizando R$ 165 milhões. O professor universitário Ricardo Valentim, gestor do projeto, declarou que o tempo do projeto vai até 2022 e, portanto, ainda haveriam novas licitações. “O projeto está só começando e ainda não é possível mensurar os resultados dele porque isso demanda uma pesquisa científica”, afirmou à reportagem na última sexta-feira, 31.

A TRIBUNA DO NORTE procurou o Grupo Fields 360 para se pronunciar sobre o inquérito do Ministério Público Federal (MPF) e o respectivo pedido de informação feito pela empresa. Por telefone, os advogados  do grupo não quiseram antecipar detalhes sobre  o caso.

Despesas de veiculação  atingiram R$ 14,4 milhões
Entre as despesas com as produções publicitárias, vídeos de 15 segundos custaram R$ 100 mil e totalizaram R$ 1,5 milhão – 15 vídeos foram produzidos por esse valor. As peças principais (quatro propagandas com duração de um minuto, dez vídeos de até dois minutos e um filme para profissionais de saúde) custaram R$ 6,6 milhões do orçamento. Também foram contratadas uma empresa para hospedagem e gerenciamento de campanha digital, no valor de R$ 589 mil, e outra para distribuição do material no WhatsApp, no valor de R$ 735 mil. Todo custou de produção foi pago pela Funpec e está registrado nas notas fiscais.

A produção contempla a gravação das locações, edição, computação gráfica, legendagem, color e finalização, além do cachê de apresentadores. Como se tratou de uma campanha nacional veiculado nos mais diversos canais de comunicação,  muitos profissionais foram pagos pela agência como apresentadores. Segundo os relatórios fiscais, um desses cachês, que contemplou “oito merchandisings e três ações integradas” em uma rádio de veiculação nacional, custou R$ 35 mil.

Outra cifra que consta no relatório fiscal é a de um ensaio de oito fotos em estúdio para serem veiculadas na “mídia impressa, exterior, DOOH, OOH, mídia alternativa, internet, landing page, redes sociais e eventos”. O valor foi R$ 250 mil, contemplando “cachê de modelos, figurino, cenário, 3D, manipulação e fusão de imagem, 04 BGS em 3D, 06 postit grandes em 3D”.

O que
O  Projeto de Pesquisa Aplicada para Integração Inteligente Orientada ao Fortalecimento das Redes de Atenção para Resposta Rápida à Sífilis é uma parceria entre o Ministério da Saúde e a Universidade Federal do Rio Grande do Norte para melhorar os indicadores de sífilis no Brasil nos próximos anos. A intenção é desenvolver pesquisas para traçar estratégias de comunicação e prevenção à sífilis e oferecer ao Ministério da Saúde propostas de políticas públicas. O projeto tem R$ 165 milhões disponíveis pelo Ministério da Saúde.

A campanha publicitária “Sífilis, Não” está dentro do projeto e custou R$ 50 milhões dos R$ 165 milhões totais. O restante do orçamento é destinado para o pagamento de pesquisadores e compra de equipamentos. Segundo o gestor da pesquisa, o professor Ricardo Valentim, uma nova licitação deve ser lançada para montagem de 237 salas de situação para monitoramento de casos da sífilis.







continuar lendo


Deixe seu comentário!

Comentários