Encanto de moça nua - III

Publicação: 2021-01-28 00:00:00
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação

Oswaldo Lamartine era um leitor de Manuel Bandeira e Joaquim Cardozo. De cabeceira, como se diz. De Bandeira, tinha poemas-autógrafos. É tanto que está aqui, numa parede desta caverna de livros velhos, o “Vou me embora pra Pasárgada”, do próprio punho do poeta, em letras graúdas e fortes sobre papel vegetal. De Cardozo, ouvia ele dizer a “Canção” naquela sua récita em voz de contralto que começa assim: ‘Venho para uma estação de água nos teus olhos’.

Com o tempo, amansei os ouvidos e por isso não mais ficava espantado, mas encantado, com certas expressões que Oswaldo usava. Tinha formas pessoais para expressar encantamento e desprezo, entusiasmo ou reprovação. Lembro que uma vez, diante do fio perfeito de uma faca norte-americana - tinha fascínio por armas brancas - disse para atestar a perfeição do aço e do corte, quando indaguei sobre a qualidade que ele tanto elogiava: ‘Tem o encanto de moça nua’. 

Naquele tempo, a memória ainda andava também no fio, perguntei se era influência do poema de Joaquim Cardozo. Ele respondeu apenas com um vestígio de riso saído ali, no canto da boca: ‘Não deixa de ser’. Lembrei do poema ‘Imagem do Nordeste’ - aquele que fala do ‘capim orvalhado por baixo das mangabeiras’. Procurei os versos - o livro salva o cronista dos abismos da memória - e são, exatamente, assim: ‘Idílio de amor perdido / encanto de moça nua’.

Joaquim Cardozo, pelo menos para nós, os leigos, passa um belíssimo sentimento de vastidão. De um poeta não só de versos, mas principalmente de olhos livres, sem medo de cair nas armadilhas das técnicas de versificação. O ritmo e a sonoridade de seus versos compõem as belas canções daquela poesia que parece ter desaparecido. Por isso é preciso tê-la, por perto, desde sempre: ‘Mulheres das ruas, / desprezadas, malditas; / mas tão puras, tão boas, tão nuas’. 

Penso que cada pessoa tem seu jeito próprio de olhar o mundo. Os mais sisudos - que pena deles, meu Deus! - enforcam-se nas suas próprias gravatas.

 Num ismo de tola solenidade que sufoca a eles mesmos. Alguns, destituídos de singularidade, distribuem a falsa bondade na busca de esconder a mediocridade. E, no entanto, o rabo espicha nos inúteis penduricalhos que amontoam abaixo do seus nomes, arrimados nissos, naquilos, naquilos-outros e tantos mais.

Era bom conversar com Oswaldo no alpendre de Acauã, fazenda espreguiçada à sombra da Serra dos Macacos, em Riachuelo. Lembro as viagens, com Haroldo Bezerra. Já levávamos gelo e uísque. Tomávamos o café lá nas Marias. Quando entrávamos nas terras de Acauã, cabia a mim abrir e fechar as porteiras. Ainda de longe, avistávamos as redes no alpendre. Uísque, a conversa mansa, e o almoço: paçoca, feijão verde, arroz e rodelas de abacaxi. E vem a saudade.  

QUANTO? - A denúncia do deputado Tomba Farias - um desvio de R$ 50 milhões de recursos dos municípios para pagar as folhas atrasadas, se confirmada, desmantela a retórica do governo.

EFEITO - Até agora, por coincidência, esta coluna não teve resposta sobre a denúncia de que o governo também retém recursos do Proedi que deveriam ser pagos às empresas beneficiadas.   

LENTE - As entidades representativas de classe teimam em não compreender que a discussão da reforma do Plano Diretor é essencialmente política. Só a negociação pode evitar o confronto.

MAIS - Esta coluna tem avisado que algumas causas, se coletivas, poderão ser assumidas pelo Ministério Público. Não está fora de possibilidade um processo lento e feroz de judicialização.

ALIÁS - Os impasses, quando endurecidos pelo confronto de forças e a judicialização, tendem a levar a luta a uma guerra de vencidos. Só a capacidade de negociação gera uma saída política.

PERDA - O movimento editorial nordestino perde o livreiro e editor Tarcísio Pereira que fez da Livro 7, Recife, a maior livraria do Brasil em acervo e espaço. Aos 73 anos, vítima do Covid. 

FAKE - O humor da temporada fica por conta dos R$ 15 milhões que o presidente Bolsonaro teria consumido, em dois anos, em leite condenado. Quem com ferro fere, com ferro será ferido.

LUTA - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, ao ouvir as agruras de um boêmio na grande luta contra um amor impossível: “A alma nunca aprendeu a esconder a dor do amor”.  

NAVARRO - A memória do artista plástico Newton Navarro vai ganhar catálogo especial com a reprodução das 65 telas do acervo do advogado e professor Armando Holanda, propriedade de Holanda Advogados, representativa de todas as suas fases. E será publicado ainda este ano. 

MEMÓRIA - Fará parte do catálogo a transcrição integral da entrevista de Newton Navarro ao programa Memória Viva, depoimento indispensável ao registro da vida e produção intelectual como artista e como escritor. Navarro é autor de livros de contos, crônicas, poesias e de teatro. 

SÉCULO - A edição crítica do ‘Livro de Poemas’, de Jorge Fernandes, do escritor Humberto Hermenegildo, deve ser o lançamento literário mais importante em 2022, ano do centenário da Semana de Arte Moderna de 1922. Uma poesia que foi notícia nas grandes revistas modernistas.  









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