Enchentes dizimaram viveiros

Publicação: 2015-07-05 00:00:00
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A desativação de unidades produtoras de camarão em 2011 atingiu 14 municípios potiguares e centenas de pessoas perderam emprego, principalmente mulheres, que atuavam no beneficiamento do camarão.

Após as enchentes que dizimaram viveiros nos anos de 2004, 2005, 2008 e 2009, o estado potiguar perdeu 832 hectares de área produtiva. As fazendas Maricultura Tropical e Camanor Peixe Boi foram transformadas em salinas. Outro resultado negativo para o Rio Grande do Norte, decorrente dos reveses na produção do camarão, foi a mudança de endereço do principal evento do setor. Hoje, a Feira Nacional do Camarão (Fenacam), que movimenta milhões em negócios, é realizada no Ceará.
As chuvas que caíram no Rio Grande do Norte em abril de 2008 deixaram rastros de destruição em diversos municípios do RN e atingiram as fazendas de camarão
O economista Aldemir Freire esclareceu que a carcinicultura perdeu força nos últimos dez anos em todo o país e também no cenário internacional das exportações, depois do ‘boom’ do início dos anos 2000. “Tivemos uma espécie de bolha do camarão no Rio Grande do Norte. Com as questões sanitárias e cambiais, restaram no mercado os produtores mais fortes economicamente e capacitados tecnicamente”, analisou. Ele destacou, que apesar de todo o período de desaceleração, o mercado tem apresentado suave melhoria com as exportações registradas em 2013 e 2014. “É possível retomar o patamar de produção do início da década passada, mas não será tão rapidamente”, frisou o economista.

Mancha branca
Para um dos maiores produtores de camarão em cativeiro no estado, Enox Maia, da Aquarium Aquicultura do Brasil Ltda., o que ocorreu não foi perda de negócios, mas de mercado. “O principal problema foi a falta de expansão da atividade carcinicultora no Rio Grande do Norte. No Ceará, os viveiros foram interiorizados, mais municípios passaram a produzir e em larga escala”, listou Maia. De acordo com o mais recente levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Ceará produziu 33,9 mil toneladas de camarão em cativeiro em 2013. Na lista das 125 cidades com os maiores índices de produção n país, o estado cearense ocupa da primeira à quarta posição (veja tabela).

Além dos problemas relativos ao mercado, o camarão produzido no Rio Grande do Norte enfrentou uma enfermidade que, segundo Enox Maia, dizimou quase metade dos camarões produzidos em cativeiro no ano passado. A ‘mancha branca’ (white spot, em inglês),  chegou ao estado potiguar em 2012. Nenhum caso havia sido registrado até 2004, até produtores de Santa Catarina perderem parte da produção por causa do vírus. Nos camarões afetados pela ‘mancha branca’, não há formação do intestino,  pois eles não se alimentam. Apresentam, ainda, cor rosada e ausência de sais de cálcio na casca. Sem tratamento eficaz, morrem em poucos dias.

Para tentar reverter o quadro, principalmente nos meses de março a agosto, nos quais há maior precipitação pluviométrica, a Associação Brasileira de Criadores de Camarão investiu em cursos de biossegurança e implementação de tecnologias voltadas ao desenvolvimento de larvas mais resistentes às doenças.  Por causa da ‘mancha branca’, muitos produtores estão realizando rotação de culturas nos viveiros. Eles reduziram pela metade o ciclo de despesca – de 4 para 2 – e, em alguns municípios, passaram a ocupar os tanques com tilápia, na ‘entre-safra’ do camarão, que rende mais em peso e tamanho nos meses mais quentes do ano.

Em relação ao mercado, a ABCC listou que é preciso remover os obstáculos relativos “à ação antidumping (7,05%) imposta pelos Estados Unidos, cujas revisões anuais tem efeito retroativo e, pela insegurança da política econômica brasileira, afasta os importadores”.  Há, ainda, a questão relativa ao Sistema Geral de Preferência (SGP) nas exportações para a União Europeia, que taxou a entrada do camarão brasileiro na Comunidade em 12% (para o produto processado) e 20% (produto com valor agregado). O Equador, que exporto mais de 250 mil toneladas ano passado, conseguiu sair da ação antidumping dos Estados Unidos e fixou a taxação em 3,6% até julho do ano que vem, quando passará a ser zero.

O ano das enchentes
Um ano atípico. O cenário era desejado por qualquer sertanejo, mas acabou se transformando em catástrofe natural. As chuvas que caíram no Rio Grande do Norte em abril de 2008 deixaram rastros de destruição em diversos municípios da região Oeste. Cidades foram alagadas, plantações de frutas para exportação, lavouras de subsistência foram devastadas e fazendas de camarão arrasadas pela enxurrada. Vários reservatórios públicos e privados transbordaram em níveis nunca antes registrados, incluindo a Barragem Armando Ribeiro Gonçalves, o maior reservatório artificial de superfície do estado potiguar. Cidades do Oeste potiguar como Ipanguaçu, Macau, Porto do Mangue, Açu e distritos menores ficaram alagadas e a população sofreu com as consequências das chuvas. No litoral, na Região Metropolitana de Natal, a situação não foi diferente. Em Macaíba, as casas e lojas do Centro amanheceram alagadas. A rodoviária da cidade, que fica na rua Heráclito Vilar, ficou tomada pelas águas. Nenhuma loja da rua abriu no dia 3 de julho de 2008.

Os maiores produtores -
Veja, abaixo, o ranking de produção (em toneladas)
A partir de 2013, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) passou a tabular a produção de camarão no país. Em todo o Brasil, 125 municípios tiveram suas produções aferidas. O Rio Grande do Norte é o estado que concentra o maior número de cidades produtoras de camarão, mas perde para o Ceará em termo de produção. Isto porque, mesmo com seis localidades produtoras a menos, o estado cearense ocupa as quatro primeiras posições da lista dos maiores produtores.
+ Aracati/CE (1º) - 8,1 milhões
+ Acaraú /CE (2º) - 4,5 milhões
+ Beberibe/CE (3º) - 3,9 milhões
+ Jaguaruana/CE (4º) - 3,5 milhões

Os maiores produtores do RN e a posição no ranking nacional:
+ Mossoró (5º) - 2,9 milhões
+ Canguaretama (7º) - 2,6 milhões
+ Sen. G. Avelino (11º) - 1,7 milhão
+ Nísia Floresta (15º) - 1,5 milhão
+ Tibau do Sul (16º) - 1,4 milhão
+ Arês (19º) - 995 toneladas
+ Pendências (20º) - 943 toneladas
+ Guamaré (21º) - 824 toneladas
+ S.Bento do Norte (24º) - 713 toneladas
+ S. G. Amarante (29º) - 566 toneladas
+ Macau (30º) - 552 toneladas
+ Goianinha  (37º) - 250 toneladas
+ Taipu (37º) - 250 toneladas
+ Tangará (42º) - 240 toneladas
+ S. J. de Mipibu (46º) - 200 toneladas
+ Areia Branca  (48º) - 180 toneladas
+ Galinhos (48º) - 180 toneladas
+ Extremoz (51º) - 161 toneladas
+ Macaíba (54º) - 150 toneladas
+ Vila Flor (54º) - 150 toneladas
+ Ceará-Mirim (59º) - 110 toneladas
+ Baía Formosa (67º) - 75 toneladas
+ Nova Cruz (67º) - 75 toneladas
+ Grossos (69º) - 74,9 toneladas
+ Natal (70º) - 66 toneladas
+ Caiçara do Norte (79º) - 43 toneladas
+ Monte Alegre (103º) - 5 toneladas
Fonte: IBGE/RN

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