Enem 2020 tem recorde de faltosos no Rio Grande do Norte

Publicação: 2021-01-26 00:00:00
Felipe Salustino
Repórter

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2020 registrou recordes de abstenção em todo o País, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) nos dois dias de realização das provas. No último domingo (24), segundo dia de aplicação do Exame, foram 2.470.396 faltosos em todo o Brasil, o que corresponde a 55,3% do total de inscritos. No Rio Grande do Norte, o número de abstenções foi de 64.050 (49,6%) de um total de 129.102 inscritos.

Créditos: Alex RégisSegundo dia de provas do Enem ocorreu no domingo (24) em todo o Brasil. No Rio Grande do Norte, 64.050 candidatos faltaramSegundo dia de provas do Enem ocorreu no domingo (24) em todo o Brasil. No Rio Grande do Norte, 64.050 candidatos faltaram

Os índices deste domingo também são superiores aos do primeiro dia de aplicação, que ocorreu no domingo anterior (17), quando 60.505 (46,9%) candidatos potiguares deixaram de fazer a prova. Em todo o País, o número de abstenções foi de 51,5% no primeiro dia. Em comparação com o Enem 2019, o número de faltosos mais que dobrou no Rio Grande do Norte nesta mais recente edição. Naquele ano, 20,5% dos candidatos faltaram ao primeiro dia do Exame e 23,9% não compareceram ao segundo dia. O aumento expressivo no número de abstenções deste ano preocupa educadores.

Para a diretora pedagógica do CEI Romualdo, Cristine Rosado, o alto índice de faltosos registrado no último exame tem a ver com o nível de preparação de parte dos estudantes, especialmente aqueles de escolas públicas. “Muitos alunos ficaram sem aula e provavelmente não se sentiram capazes de fazer a prova. É um cenário muito mais voltado para a ausência de formação adequada do que pelo medo de contaminação por parte dos estudantes”, explica.

 Rosado descarta que a crise sanitária provocada pelo novo coronavírus seja o principal motivo do grande número de ausentes.

A diretora executiva do Instituto de Desenvolvimento da Educação (IDE), Cláudia Santa Rosa, concorda: “A fuga desses estudantes não se deu somente pela questão do vírus. Houve uma fragilização muito grande na preparação dos jovens que iam fazer a prova, principalmente nas escolas públicas, que não tiveram como respaldar os alunos”, esclarece.

“É verdade que alguns não foram (fazer a prova) por medo, mas o que aconteceu foi um abandono por falta de preparação”, acrescenta Cláudia Santa Rosa. Para ela, a realização da prova se deu em um momento inapropriado. “Não deveria ter acontecido agora. Todo mundo viu como foi o ano de 2020. Teve muito estudante que fez a inscrição para o Enem, mas sequer imaginava o que iria acontecer”, pontua a especialista. 

A aplicação da prova, nos moldes como foi aplicada, serviu para provocar o afunilamento da exclusão educacional que vive o País, na opinião de Cláudia Santa Rosa. “O Brasil tirou a possibilidade de esses jovens testarem seus conhecimentos. Por que aplicar a prova se as instituições de ensino superior sequer encerraram 2020? Quando os alunos aprovados neste Enem chegarão às universidades? Por que essa agitação para fazer a prova agora?”, questiona a diretora do IDE.

Motivação
Outra preocupação comum às educadoras ouvidas pela TRIBUNA DO NORTE, diz respeito à motivação dos estudantes que deixaram de fazer a prova. Como as duas avaliam que as causas para o alto índice de ausências pode ter sido a falta de preparação adequada, o receio agora é que esses alunos não encontrem motivação para tentar a próxima edição do Exame. 

“O risco é que, sem ferramentas para encarar uma nova rotina de estudos, esse candidato que não compareceu à prova fique desmotivado e desista definitivamente de tentar ingressar no Ensino Superior. É muito comum a gente vê alunos, preferencialmente os de renda mais baixa, optarem pelo ingresso no mercado de trabalho em vez de tentar um curso em uma universidade”, afirma Cristine Rosado”.

Cláudia Santa Rosa, do IDE, explica que se trata de uma questão de política pública e que o candidato precisa encontrar garantias de que poderá tentar novamente o Exame. “O Enem é política pública. O Estado precisa oferecer condições para um público-alvo específico, no caso, o aluno sem condições de ter uma preparação adequada, porque esses meninos podem não querer tentar mais (fazer a prova)”, avalia.

Ainda segundo Cláudia Santa Rosa, os prejuízos são grandes, principalmente porque não há perspectivas de mudanças, já que a pandemia deve continuar interferindo na rotina dos estudantes brasileiros. De acordo com ela, entretanto, o desafio agora é olhar para a frente. “O mal foi feito. Mas o que nos resta é saber se há alguma política pública educacional de inclusão para quem não teve acesso às aulas em 2020. Esses jovens precisam saber que o poder público não os abandonou. Isso é um desafio tanto para quem já ficou de fora do Exame, quanto para quem vai fazer a prova em 2021”, pontua.

Enem 2020 no RN
à 129.102 foi o total de candidatos inscritos no Estado;

à 60.505 (46,9%) foi o número de faltosos no primeiro dia;

à 64.050 (49,6%) foi o número de faltosos no segundo dia;

Fonte: Ministério da Educação (MEC)









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