Natal
Engenheiro da UFRN contesta obras nas principais vias de Natal
Publicado: 00:00:00 - 19/03/2014 Atualizado: 08:59:56 - 19/03/2014
Nadjara Martins
repórter

As obras de mobilidade urbana de Natal não têm sido contestadas apenas pelos natalenses que transitam pelos principais corredores da cidade. A construção de dois túneis e seis viadutos no perímetro que circunda o estádio Arena das Dunas – assim como os novos projetos do PAC da Mobilidade que foram apresentados pela Prefeitura na semana passada – são alvo da crítica, também, de um especialista em engenharia de tráfego.
Ramos afirma que ao planejar túneis e viadutos, prefeitura investe em “tecnologia ultrapassada” e destrói vida econômica da região
Segundo o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) Rubens Eugênio Barreto Ramos, engenheiro civil e especialista em trânsito, Natal segue na contramão das principais cidades do mundo que estão reestruturando seus sistemas urbanísticos e viários. Uma delas é o Rio de Janeiro: em 2013, a prefeitura da cidade derrubou o Elevado da Perimetral, um dos mais conhecidos da capital carioca. Enquanto isso, Natal planeja a construção de um elevado – que são avenidas construídas acima de outras, como um viaduto – na avenida João Medeiros Filho, que corta a zona norte da capital potiguar.

Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, o especialista curitibano, radicado em Natal há 22 anos, tece críticas ao projeto de mobilidade urbana da cidade, que envolve a construção de túneis e viadutos nas principais vias. De acordo com Ramos, a Prefeitura está investido em uma “tecnologia ultrapassada”, que não resolverá os problemas de tráfego. “Natal tem dois problemas: o caos do tráfego, causada pelas mãos duplas. O outro são as iniciativas pontuais: construção de viadutos que não resolvem os congestionamentos, só o transferem para outros lugares. Esse projeto segue o conceito obsoleto e errado de que mobilidade deve ser feita para veículos, quando deve ser feita para pessoas”, pontua. Seguem abaixo as principais declarações do especialista.

Entorno da Arena

Se você pega o projeto original do Arena das Dunas, que envolvia o estádio em um Complexo Urbanístico, composto por hotéis, restaurantes e centros de convenções, é possível ver que não existiam túneis e viadutos. Existia uma rotatória. No projeto original, ela seria ampliada. Existe algo parecido em Madrid, Espanha, em frente ao estádio Santiago Bernabéu. É uma rotatória larga, com várias faixas, que comporta o trânsito. O problema da Prudente de Morais poderia se resolver com a rotatória. Cerca de 1/3 do tráfego que vem da Prudente de Morais não precisaria ficar parado no sinal, uma vez que a intenção do condutor é passar direto. A rotatória que existia ficou pequena, claro, mas poderia aumentar de duas para três faixas. Não há nenhum estudo de tráfego, nenhum dado, que justifique a construção de viadutos. Não há nenhum ganho a mais na velocidade média do trânsito.
Para Ramos, o problema das principais artérias da cidade, a Prudente de Morais e a Salgado Filho, se resolveria estabelecendo mão única
Túneis e viadutos

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O que está sendo proposto atualmente é tirar os semáforos e colocar viadutos. Isso destrói a vida social e econômica da região. Ninguém quer viver em frente a um viaduto, os comércios minguam. Um exemplo é o Baldo: não existe vida comercial embaixo do viaduto; ninguém quer comprar nada por lá. Túneis também degradam o seu entorno: eles criam uma região em que as pessoas têm dificuldade para transitar. Na minha opinião, o viaduto estaiado que liga a Prudente de Morais é desnecessário, um monstro, e no dia que ele inaugurar, vai parar. Os veículos que descerem o viaduto vão parar no sinal da avenida Miguel Castro. O trânsito vai ser tão grande que vai subir o viaduto. A Prefeitura acredita que pode resolver problemas de sinal com viadutos e túneis. Mas e o entorno? E a cidade? Outra coisa: Natal quer construir um elevado na João Medeiros Filho (estrada da Redinha). De fato, resolve o congestionamento, mas vale a pena? Não. Você resolve um problema é destrói o comercio na região de baixo. Seul, na Correia do Sul, destruiu um elevado. Rio de Janeiro também. Fazer um elevado na década de 1950 era considerado moderno, mas em 2014 não é uma boa ideia. Se há um aprendizado em termos em engenharia de trânsito é que é preciso assegurar o trânsito das pessoas na superfície.

Passarelas
Passarela é coisa de terceiro mundo. Só serve para o carro, ao pedestre vira obstáculo: só atravessa quem realmente precisa dela. As pessoas não gostam, têm medo de assalto. A passarela nova que vai ser construída na Morais Navarro é uma vergonha urbanística, construída no meio da rua, utilizando uma faixa. Não precisamos de passarelas. Como  se faz países de primeiro mundo nos dias de jogo? Fecham o sinal. As pessoas atravessam. Isso se faz em Nova York, na movimentada Quinta Avenida. Qual é o problema de parar o carro no sinal e ter trânsito em pulsos? A cidade é isso: uma interação entre carros e pessoas. Minha crítica é justamente essa: as pessoas que andam de carro podem seguir direto, mas todo o entorno vai sair prejudicado. Viaduto só tem uma função: virar abrigo para sem teto.

Mão única
O problema das principais artérias da cidade se resolveriam estabelecendo sentidos de mão única nas vias. Recife já fez isso na região da praia de Boa Viagem. A avenida Salgado Filho no sentido zona sul em direção ao centro da cidade, e a Avenida Prudente de Morais em sentido contrário, segundo ele, conseguiriam absorver o tráfego e evitar a construção de túneis e viadutos. Mão dupla é útil em vias de baixo volume, em que não há disputa. O quadrilátero que envolve a região mais movimentada da cidade, que vai da avenida Salgado Filho à Coronel Estevam e da Bernardo Vieira à Mor Gouveia seria totalmente definido por mão única. Natal já fez isso há 40 anos atrás, na avenida Rio Branco, e não tínhamos metade do trânsito que temos hoje. Mas outra coisa que degrada as regiões é a má organização do tráfego de ônibus. A quantidade de coletivos circulando na região espremeu os carros e liquidou o desenvolvimento do comércio na região.
Tráfego seria absorvido sem necessidade de construir elevados
Transporte Público
O transporte público de Natal é completamente irracional, formado por linhas radiais (que ligam bairros ao centro) e diametrais (que ligam dois bairros, passando pelo centro. Com o tempo, o sistema que seria cômodo de pegar um só ônibus e ir a qualquer parte da cidade, resulta em uma interposição de linhas se concentrando em ruas principais da cidade. A integração seria uma forma de resolver, mas mudando o sistema: colocando linhas que circulam nas regiões da cidade. Quem dos bairros quiser pegar esses ônibus, iria a  pé, de bicicleta ou pegaria outro ônibus para ir até lá. Seria preciso rever, sem dúvida, o tempo da integração e o sistema de pagamento de passagem, que deveria ser feito totalmente por cartão. Quem já fez esse sistema? Curitiba, há 40 anos.

O ônibus também não é a solução do transporte público. O grande cara desse sistema é o bonde. Há 100 anos, Natal saiu na frente de Recife, João Pessoa e Fortaleza ao implantar o bonde. Poderíamos implantar um bonde moderno (tramway). Um veículo de 32 metros de comprimento transporta, confortavelmente, 300 pessoas – quatro por metro quadrado –  nenhum ônibus consegue fazer isso. Nem o BRT. O carro é o melhor transporte inventado pelo homem, sem dúvida, mas não quando todo mundo quer ir para o mesmo lugar de carro. Natal, com uma linha de metrô e duas linhas de tramway, circulando nos eixos centrais, resolveria o problema. Esse sistema colocaria Natal como cidade de primeiro mundo. Apresentei esse projeto à Secretaria de Mobilidade Urbana, mas eles disseram que Natal não tinha condições. Que esse projeto era apenas sonho.

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