Natal
Enquanto a modernização não vem...
Publicado: 01:00:00 - 19/10/2014 Atualizado: 20:56:53 - 18/10/2014
Nadjara Martins
Repórter

Três horas e meia separam Marilda Nascimento da Silva, 41 anos, do local de trabalho. Doméstica desde criança, quando começou a trabalhar em “casa de família” na capital potiguar, ela inicia a rotina antes do dia amanhecido: pega o primeiro carro às 4h40 para vencer a distância entre o povoado de Capela e a estação de trem de Ceará-Mirim. De lá, são mais 38,5km até a estação da Ribeira. Logo depois, R$2,35 pagos em passagem de ônibus até Cidade Satélite. Vence outros 15 minutos a pé até o bairro San Vale onde, enfim, Marilda começa a trabalhar.

Passageiros esperam novidades no sistema ferroviário; veja fotos


A doméstica é apenas uma entre os 7 mil passageiros que se espremem, diariamente, nas du-as locomotivas que fazem o percurso entre Ceará-Mirim, Natal e Parnamirim. No total, 24 viagens realizadas diariamente entre os três municípios, com intervalos que chegam a até 2h30.  Mas ainda há, entre os passageiros do sistema ferroviário da capital, uma expectativa de mudança: a implantação do primeiro vagão do Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT), prometido pela Superintendência de Trens Urbanos de Natal (CBTU). O VLT vai operar a linha entre Parnamirim e Nordelândia, na Zona Norte da cidade. A expectativa é de uma viagem realizada a cada 20 minutos.

O projeto de modernização da rede ferroviária da cidade, orçado em R$ 425 milhões, começou a ser elaborada em 2003. A expectativa é construir uma rede de linhas que interliguem as maiores cidades da região metropolitana, com construção e reforma de estações, construção de túneis e viadutos nas intersecções com avenidas e dar conforto ao sistema. Tudo isso,  deve demorar até dez anos para ser implantado, segundo o superintendente da CBTU no RN, João Maria Cavalcanti. Ele afirma, porém, que primeira fase interligando Parnamirim, Natal, Extremoz e Ceará-Mirim por 12 VLTs deve ser finalizada até 2017.

Marilda faz o caminho Capela-Natal há 27 anos, no primeiro vagão do trem. Conhece os maquinistas pelo nome, fez amigos no percurso. Combinam, uma vez por semana, um lanche coletivo na viagem – o divertimento ajuda a compensar as quase 7h diárias gastas dentro dos transportes.

“É cansativo, mas é a única solução. Divertimento mesmo só dentro do trem, com as colegas. Eu tenho muita vontade de arranjar um trabalho por aqui, porque sairia mais tarde, com o dia já amanhecido. Venho aqui praticamente só para dormir. Dá para ir levando porque a gente se acostuma”, confessa Marilda. Para a doméstica, a correria de tempo é compensada pelos gastos do mês. “Se eu for e voltar de ônibus, gasto por dia R$ 16,70. Muito pesado. De trem, dá pouco mais de R$ 6”, acrescenta.

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De acordo com a CBTU, o valor da passagem continuará R$ 0,50, mesmo com a modernização do sistema. A expectativa é que, com a chegada do VLT, o número de passageiros transportados salte para 50 mil/dia, o que compensaria o custo atual de R$ 3 milhões com a tarifa.

Enquanto o ar-condicionado e a velocidade do VLT não chegam, os passageiros continuam com a diária de atrasos e locomotivas quebradas. Há relatos, entre os passageiros, de apedrejamentos do trem ao atravessar comunidades próximas ao Rio Potengi; além do uso de guarda-chuvas dentro do trem por causa das janelas quebradas. Atualmente, apenas duas locomotivas da década de 1950 pertencem à companhia. Outras duas, adquiridas recentemente, estão em testes. Os vagões, com janelas quebradas e bancos de plástico, ainda não têm data para ser trocados. Os 12 VLTs adquiridos pela CBTU só devem estar testados e em pleno funcionamento nos próximos três anos.

Na volta do trabalho, a correria de Marilda é maior: se algum engarrafamento acontece ou ônibus quebra, cresce o receio de perder o trem. “Às vezes quando a gente sai já vai olhando a hora, né? Porque se tiver engarrafamento, se atrasar, fica com medo de perder”, diz a doméstica, que prefere subir a pé para outro bairro em busca de ônibus. Mesmo com os percalços, Marilda gosta do trem. “De ônibus a gente já anda com medo, no trem não.” Apita  a buzina, são 5h15. Hora de sair.

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