Economia
Ensino híbrido pode ser aliado para recuperar perdas nas universidades
Publicado: 00:00:00 - 28/11/2021 Atualizado: 13:50:54 - 27/11/2021
A necessidade de adaptar o ensino realizado de forma presencial ao remoto atingiu em cheio a educação brasileira. Essa realidade não está presente apenas nos níveis básico e médio, mas também no nível superior que ainda permanece no sistema remoto ou híbrido, diferente dos outros níveis, cujos alunos estão retornando às escolas. Porém, para restabelecer perdas, o ensino híbrido poderá ser um importante aliado e o desafio será incluir essa modalidade na metodologia de ensino.

Cedida
UFRN suspendeu atividades presenciais em 17 de março/2020. Período letivo 2021.2 começou dia 18 de outubro passado com aulas virtuais

UFRN suspendeu atividades presenciais em 17 de março/2020. Período letivo 2021.2 começou dia 18 de outubro passado com aulas virtuais


A previsão é do professor membro do Conselho Nacional de Educação e ex-presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior – Andifes, Mozart Neves Ramos. “O ensino remoto, com o uso de novas tecnologias, vai ser muito importante para reposição dos déficits de aprendizagem. Esse vai ser um dos desafios, porém, o Brasil deveria ter feito - e o Ministério da Educação não fez esse dever de casa - um plano de conectividade digital, internet e banda larga para as universidades e rede pública de ensino”, alertou ele.

Segundo avalia, será necessário que as universidades e escolas se planejem dentro de um contínuo curricular 2020-2021-2022 para tentar repor esses déficits de aprendizagem provocados pela pandemia. “A universidade, a escola brasileira, vai precisar usar tanto o presencial quanto o remoto. Será difícil estimar um prazo para reverter as perdas”, pontuou.

O professor avalia ainda que a área das ciências sociais aplicadas não deve enfrentar muitas dificuldades, pois é mais adaptável à componente híbrida. “Já aquelas que têm forte conteúdo na prática vão depender da atitude da universidade, no apoio a esses jovens. Por isso a necessidade de uma avaliação diagnóstica clara para saber se atendem o que se espera deles em termos de habilidades e competências. É fundamental para apoiá-los”, disse ele.

Outro desafio apontado pelo especialista é a evasão. A previsão dele é de que com a pressão para os jovens buscarem complementação salarial para ajudar na renda familiar, conseqüentemente, aumente o número de desistentes nos primeiros anos do ensino superior, mas também no Ensino Médio.

Na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o reitor José Daniel Diniz Melo disse que registrou queda na evasão durante a pandemia.

“Suspendemos o cancelamento de cursos por abandono, decurso de prazo ou insuficiência de desempenho acadêmico. Nessa perspectiva, registramos uma redução na quantidade de evasão”, disse ele. Em 2019.1 foram 2.447 alunos evadidos e, em 2021.1 a universidade registrou 740, segundo números apresentados pelo reitor.

O reitor pontuou que um desafio nessa retomada é a imunização de toda a comunidade  universitária, que é fundamental para garantir a segurança de todos no pleno retorno presencial que ainda não está definido. Esse é outro ponto em questão no pós-pandemia: o ensino híbrido, mencionado pelo professor Mozart Ramos.

Aulas remotas
A UFRN iniciou o segundo semestre de 2021 no dia 18 de outubro passado ainda com aulas virtuais, porém, diferente dos outros semestres, há a possibilidade de atividades práticas presenciais, desde que garantidas as condições de biossegurança e observadas as normas relativas à emergência em saúde pública.

O atual semestre só deverá ser encerrado em fevereiro de 2022. Até lá, o  Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Consepe) deverá se reunir e avaliar o retorno presencial no semestre 2022.1, previsto para começar em março do ano que vem. “Qualquer decisão sobre o modelo de ensino ocorrerá após amplo debate e deliberação do Consepe”, enfatizou o reitor Daniel Diniz.

A Resolução 062/2020 do Consepe prevê o ensino remoto estabelecendo ainda que, nas aulas remotas dos cursos presenciais, os professores utilizarão a Turma Virtual do Sigaa, plataforma oficial para registro e controle acadêmico, autorizando o uso de outras ferramentas virtuais. Já para os cursos da modalidade à distância, continua assegurado o uso do ambiente virtual de aprendizagem Moodle Mandacaru Acadêmico.

No Plano de Desenvolvimento Institucional 2020-2029, a UFRN prevê a adoção de práticas inovadoras com a utilização de recursos das novas tecnologias de apoio ao ensino e à aprendizagem e a incorporação de conteúdos de empreendedorismo nos projetos pedagógicos dos cursos.

Além disso, para a formação didático-pedagógica permanente dos docentes lista a oferta de cursos sobre metodologias de ensino, com ênfase no uso de recursos tecnológicos, na modalidade semipresencial e on-line, de caráter teórico-prático, voltados para o aprimoramento da prática docente. Além disso, prevê a criação de uma assessoria pedagógica para elaboração de instrumentos de avaliação para os componentes curriculares e montagem de ambientes virtuais de aprendizagem.

Retorno exige recomposição orçamentária
Todas as dificuldades impostas pela pandemia da covid-19 já se mostram suficientes para exigir grande esforço no sentido de garantir a qualidade do ensino e da pesquisa, porém, há outro agravante que já afetava a qualidade do ensino superior antes da crise pandêmica e que poderá se intensificar na retomada das atividades presenciais: o corte no orçamento das universidades federais. Na UFRN o recuo chega a quase 12% em quatro anos, numa redução de mais de R$ 21 milhões. 

Para os reitores, o retorno presencial das aulas necessita de recomposição orçamentária, de modo a garantir medidas sanitárias seguras para a comunidade acadêmica. “Dessa forma, há urgência de recomposição de orçamento e o retorno das atividades presenciais torna a situação ainda mais grave”, diz o reitor da universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), José Daniel Diniz Melo. A Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) vem trabalhando para restabelecer o orçamento de 2019, com correções pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Ele explicou que a queda no orçamento se agrava a cada ano, de modo que atinge despesas essenciais para o funcionamento das atividades acadêmicas e administrativas, como os pagamentos de contratos de terceirização e despesas de energia elétrica. “Na UFRN, o orçamento de capital deste ano chegou a zero, o que significa a indisponibilidade para a continuidade de obras e para compra de equipamentos e materiais permanentes necessários ao funcionamento da instituição”, disse ele. 

Além das fontes de recursos do Tesouro, a UFRN possui arrecadação própria, principalmente relacionada a receitas de projetos de pesquisa, de extensão, de ensino e de desenvolvimento, receitas administrativas, cobranças de custos indiretos, aluguel de bens imóveis, entre outras formas de captação inerentes à área de atuação da Universidade. Créditos orçamentários transferidos por meio de Emendas Parlamentares também fazem parte do orçamento. Já as receitas de convênios geralmente referem-se às descentralizações de créditos com o propósito de financiar o avanço de projetos acadêmicos envolvendo mútua cooperação e objetivos recíprocos.

O reitor destacou ainda que, mesmo sem aulas presenciais, as atividades não pararam durante a pandemia. “No intuito de garantir a qualidade do ensino e promover a permanência estudantil, a Universidade fez diversas ações, como a oferta de auxílios aos estudantes em vulnerabilidade socioeconômica, para aquisição de equipamentos de tecnologia da informação e pacotes de dados de internet, além de capacitações para os professores, técnicos e alunos sobre o ensino mediado por tecnologias”, disse ele. 

UnP foca em competências e novas tecnologias
Na maior universidade privada do Rio Grande do Norte, a Universidade Potiguar (UnP), o ensino é focado nas competências de aprendizagem e o desafio de adotar novas tecnologias na metodologia de ensino já foi abraçado pela instituição, que retomará suas aulas presenciais em um novo momento, administrada agora pelo holding Ânima Educação.

“A Ânima Educação é a 1ª organização do país a criar um modelo de ensino focado em competências. O projeto acadêmico valoriza o desenvolvimento da autonomia dos estudantes, buscando uma formação ampla do profissional, do indivíduo e do cidadão, buscando garantir que os alunos tenham acesso a um ensino acadêmico de qualidade”, explicou a  vice-presidente acadêmica da Ânima, Denise Campos.

Ela conta que o grupo fez com que a tecnologia deixasse de ocupar um setor específico para ser uma competência presente em todas as áreas da companhia, uma vez que a pandemia acelerou um processo cultural do formato de aprendizado que duraria anos mais à frente para ser concretizado.

“Hoje, você vê todas as pessoas adaptadas a esse novo modelo, prontas para voltar ao presencial no momento certo. Com isso, continuamos investindo na continuidade da jornada de transformação digital da companhia e aprimoramento das ferramentas para a educação híbrida e para uma experiência excelente de estudantes e docentes”, disse ela.

Denise destacou que, assim como a estrutura física, as metodologias de ensino e as tecnologias têm papeis importantes no ensino. “Hoje, a UnP tem, sem dúvida, uma das melhores estruturas de laboratórios do Estado. Além disso, promove uma maior interdisciplinaridade e conexão com o mundo do trabalho. Acreditamos em um modelo personalizado, no qual você oferece autonomia para que os estudantes escolham como querem aprender, com quem quer aprender e o que querem aprender”, disse ela.

Neste modelo, a vice-presidente da Ânima frisou que o espaço não é mais importante, mas as ferramentas que pode disponibilizar para que este aluno se desenvolva. “Tudo que, em um primeiro momento, parecia difícil de realizar, se transformou em uma realidade. O ensino remoto e híbrido se tornou uma realidade mais próxima dos brasileiros, por meio da tecnologia”, concluiu.

Interiorização
Fora da capital, o sistema de ensino remoto das universidades também deve alcançar os alunos, através do processo de interiorização que já existe. No caso da UnP, a Ânima ainda não fala sobre planos de expansão, mas ressalta que, a partir de Mossoró, na região Oeste, a instituição deu o primeiro passo para levar qualidade do Ensino a outras regiões. Além disso, universidade já contava conta com Educação a Distância (EaD) contribuindo para o avanço da democratização e expansão da oferta do ensino superior no país.

“Hoje atuamos também nas cidades de Caicó, Currais Novos, Pau dos Ferros e, no Ceará, em Limoeiro do Norte. Todos esses são lugares que vivem essa revolução do ensino superior graças à Universidade Potiguar por meio de cursos presenciais. Mais recentemente lançamos um pólo de ensino a distância em Juazeiro do Norte, expandindo nossa atuação em solo cearense. Esse pólo vem se somar a tantos outros que a UnP tem pelo Brasil”, declarou a  vice-presidente acadêmica da Ânima, Denise Campos.

Já a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) ressaltou que, com seus cinco campi (um em Natal - Campus Central-, e quatro no interior: Campus de Caicó, Campus de Currais Novos, Campus de Macaíba e Campus de Santa Cruz) e a institucionalização do ensino de graduação a distância (atuação em 15 polos localizados em diversos municípios do Estado), busca pela qualidade acadêmica com igualdade de oportunidades, fortalecendo a interiorização da educação superior.

A UFRN já oferecia educação à distância através de 15 pólos localizados em diversos municípios do estado antes da pandemia e as atividades de pesquisa, ensino e extensão são desenvolvidas por 8 centros acadêmicos através de seus 82 departamentos acadêmicos e 10 de suas unidades acadêmicas especializadas. Todos estão ligados com o Sistema Integrado de Gestão de Atividades Acadêmicas (Sigaa).

Leia também

Plantão de Notícias

Baixe Grátis o App Tribuna do Norte

Jornal Impresso

Edição do dia:
Edição do Dia - Jornal Tribuna do Norte