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Natal
Entenda como funciona processo de checagem de informações
Publicado: 00:00:00 - 07/08/2022 Atualizado: 17:37:26 - 06/08/2022
Kayllani Lima Silva
Repórter

Uma notificação aparece na barra de tarefas do celular, o usuário clica e vai direto para uma conversa em um grupo virtual, no conteúdo da mensagem títulos como “Notícia Exclusiva”, “Urgente”, “Em primeira mão”. A fonte da informação? Endereços desconhecidos ou não oficiais. Seus dados? Tirados de contexto, manipulados ou inventados. Esse é apenas um exemplo de um quadro recorrente nos últimos anos, em especial, no período das eleições: a disseminação de informações falsas que, seja por vídeo, imagem, ou texto, podem retornar em momentos estratégicos e interferir nos resultados das urnas. Como avalia Liz Nóbrega, jornalista e mestre em Estudos da Mídia pela UFRN, a checagem de uma informação falsa não implica no seu desaparecimento das redes.

Alex Régis
Em seu mestrado, Liz Nóbrega estudou a atuação da checagem dos fatos no combate à desinformação

Em seu mestrado, Liz Nóbrega estudou a atuação da checagem dos fatos no combate à desinformação


Em seu mestrado, ela estudou a atuação da checagem de fatos no enfrentamento à desinformação e explica que o sistema da desinformação é muito mais amplo. No caso de informações enganosas referentes ao processo eleitoral e as urnas eletrônicas, por exemplo, elas continuam circulando mesmo após serem desmentidas pela checagem de fatos e pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Além disso, há também o ato de “reciclagem” de determinados conteúdos de acordo com a conveniência. “Nas eleições de 2018, circulou uma foto falsa da candidata Manuela D’Avilla usando uma camisa com a frase “Jesus é travesti”. Em 2020, quando ela foi candidata no estado dela, esse conteúdo voltou a circular”, observa.

Mas, além dos conteúdos ligados aos políticos, a desinformação também pode estar associada a valores e princípios que guiam o comportamento e o pensamento de determinada parcela da população. Liz Nóbrega esclarece que isso ocorre na medida em que determinadas perspectivas enraizadas na sociedade servem como base para criação de informações falsas e ataques políticos. Um exemplo disso, observa a jornalista, são conteúdos nocivos contra pessoas LGBTQIA+ que circulam em certos espaços e carregam a ideologia de grupos específicos da sociedade.

Essa desinformação a que Liz se refere, ainda que passe despercebido, é diferente das chamadas “Fake News”. A jornalista adverte que o termo em inglês ganhou notoriedade com as eleições de 2016, nos Estados Unidos, mas passou a ser utilizada de forma negativa contra a Imprensa. Já “desinformação” surge para largar o conceito de “notícia falsa”, partindo do ponto de que notícia não pode ser falsa por se tratar de um relato da vida real, além de abranger melhor o contexto atual em que conteúdos enganosos surgem de muitas formas.

Dentro desse espaço, marcado pelo disparo desenfreado de informações enganosas, o jornalismo vem se mobilizando como pode para popularizar caminhos confiáveis até a informação, sobretudo, por meio das agências de Fact Checking. Dentre elas, destacam-se a “Agência Lupa”, “Aos fatos” e o projeto “Comprova” que, além de checarem discursos de candidatos a cargos políticos, também classificam o perfil dos conteúdos com etiquetas como “falso” e “exagerado”. Em conjunto, essas iniciativas já analisaram pelo menos 218 conteúdos ligados às eleições apenas neste ano.

“O Fact Checking é justamente essa checagem de fatos a posteriori, depois da publicação de algo. Não é você fazer uma apuração interna para publicar algo. Ele contrapõe uma lógica declaratória que a gente tem no jornalismo, que é você colocar as aspas no que uma autoridade diz, por exemplo, e publicar a matéria”, afirma Liz Nóbrega. Ou seja, no trabalho de checagem, o profissional primeiro investiga uma declaração para, na sequência, publicar o conteúdo, processo que foge das técnicas do jornalismo diário de ouvir as fontes sem ficar muito atento à verificação das informações fornecidas.

Limites e desafios da checagem

Mas nem todo conteúdo que chega até as agências e viraliza nas redes sociais pode ser demarcado como falso ou verdadeiro. Aqui entra um ponto característico de todo trabalho: seus limites. Segundo Liz Nóbrega, conceitos muito amplos (ex: violência), opinião, futuro/previsões não podem ser verificados. Por outro lado, afirmações, dados estatísticos, comparações, questões legais e tudo que está ligado a dados/informações públicas são passíveis de checagem. Além disso, no processo de escolha do que vai ser apurado, também é levado em conta quem é a pessoa declarando o conteúdo, seu impacto e a repercussão.

“Existe um cuidado das agências de checagem de não amplificar uma desinformação. É muito delicado esse momento porque eles precisam entender qual informação que vai ser checada. Então, às vezes, é melhor não dar voz a uma informação falsa que não viralizou, não ganhou pressão nas redes e que pode morrer por si”, destaca. Ela aponta, ainda, para o fato de algumas agências terem parcerias com redes sociais como Facebook e Instagram, a fim de que seus algoritmos possam diminuir a disseminação de uma desinformação já verificada.

O desafio do Fact Checking mesmo abarcando os limites do que pode ou não ser checado, é multifatorial e vai desde a falta de financiamento e crises no jornalismo até o alto volume de desinformação nas redes sociais. Uma agência não consegue verificar, esclarece Liz Nóbrega, a quantidade de informações falsas, seja dos meios de comunicação, ou das próprias autoridades, no mesmo ritmo e intensidade com que elas são disseminadas. Nas palavras da jornalista, o “Fact Checking” parece estar sempre um pouco atrás da velocidade da desinformação.

O segundo ponto é a dificuldade de acessar determinados dados públicos e, por último, a jornalista observa que a desinformação é multifacetada, ou seja, pode aparecer como uma informação inventada; verdadeira, mas retirada de contexto; ou até como uma foto manipulada. Isso significa que uma notícia de cinco anos atrás, oriunda de um veículo de comunicação confiável, porém disseminada como se fosse algo atual, também pode ser considerada uma desinformação. “Essa questão contextual é um grande desafio para a checagem de fatos, pois a desinformação não aparece apenas trazendo um dado errado, mas sugestionando algo. Você traz uma sugestão dentro daquele meme que, muitas vezes, não é verificável”, enfatiza.

Como agir diante de informações suspeitas

Diante de conteúdos suspeitos, Liz Nóbrega alerta que o primeiro passo é desconfiar. Na sequência, o recomendado é verificar a fonte da  notícia, a data informada na publicação e o caráter dos títulos que podem chegar carregados de tom sensacionalista. Além desses procedimentos, também é válido procurar pela informação no navegador de busca para saber se algum veículo confiável publicou ou realizou a checagem. Se a informação é verdadeira, aponta a jornalista, ela não vai estar disponível apenas em um único blog desconhecido.

“Outro ponto importante é que, com frequência, a gente recebe essas informações e não tem como checar. Se você não consegue verificar o conteúdo, o melhor é não repassar. Muitas vezes, a pessoa quer ajudar e compartilha dizendo algo como ‘Não sei se é verdade, mas…’'", aconselha. A jornalista observa que, mesmo sem intenção, você pode amplificar uma desinformação capaz de gerar consequências reais. Ao transmitir uma informação falsa para um grupo de 255 pessoas, por exemplo, elas serão impactadas e também poderão afetar outras por meio do repasse da mesma mensagem, dando início a um ciclo nocivo dentro e fora das redes sociais.

“Pessoas podem ter morrido por acreditarem que um medicamento salvaria elas da covid-19. A gente precisa ter muita responsabilidade. Nós jornalistas sempre verificamos antes de publicar. Pode ser que o jornalismo erre em algum momento, mas não é a intenção”, afirma Liz Nóbrega. Ela afirma, nesse sentido, que os cidadãos enquanto usuários, também partilhem do mesmo compromisso assegurado no jornalismo, pois seja com ou sem intenção, a difusão de informações falsas resulta em consequências.

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