Entre a fé e o ceticismo

Publicação: 2020-07-12 00:00:00
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Cláudio Emerenciano
Professor da UFRN

Era primavera. Os campos e as cidades eram submetidos a uma transformação súbita e deslumbrante. A vida explodia irradiante no esplendor das flores. As arvores, até então cobertas pelo manto cinza do inverno, como se estivessem mortas, ressequidas pelo frio, da noite para o dia exibiam uma indumentária verdejante em suas folhas e frutos. As amoreiras, os eucaliptos, os cedros, as tamareiras, as palmeiras e os ciprestes eram exceção. O inverno e o frio não afetavam sua configuração. Mas aquela metamorfose, dádiva com a qual o Criador contemplara a natureza terrestre, parecia alcançar o infinito. De dia um azul, forte, límpido, fascinante e encantador, era cor e vestimenta da abóbada celeste. Não havia nuvens para turvar ou encobrir essa perspectiva de beleza e paz. As aves do céu bailavam em todas as direções. O seu canto prenunciava a aurora e, no entardecer, antecipava o crepúsculo. Enquanto as noites eram adornadas pelo espetáculo, inquietante, imutável e enigmático das estrelas no firmamento. Sua contemplação infundia a percepção do infinito. Uma temperatura amena, agradável, repetia-se todos os anos na mesma época. Assim eram os meses de março e abril na Terra Santa nos tempos de Jesus. Em Jerusalém, época da Páscoa, pombos eram soltos das gaiolas durante todo o dia como oferenda ao Senhor Deus, e volteavam o Templo até o anoitecer. Mas as contradições humanas envileciam os alicerces da fé do povo.

Fragilidades, perversões, preconceitos, medos, opróbrios, vilanias, barbaridades e ignomínias se revelaram no curso da prisão, martírio e crucificação de Jesus Cristo, Nosso Senhor, o Filho de Deus. A traição e a iniquidade de Judas. A fraqueza e o medo de São Pedro ao negá-Lo três vezes. A inveja, o ódio, a ambição, a crueldade, a desfaçatez e a felonia de Caifás, Ananás e demais membros do Sinédrio. Exceção apenas de José de Arimatéia e Nicodemus. A morbidez, a putrefação moral e o cinismo de Herodes. A pusilanimidade, a arrogância, a injustiça e a desumanidade de Pilatos. A impiedade dos que O torturaram e O martirizaram. Desde a prisão por agentes do Templo ao seu suplício por soldados romanos. Mas, em circunstancias distintas de sua Paixão, Ele testemunhou Sua missão e Sua divindade. Em Getsêmani, dialogando com o Pai. Depois respondendo a Caifás: “Tu o disseste. Aliás, eu vos digo que de ora em diante vereis o Filho do Homem sentado à direita do Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu”. Perante Pilatos reafirmou Sua realeza celestial: “Para isto nasci e para isto vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Quem é da verdade, escuta a minha voz”. Na Cruz, perdoou a humanidade, em termos pretéritos, presentes e futuros. Mas também a libertou do mal, ofertando-lhe, com sua imolação, a ascensão a Deus. Por fim, entregou-se a Deus, seu Pai. Testemunhou que o perdão é uma das faces do amor sem fim.

Jesus e a Ressurreição. O sepulcro vazio. O anjo anunciando a Maria Madalena e à outra Maria (provavelmente a irmã de Lázaro) que Jesus está vivo. Jesus fala com as santas mulheres. Jesus e os discípulos na estrada de Emaús. Jesus diante dos apóstolos e de sua mãe, Maria Santíssima. Jesus reaparece para testificar sua ressurreição a Tomé: “Tomé, tu credes porque vistes. Bem-aventurados aqueles que não viram, mas creem”. A comovente resposta de Tomé expressa com humildade seu reconhecimento: “Meu Senhor e meu Deus”. A humildade eleva o homem ao amor.
As últimas palavras de Jesus, antes de ascender ao Pai, conferem à humanidade um legado indispensável à vida coletiva e individual, com todas as suas implicações e desdobramentos: “Eu vos deixo a Paz, eu vos dou a minha Paz”. O mundo clama sempre por sua Paz. Jesus, alegria dos homens. Aleluia. A libertação de cada homem se inicia pela compreensão do verdadeiro sentido da vida: a Luz e a Paz.

As crises do mundo atual emergem essencialmente do pensar, do agir e do querer de todos os homens. Uns mais, outros menos; outros, na triste e trágica condição de vítimas, submetidas aos grilhões da fome, da injustiça, da miséria, da violência, da ignorância, da segregação, do materialismo mais hediondo e das drogas, que os convertem em instrumentos de destruição da própria condição humana. A fé no Deus Criador do Universo, infinito em amor, justiça e misericórdia, é o caminho da paz entre os homens. Eis uma visão espiritual, cultural e moral que exorta à humanidade. Em todo o fluir da vertente do tempo, fulminando as trevas e expandindo a Luz. 

Mas a pandemia da COVID-19, inimigo invisível, sinistro e letal da vida humana, suscitou surpreendentes e imprevisíveis alterações no viver das pessoas. Em escala planetária. Tudo mudou e tudo vai mudar. Não é possível que loucuras dos homens se perpetuem: guerra, crueldade, injustiças e racismo. Também violência de toda espécie, desigualdades  e miséria. No isolamento da quarentena, desde março, intensifiquei, ainda mais, leituras e releituras. Proverbio chinês do século XIX proclama que reflexões e releituras são intrínsecas à velhice (terceira idade). É o meu caso. Assim, ao reler “Guerra e Paz”, de Liev Tolstói, que foi também um cristão místico, reencontrei um ensinamento admiravelmente aplicável à atual conjuntura global: “É muito difícil, embora seja essencial, amar a vida. Amá-la mesmo quando estamos sofrendo. Porque a vida é tudo. A vida é Deus, e amar a vida é como amar a Deus”. Um rabino contemporâneo de Jesus Cisto, Azedã-Moá, ponderou que “quanto mais se vive, mais se cresce para a vida”. E concluiu: “quanto mais se ama, mais o amor floresce em nós e por nós”. Infelizmente governantes, nesse mundo perplexo e sofrido, rejeitam obrigações ante novos valores e aspirações planetários. Ignoram uma das lições de Winston Churchill: “Quem nunca muda de ideias e posturas ante a vida, nunca muda nada”. Pois nunca se desprezou e se rechaçou tanto o bom senso. É o caso do Brasil? Tragicamente...