Entre dunas e terremotos

Publicação: 2019-01-06 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Você pega um ônibus de Neópolis até a Ribeira. Você está na sua, adolescente roqueirinha curtindo uma baladinha no saudoso Blackout, na rua Chile, e de repente alguém te entrega um panfleto: oficina de teatro. Lascou-se! Você foi contaminada pelo bichinho da arte. Se matricula na oficina, faz seus primeiros papéis, se aproxima de outros artistas... não consegue mais sair desse mundo. Monta um grupo de teatro. Monta uns espetáculos. Se apresenta na Casa da Ribeira, no Teatro Alberto Maranhão, em palcos pelo Brasil afora, aparece em listas de melhores do ano. Resolve experimentar. Sai do palco e vai para a cadeira de direção e conta uma história que desconstrói o Nordeste. Pow! Acerta em cheio a cara de muita gente, principalmente de plateias e críticos do Sudeste, que saldam com grande surpresa o espetáculo.

A atriz Quitéria Kelly relembra Neópolis, bairroonde cresceu entre brincadeiras nas dunas e quadras, araçás no pé e o afeto daquela comunidade cordial
 A atriz relembra Neópolis, bairro onde cresceu entre brincadeiras nas dunas e quadras, araçás no pé e o afeto daquela comunidade cordial

Com a atriz e diretora Quitéria Kelly aconteceu mais ou menos assim. Nascida na Paraíba, ela chegou em Natal com nove anos de idade e logo foi morar em Neópolis. Viveu no bairro até nove meses atrás, quando pegou as duas filhas e foi para o Rio de Janeiro. O motivo: atender as demandas de todo o Brasil por apresentações do grupo Carmin, em especial as peças “Jacy” (2013), onde atua, e “A Invenção do Nordeste” (2017), em que assina a direção. Por sinal, por esse último ela está indicada como melhor diretora nos principais prêmios teatrais do país.

Nesta entrevista Quitéria fala da surpresa com a repercussão tão positiva ao “A Invenção do Nordeste”, anuncia que o grupo está trabalhando em uma nova montagem – dessa vez inspirada no livro “A Ralé Brasileira”, do potiguar Jessé de Souza – e lembra muitas histórias de Neópolis, como das vezes que brincou nas dunas, do dia que dormiu na calçada por causa de um terremoto que rachou o prédio em que morava e do espírito comunitário no bairro, que infelizmente está se perdendo em toda Natal.

As Dunas
Minha mãe foi aprovada num concurso para trabalhar no Giselda Trigueiro e por isso viemos para Natal. Fomos morar em Neópolis, no Flamboyants. Lembro de ter muitas dunas ao redor. As dunas são uma boa lembrança. A gente pegava porta de armário para descer as dunas com os vizinhos. Foi quando consegui me adaptar a Natal. Porque no início, eu pequenininha, chorava muito. Meus amigos todos tinham ficado em João Pessoa.

Os Araçás
As dunas que eu gostava tanto de brincar não existem mais. No lugar ergueram outro prédio.

Outro lugar emblemático pra todo mundo do Flamboyants era a quadra. A grande sensação era jantar e correr pra quadra, ficar até 11 horas da noite lá, jogando queimada, ensaiando para a quadrilha junina. Tinha muita criança. E se podia ficar na rua. Tinha um senhor que cercou uma área pública e plantou várias coisa lá. A grande aventura era roubar araçá do jardinzinho desse homem. Depois sai do Flamboyants e fui para outro lugar no bairro. Quando sai de l já tava rolando uma coisas esquisitas na quadra, umas bebedeiras, a galera do Pirangi indo brigar com os meninos, aquelas coisas de gang pré-adolescente.

O Terremoto
Acho que era 1992. Rolava uns terremotos no RN. Lembro de um de proporção considerável. Todo mundo saiu dos prédios gritando. Passamos a madrugada na rua nesse dia. Colocamos colchões na calçada, todo dormiu junto. No outro dia vimos que ficou uma rachadura no nosso prédio. Eu conseguia ver que o dia amanhecia por causa da luz do sol que passava pela rachadura do quarto.

O Teatro
Eu morava no Serrambi quando descobri o teatro. Nessa época eu frequentava muito a Ribeira. Era roqueira. E numa das noites no Blackout - mamãe só deixava ir com uma vizinha – eu recebi um panfleto de oficina de teatro. Mas em Neópolis eu não tive nenhuma experiência artística. Isso refletiu na minha formação. Porque pra gente ter acesso a teatro precisávamos sempre que nos deslocar até a Ribeira. E nem sempre a gente podia porque eu era pequena. Os eventos culturais que tinham no bairro eram os arraiais, nas quadras, praças, espaços comunitários. As festas juninas eram muito legais. A gente ficava  ansioso. Depois é que surgiu o Tecesol. É a resistência artística do bairro. Mas uma curiosidade é que a sede do Carmin é em Neópolis. No CNPJ o endereço é o lá de casa.

Vizinhança amiga
Neópolis é um bairro muito residencial. Antigamente o pessoal saí pra trabalhar e retorna só pra dormir. Não tinha nada, até as linhas de ônibus eram poucas. Hoje não é mais assim. Já tem centro. Neópolis preserva uma coisa meio europeia. A padaria é a mesma há 20 anos. O Mercadinho Caicó então, deve ter mais de 20 anos também. É onde os moradores se encontram. O dono me viu crescer. Quando sai de lá já conhecia minhas duas filhas. As pessoas vão envelhecendo e vendo os filhos dos vizinhos crescerem. Tem uma relação bem familiar. Isso é bem legal. Tem a igreja do bairro, com o Padre Nunes, um personagem bem conhecido.  A missa dominical, lotada, de manhã e a noite. Existe uma fidelidade do lugar com aquele padre. Quando vou a Natal, encontro todo mundo lá. Dona Alba, minha vizinha. Acho que é uma coisa rara. Surgiram muitos bairros novos  na cidade e acabou gerando uma rotatividade grande de moradores.

Estreia na direção
A repercussão ao “Invenção do Nordeste” está sendo impressionante. Era a minha estreia como diretora. Estava muito insegura. Queria muito experimentar esse lugar novo. Desde o surgimento do Carmin, há 11 anos, eu estive no palco em todas as peças. Queria tentar outra coisa. Estava um pouco cansada de viajar. Tenho duas filhas. 2016 e 2017 foi ruim pra mim, acabei ficando muito tempo longe delas. Então pensei que dirigindo poderia ser diferente, já que não precisaria viajar com o grupo em todas as apresentações. Poderia ficar em casa. Em 2018 fiz muito isso aqui no Rio. Montei um escritório, fiquei vendendo espetáculos, cuidando mais das minhas filhas.

Repercussão surpreendente
Foi algo extraordinário. E Jacy ainda está bombando. Fomos teses de mestrado, doutorado e de TCC. Pelo menos cinco estudantes do Brasil inteiro estudando a gente. Pessoas do Ceará, São Paulo, Rio Grande do Norte, Brasília. Credito o sucesso do “A Invenção” muito à pesquisa de Durval. Coloca em cheque uma questão pouco discutida, o preconceito com o povo do Nordeste. As pessoas que assistem a peça eu acho que saem com uma imagem desconstruída da arte do Nordeste. Tinham muito aquilo da estética da fome associada à arte daqui. E o espetáculo mostra uma outra narrativa, que não é regionalista, mas que é Nordeste.

A classe média no alvo
Iniciamos em dezembro a nova montagem do grupo. Ainda não tem nome. Mas é inspirado na obra de Jessé Souza, a “Ralé Brasileira”. Descobrimos esse livro na pesquisa do “Invenção do Nordeste”. Lemos o livro, mas deixamos guardadinho pra falar dele depois. O livro trata do surgimento da classe-média no Brasil. Falar da classe-média, que é a classe que assiste mais teatro. Pretendemos fugir um pouco da coisa documental, mas não abandonar a História, que é algo que a gente vem gostando de explorar desde “Jacy”. A gente vive uma crise política que em grande parte tem a ver com a classe-média, que é quem reivindica a democracia. A direção vai ser de Pedro Fiuza, será a estreia dele. Em cena estamos eu, Robson Medeiros e Mateus Cardoso. Na dramaturgia está Pablo Capistrano e Henrique Fontes. Pretendemos estrear em novembro. Ainda estamos sem patrocínio. Queremos estrear em Natal.


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