Entre manguezais e águas serenas do Rio Potengi

Publicação: 2017-06-11 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Outrora Rio Grande, quando deu nome ao estado, o hoje Rio Potengi perdeu muito do prestígio histórico. De importância social, ambiental e paisagística, o volumoso rio parece ter caído no esquecimento para muitos potiguares. Mas não para a bióloga Rosimeire Dantas, a Rose. Fundadora da Ong Nature Viva Mangue (Navima), ela tem longa atuação na preservação do rio, conhece todos os seus 180 km de extensão, desde a nascente, em Cerro Corá, até a região do estuário (área de encontro do rio com o mar).

“Não tive filho. Nasci para cuidar da natureza. É minha opção de vida. Trabalhei na Amazônia, estudei fora, retornei ao Brasil por causa do Rio Potengi. Nunca vou desistir dele. É uma questão maternal”, afirma a bióloga, que também é secretária de Meio Ambiente, Turismo e Des. Econômico do Município de Ceará Mirim.
Rose Dantas: o que me encanta é a nascente do rio. Ali está a força da natureza
Rose não vai desistir do Rio Potengi mesmo. Dez anos depois do maior desastre ambiental do rio – que a motivou a criar a Ong Navima –, ela lembra com tristeza do caso. “Quando cheguei no estuário não acreditava no que estava vendo. Assisti o maior desastre ambiental de minha vida. De um lado muitos animais agonizando, mortos, e do outro, pescadores em desespero”, recorda.

A ativista conhece muito bem os principais vilões do Rio Potengi. “O maior poluidor do Rio Potengi sem dúvida continua sendo o próprio Estado, que nunca se preocupou em implantar de fato um projeto viável de esgotamento sanitário na cidade”, afirma. É o descaso das autoridades e a paixão pelo rio que a motivam a continuar com sua forte atuação e pesquisas, não só na área do Potengi, mas em outros rios do estado também, como a bacia hidrográfica do Rio Pitimbu.

Rose, como começou sua relação com o Rio Potengi?
Minha relação com o Potengi vem desde a infância. Todos os finais de semana acompanhava a família à Fazenda Gameleira, em Itaipú, onde meus  avós moravam. Eu ia com meus irmãos na carroceria do caminhão de meu pai. Ao cruzar a Ponte de Igapó, ficava contemplando aquela paisagem linda e sem favelas.  Havia ainda uma grande montanha de sal, a extração era artesanal. Também na Ponte havia pescadores vendendo peixes suspensos nas varas artesanais. Meu pai parava  para fazer as compras, principalmente as gingas e demais  alevinos de diversas espécies. Saudades daquele tempo!

Antes de ter a atuação que tem hoje, como era sua visão da região do Potengi?
Desde cedo observei que o Rio era desprezado, que o olhar da sociedade era de degradar, impactar das mais diversas formas e sem nenhum critério. Outro dia minha mãe lembrou que quando criança eu dizia que ia crescer e estudar o Rio Potengi. Cresci, inicialmente busquei fazer veterinária, mas foi na biologia que encontrei  minha paixão de fazer algo pelo rio e a fauna aquática.

Em 2007 aconteceu no Rio Potengi um dos maiores desastres ambientais do RN. Como foi presenciar aquilo?
Eu estava fazendo um trabalho de pesquisa onde avaliava a qualidade das ostras e da água do estuário, visto que as ostras fazem parte da dieta das aves migratórias. Na madrugada de  28 de julho, recebo várias ligações dos pescadores informando que os peixes estavam morrendo. Essa informação chegou às 06h40. Logo peguei meu material de coleta  e corri para o estuário (area de encontro do rio com o mar). Não acreditava no que estava vendo. Assisti o maior desastre ambiental de minha vida. De um lado muitos animais agonizando, mortos, do outro, pescadores em desespero. Fiz naquele momento o trabalho do Estado em orientar a população local, acionar a Base Naval, Samu, Ibama e Policia Federal, visto que a área do estuário é de domínio federal e há uma delegacia na Policia Federal especializada na repressão dos crimes ambientais.

Na época do desastre se falou da possibilidade de morte do Rio Potengi. Esse risco ainda existe?
Muita coisa mudou, mas ainda temos muita degradação, como o lançamento dos esgotos no estuário, oriundos da CAERN. Isso diminui no rio a capacidade de suporte na sua função ecológica. Além disso o rio hoje também sofre imensas pressões, como ocupações em Áreas de Preservação Permanente (APP) – favelas e empreendimentos –, carciniculturas, desmatamento da floresta de mangue e dragagem de areia sem critério. A areia retirada de lá não serve para construção civil em virtude da grande concentração de sal e ferro, que é muito corrosivo para o concreto. Mesmo assim o IDEMA libera.

Como surge a Ong Navima?
Depois do grande sofrimento que assisti ali, resolvi que daquele dia em diante iria fundar uma organização não governamental para atuar na defesa do Rio Potengi. Em novembro daquele ano nasceu a Nature Viva Mangue (Navima) para lutar em prol da fauna, flora e comunidades tradicionais.

Dez anos depois, como está atuação da Ong?
A Navima continua forte. Temos assento no Grupo de Assessoramento Técnico do  ICMBio no Plano de Ação Nacional para a Conservação das Espécies Ameaçadas e de Importância Socioeconômica do Ecossistema Manguezal (PAN Manguezal), do Ministério do Meio Ambiente. Também temos assento na Presidência do Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio Pitimbu. Além disso, estamos coordenando os trabalhos de criação de duas Unidades de Conservação (UC) no município de Ceará Mirim. O Parque Natural Boca da Mata e o Parrachos de Jacumã. A primeira UC é em área de Mata Atlântica e a segunda unidade de conservação marinha. Também temos feito pesquisas ornitológica no manguezal do Potengi com as aves migratórias e nativas.

Ano passado fotografaram golfinhos no rio. O Rio Potengi é área para que tipos de animais?
O estuário é super importante na manutenção da fauna aquática e terrestre, acolhendo milhares  de aves nativas e migratórias oriundas do hemisfério norte, tartarugas marinhas, botos e inúmeras espécies de peixes. A espécie que periodicamente  busca o estuário do Potengi é o Boto-cinza (Sotalia guianensis). Sua situação é preocupante porque a espécie consta em lista vermelha de ameaça de extinção.

Natal nasceu às margens do Rio Potengi. Mas parece que hoje a cidade deu as costas a ele. Não há valorização paisagística, histórica e ambiental do rio. Como você vê esse esquecimento do rio?
O Potengi é um marco na história do Rio Grande do Norte. Ali viveram os povos indígenas dos quais somos descendentes diretos e muitas guerras foram travadas naquelas margens. Precisamos valorizar o rio na sua história, paisagem cênica e fauna.

Quais são os maiores vilões do Rio Potengi?
O maior poluidor do Rio Potengi sem dúvida continua sendo a CAERN, ou seja,  o próprio Estado, que nunca se preocupou em implantar de fato um projeto viável de esgotamento sanitário à cidade. Não há mais salinas no Potengi, porém,  há  viveiros imensos de carciniculturas que restringem o acesso direto das populações tradicionais ao rio.

Apesar de tantos problemas, o que o Rio Potengi preserva de mais encantador?
O que me encanta é a nascente do rio. Ali está a força da natureza. Ver aquele filete de água que brota no semi-árido potiguar, numa região extremamente seca, descendo a serra e depois correr 180 km na bravura até o mar. Conheço todo o percurso do rio. É mágico!

Colaborou: Cinthia Lopes

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