Entre o canto e o palco, a brasilidade de Juliana Linhares

Publicação: 2018-02-22 00:00:00
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Ícaro Carvalho
Repórter

O sorriso no rosto e a intensidade são sem dúvida dois bons atributos para resumir bem quem é a cantora e atriz potiguar Juliana Linhares, que integra a banda carioca Pietá. A arte parece correr nas veias da natalense que logo deixou as terras do Rio Potengi em busca de novos mares, ou melhor, de novos rios: a capital carioca.

Créditos: Marina AndradeFã da cantora de forró Marinês, Juliana faz música com um jeito urbano atravessado, com voz grave e presença de palcoFã da cantora de forró Marinês, Juliana faz música com um jeito urbano atravessado, com voz grave e presença de palco

Fã da cantora de forró Marinês, Juliana faz música com ''um jeito urbano atravessado'', com voz grave e presença de palco

Quem assiste a um show de Pietá,  que lançou o seu primeiro CD “Leve o que quiser” em 2015 e pretende lançar o próximo neste ano, vê que Juliana tem uma conexão arrojada com o público e que o palco parece ser a sua sala de estar. Música e teatro se confudem.

Hoje com 28 anos a caminhar pelos palcos de teatro do Rio de Janeiro, ela se considera a mesma menina de antes, quando trcou os compassos, réguas e canetas esferográficas do curso de arquitetura pela aventura nos palcos.

No teatro, a artista já participou de peças como Gabriela, uma adaptação teatral do diretor João Falcão do livro de Jorge Amado, além de outras participações na peça “Cidadela”, uma fábula sobre uma família de músicos que caminham o tempo inteiro, com medo de se tornarem árvores caso parem. Uma das mais recentes foi na peça “O tempo não dá tempo”, que propõe uma reflexão sobre a passagem do tempo e como a civilização vem acompanhando o andamento das épocas. O espetáculo, inclusive, foi coordenado por Gregório Duvivier, roteirista e um dos criadores do canal Porta dos Fundos.

Mas a verdade é que nunca passou pela cabeça da potiguar soltar a voz com a música repleta de poesias e brasis pelos palcos afora. Até parece clichê falar de certa forma, mas foi em casa e no chuveiro que Juliana foi dando suas primeiras “palhinhas”. Mas revela: “era muito sem pretensão, mesmo, sem noção do que eu estava fazendo, não pensava em fazer isso da vida, pensava em ser atriz, isso eu pensava sempre”, conta Juliana ao Viver.

Créditos: Alessandra TolcDa arquitetura para o teatro e depois a música: ou tudo juntoDa arquitetura para o teatro e depois a música: ou tudo junto

Da arquitetura para o teatro e depois a música: ou tudo junto

Foi na saudosa Ribeira que Juliana começou a dar os seus primeiros passos como cantora, no lugar que hoje é o Buraco da Catita, espaço cultural da cidade. Após as primeiros laços criados no lugar, Juliana Linhares, até então desconhecida, teve de encarar uma missão forte logo de cara: cantar com nomes consagrados da música local como Glorinha Oliveira, Khrystal e Simona Talma, num show em homenagem aos 100 anos de Cartola. Vivendo e aprendendo a boemia e os meandros do canto no bairro mais antigo da cidade do Sol, Juliana ganhou nova oportunidade com o saxofonista pernambucano radicado em Natal, Neemias Lopes, num projeto de bossa nova. “Eu já estava fazendo Arquitetura na UFRN. Nesses dois anos, comecei a cantar, de início, tocamos no Galpão 29, em eventos, cantava ali, cantava ali, mas ainda sim porque a vida foi me dando essa oportunidade. Nem me via como cantora, nem me colocava como e nem era reconhecida como. Só pelo meu pai que ia lá gritar, todo sábado, ia lá me ver. Seu Reginaldo ia lá me dar uma moral”, conta aos risos, uma de suas marcas.

Mas ao soltar sua voz, Juliana Linhares viu que estava se distanciando de certa forma do seu grande sonho: a atuação. Se nos palcos e de frente para as plateias a sensação era de paz de espírito, nos estudos da Arquitetura, profissão que escolhera por veias paternas, os cálculos e os desenhos ganhavam lágrimas e contornos desesperadores, mostrando a Juliana que o seu lugar não era ali. Foi quando o pai viu que o ambiente da menina era de fato nas artes que mexiam com o corpo, o abstrato e a intensidade humana, diferentemente das projeções exatas e bem determinadas do estudo da edificação dos espaços bem estruturados.

Além do fato de querer ganhar o mundo vivendo por meio de suas multifaces, Juliana conta que algo sempre mexia com os seus botões. “As pessoas diziam: Ah Juliana, eu tenho a impressão que às vezes você não é daqui. E eu nunca entendi isso, na época, porque eu sempre morei em Natal”. O pensamento dos amigos pode estar atrelado ao estilo livre e solto de Juliana, que não pensou duas vezes antes de mudar de profissão.

Do teatro para a música
Foi justamente na faculdade de Teatro, na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Uni-Rio), que Juliana iria conhecer dois amigos que causariam um rebuliço em sua vida: Frederico Demarca e Rafael Lorga, dois companheiros de uma disciplina do curso que logo se tornariam grandes amigos e formariam a banda que misturou poesia, samba e regionalidades em várias canções. Foi na amizade e nas conversas em torno da música que Juliana começou a entender outro rumo que o destino lhe reservara: o canto.  Ao ter aulas com o professor Marcelo Rodolfo, no Rio, foi percebendo que poderia sim aprimorar o canto iniciado na adolescência. “Eu tinha uma vergonha,  realmente não me via como cantora, tão início de período, eu nunca falei para ninguém que eu cantava. Foi um processo muito especial que foi junto com ele [Marcelo Rodolfo] que eu fui descobrindo que eu realmente tinha uma voz que era diferente da que eu usava. Marcelo me deu um lugar de canto muito especial, foi um processo que, junto com Pietá, foi um aprendizado, foi muito legal”, lembra.

A inspiração, ela encontra entre os seus parceiros de arte. “Se eu for começar a falar, resumindo, para uma entrevista, uma grande inspiração para mim realmente é fazer música, teatro e arte com esses parceiros de agora e admirar essas pessoas que estão fazendo comigo e ter esse aporte. Isso me move, porque é com elas que eu vou fazer [arte]. Mas não vou dizer para você que não sou fã de Milton Nascimento, Caetano Veloso, Gal Costa, que adoro. Tenho muita identificação com as cantoras nordestinas também”, conta.

Créditos: Carolina ViannaA voz da Pietá, com Frederico Demarca e Rafael LorgaA voz da Pietá, com Frederico Demarca e Rafael Lorga

A voz da Pietá, com Frederico Demarca e Rafael Lorga

No meio de tantas cantoras que a região produziu, uma encanta a artista potiguar: a pernambucana Marinês, que formou o grupo “Marinês e sua gente”, que em muitas ocasiões chegou a abrir shows de Luiz Gonzaga e acompanhou o Rei do Baião em suas andanças pelo Rio de Janeiro.

“Uma grande identificação, uma parada que eu sinto que eu poderia ter sido, é Marinês. As vezes eu fico pensando nela abrindo o show de Gonzagão, com show de cangaceiros, eu penso: nossa, se eu fosse daquela época talvez eu fosse Marinês [risos]. Tem Elba, aquela voz. Belchior, Elomar, que eu adoro”, comenta, elencando ainda uma série de diversos nomes.

Juliana completa ainda que elencar nomes que a inspiram nos dedos é uma missão pra lá de difícil,  mas resume em uma frase a sua grande admiração. “Sou muito fã dos artistas de Natal, que continuam fazendo arte em Natal e que estão fazendo Natal bombar, brilhar, pessoas que não vieram embora, como eu e isso para mim  às vezes é uma questão. Mas eu acho muito massa o que está acontecendo com essas pessoas e como elas retroalimentam a nossa cidade, fazendo a cidade aparecer sabe?”, completa.

Volta à Natal e os planos
Juliana já veio à Natal com seus parceiros de Pietá em outras  ocasiões, mas a última delas foi especial: no festival Ribeira 360, nos primeiros dias de 2018. Antes, a banda carioca já havia se apresentado no Teatro Riachuelo e no Festival Mada, mas como ela mesma diz, foi diferente. “Foi a primeira vez que Pietá foi convidada para ir à Natal dentro de um festival potiguar, e isso para mim foi muito legal, a gente fez show em Natal [antes]. Fez no Mada, mas faz muito tempo e foi em outra circunstância. Agora a gente foi convidado, com certeza porque eu sou potiguar e o Pietá está sendo reconhecido. Você viu, eu fiquei muito feliz”, comenta.

Créditos: DivulgaçãoNo espetáculo de João Falcão Gabriela, o MusicalNo espetáculo de João Falcão Gabriela, o Musical

No espetáculo de João Falcão ''Gabriela, o Musical''

Juliana revela com muito orgulho o fato da música potiguar estar cada dia mais expoente por todo o Brasil, e opina que, apesar das dificuldades, os festivais e as bandas locais colocaram Natal num cenário nacional antes não ocupado pela capital do RN.

“Acho massa porque está chegando aqui [no Sudeste].  Como está chegando aqui é porque a coisa cresceu e porque está movimentada. A condição de vida, a batalha que é, grana, trabalho, eu sei que não é fácil ainda estar em Natal, mas desde quando eu saí já mudou muito. As pessoas se estruturando, as companhias se cruzando, pessoas novas surgindo, espaços alternativos sendo mais utilizados. Musicalmente, algumas coisas que aconteceram em Natal colocaram a cidade no mapa e as bandas começaram a sair”, diz.

Espaço e voz
Quem acompanhou o Ribeira 360º pôde ver de perto as músicas do “Leve o que quiser”, único CD de Pietá, em um show que arrancou aplausos e mostrou a intensidade e o jeito “urbano e atravessado” de ser. São danças, performances agitadas e exuberantes, além de uma voz grave e ao mesmo tempo suave, que mostram ora a forte ligação com o Teatro por parte de Juliana, ora o seu ímpeto com a música e as apresentações na rua. “Como eu faço um show com uma banda de dez pessoas, que tem arranjos, e os caras estão muito ocupados, e como é que eu faço um show de trio, que não tem arranjos, e eu preciso ocupar esses espaços [?], por exemplo. Se eu tenho um break na música, e eu preciso ocupar esse espaço, eu posso ocupá-lo com o meu corpo, fazer a mesma coisa que um arranjo faria, acelerando os movimentos. E isso causa impacto, porque visualmente você está ali assistindo e a música acontece. Parece que meu corpo precisa realmente estar junto para para completar aquela informação, eu não penso muito sobre o que fazer, isso acontece”, revela.

Para 2018, a cantora  adiantou que a banda Pietá lançará o seu novo disco, ainda sem data prevista. Na nova produção da banda carioca, a expectativa é de uma pegada mais elétrica, sem perder as raízes fincadas no primeiro CD da banda. Ao VIVER, ela revelou ainda estar trabalhando num disco solo, com composições suas, mas também sem data para sair.



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