Entre o funk, o rap e João do Vale

Publicação: 2018-03-23 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Ao descer do palco ovacionado pelos colegas que lotavam o pátio da escola para o ver cantar suas rimas em público pela primeira vez, Leandro da Silva Vale, na época com 15 anos, teve uma certeza: dali pra frente a música seria sua vida. E assim tem sido desde então. Com o nome artístico de Leozinho do B.A., esse carioca de 25 anos, crescido no bairro do Alecrim (por isso o B.A.), tem trilhado a carreira no funk com letras sociais – bem diferente das canções de ostentação ou de erotização da mulher que se vê muito por aí.

Leozinho do B.A. tem como maior inspiração o avô João do Vale, mas busca seus próprios sonhos. Criou um selo que é também estúdio e uma marca de roupas
Leozinho do B.A. tem como maior inspiração o avô João do Vale, mas busca seus próprios sonhos. Criou um selo que é também estúdio e uma marca de roupas

“Funk é liberdade. Permite a qualquer um cantar o que quiser. Eu escolhi falar da periferia, da realidade nas quebradas, de com é ser negro no Brasil”, diz o cantor, que recentemente se formou em Jornalismo na UFRN. Seu olhar aguçado para a questão social tem uma raiz familiar. Leozinho do B.A. traz no sobrenome a herança de um dos maiores compositores da Música Popular Brasileira. Seu avô é ninguém menos que João do Vale, o Poeta do Povo, autor de clássicos do cancioneiro nacional como a icônica Carcará. “Meu avô é a maior referência que tenho na música”, afirma o músico, que tinha quatro anos quando João do Vale morreu, em 1996.

Leozinho do B.A. vem construindo a carreira sem associar seu nome ao do avô para evitar comparações e comentários. “O nome dele é muito conhecido. Não quero que venha gente dizer que estou querendo me promover em cima do seu sucesso”, explica. Embora trabalhe com batidas bem diferentes das quais usava João do Vale, o funkeiro reconhece algumas características em comum com o avô. “Apesar de serem épocas diferentes, acho parecido o que faço hoje com o que meu avô fazia no tempo dele. Ele tinha um viés político bem forte. Não tinha papas na língua”.

Além do avô, outras grandes influências musicais de Leozinho são Cartola, Tim Maia, Emicida e, no funk, MC Cidinho. “Sempre escutei de tudo. Em casa meus pais ouviam muito Chico, Bethânia. Adolescente conheci o funk e gostei de cara. Tem linguagem fácil e próxima da minha realidade. Comecei a fazer rimas como hobby na escola e hoje levo como algo profissional”, conta o jovem.

O artista tem dois discos lançados: “Aonde o sonho em levar” (2013) e “A voz do silêncio” (2017). Dentre alguns de seus shows de maior destaque, estão as apresentações do no Fifa Fan Fest e no Rio Parada Funk, o maior baile funk do mundo. “Tocar no Rio Parada Funk foi inesquecível. Tinha umas 40 mil pessoas assistindo. Fui o primeiro representante do Norte e Nordeste a se apresentar no evento. Aquela galera todinha que a gente vê no Youtube tava lá. O pessoal nem imaginava que em Natal se fazia funk”, lembra o funkeiro.

Leozinho diz que o movimento funk de Natal deu um dispersada grande. Para ele, o auge da cena local foi em 2013. “Num domingo às vezes chegava a ter um três bailes funk na cidade. As festas eram em Felipe Camarão, Cidade Nova, Pajuçara, Vila de Ponta Negra e Ribeira. O Neurose Hall, na Rua Chile , era o pico do funk daqui. A galera estava bem unida e o público era grande”, comenta. “Depois o movimento enfraqueceu. Trabalhar com música é complicado. Não dá muito dinheiro. Chega uma hora que alguns desistem. Outro lance também foi quando o pessoal viu o Aldair Playboy estourar e fazer grana com o batidão, a galera migrou”.

Estúdio e grife de roupas
Embora a cena esteja enfraquecida, Leozinho segue 100% dedicado ao funk. Junto aos amigos  Anjoos, Tomais Galvão e Wynnycyus Wagnner, ele administra o selo Quartel dos Loucos (QDL) desde 2015. “Alugamos uma casa que tem servido de estúdio, adquirimos uma estrutura de som. Fechamos uma parceria com um amigo produtor de vídeo. Temos funcionado num esquema de trabalhar uma música por semana”, conta Leozinho. Além de estúdio a marca também é uma grife de roupas. “Não dá para ser só música”. A grande inspiração do empreendimento é o selo Laboratório Fantasma, do rapper Emicida.

O mundo do rap, por sinal, não é algo distante do jovem funkeiro. Ele já participou de batalhas de rima e costuma fazer aparições nos shows da banda potiguar Time de Patrão – chegou a gravar com eles no Estúdio Showlivre em São Paulo no ano passado. “Pra mim, funk e rap é tudo uma coisa só: MPB, Música Preta Brasileira. A diferença é o bpm (velocidade da batida)”, afirma Leozinho. Sua música de maior sucesso é “Evangelho do Gueto”.

“Nas letras meu funk se aproxima do rap. Mas a relação entre esses dois tipos de música é algo que existe faz tempo. Antigamente os funk sérios ganhavam o nome de rap, como a música “Rap da Felicidade”. As origens são muito parecidas”, explica o jovem. Ele reconhece que o funk que faz grande sucesso hoje é o de letra fácil. Mas isso não o inibe de seguir com seu estilo. “Costumo dizer que nosso som toca mais no coração do que no paredão”. O músico, apesar das diferenças de estilo, não deixa de achar MC Loma incrível.

Disco novo e homenagem ao João do Vale
Leozinho do B. A. está trabalhando a todo vapor em 2018. Em janeiro lançou no Youtube o single “Sawabona” e no mês seguinte, “Flores”. Até o fim do ano ele pretende lançar um disco novo, já batizado com o nome de “A Nova Lei Áurea do Mundo Contemporâneo”. “Estou fazendo com calma, de modo bem trabalhado, para ficar um discão”, comenta. Ele também está colaborando no disco dos parceiros do Quartel dos Loucos e produzindo outros álbuns paralelos, como o “Clarice”, com participação de várias mulheres e que tem a proposta de quebrar a imagem de que no funk as mulheres são sempre sexualizadas.


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