Entre o joio e o trigo

Publicação: 2020-06-28 00:00:00
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Cláudio Emerenciano
Professor da UFRN

As crises são momentos e circunstâncias de “parto” na vida das nações. Caracterizam-se por impactos, sofrimentos, traumatismos, angústias, incertezas, mudanças, ansiedades, desorientação, enigmas e, por fim, novos rumos. Mas a História ensina que seus desdobramentos, invariavelmente, desembocam na gênese de novos tempos e novos caminhos na vida da humanidade. O homem, então, retoma o curso de sua vida: ascensão institucional, cultural, moral e espiritual? A nação é como a mitológica Fênix,   que se deixava consumir pelo fogo e renascia das cinzas. A nação, disse Ernest Renan, é, essencialmente, uma alma, um princípio espiritual imperecível, a visão de um horizonte inalcançável. Um misto de realidade e utopia, sonhos, anseios e objetivos. Miserável por suas contradições. Eterna por sua grandeza e incontrolável por seu atributo de renovar, transformar e gerar novas dimensões e perspectivas. É passado e presente. Assim, ela não se improvisa. Pelo contrário. Seus ideais e fontes são uma espécie de carga genética. Algo programado ou previsível. Nascem no passado, moldam o presente, projetam e inspiram o futuro. Integram periodicamente o fluir da vida dos homens, sem jamais contê-los ou inibi-los. Contudo os homens, em todos os tempos, a exemplo do grande herói de Homero, Ulisses, jamais se renderão ao medo e à inércia. Stanley Kubrick, no genial filme “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, baseado no conto "O Sentinela", de Arthur C. Clarke, consagra a seguinte tese: o medo agrilhoa a condição humana, mantendo-a submissa à ignorância e à estupidez. Avilta-a e tolhe sua vocação. A curiosidade, o destemor, a audácia, os questionamentos, a criatividade, os sentimentos, a fé e a esperança libertam-na, desvendando caminhos e o real sentido da vida e da beleza universal. Ascensão, ou seja, disse Goethe, a busca da Luz, que fulmina as trevas. Proclamou São João (1,4): “ A vida estava nele e a vida era a luz dos homens. A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela”. Princípio da fé cristã.

Historiadores não são conclusivos quanto às motivações de Alexandre, o Grande, ao invadir a Índia. Ali contraiu malária e da qual provavelmente morreu. O historiador e romancista Valério Massimo Manfredi atribui à sua obstinada curiosidade em contactar uma civilização de povo paciente, reflexivo, imerso no ritmo natural da vida. Também pretendia alcançar um “grande mar” (Oceano Índico). Gore Vidal, em seu monumental “Criação”, faz seu herói, Parmênides, em pleno século de Péricles (VI a.C.), conhecer a civilização chinesa. Extasiou-se com milenares características culturais e espirituais. Marco Polo (séc. XIII d.C.) lá chegou e contagiou o Ocidente com o livro “As Aventuras de Marco Polo. Apesar de tantas e sucessivas transformações sociais, políticas e econômicas, muitos hábitos, costumes e tradições prevalecem até hoje. A Academia Sueca, em 1913, ao conceder o Nobel da literatura ao poeta indiano Rabindranath Tagore, ressaltou: “Por seus versos profundamente sensíveis, aprazíveis e belos, pelos quais, habilidosamente, fez do seu pensamento poético, expresso em sua língua e em palavras inglesas, manifestação legítima da literatura do Oriente”. Os orientais são assim. A reflexão os leva a discernir entre “o joio e o trigo”. Provavelmente legado desde Confúcio (sec.VI a.C): rigidez da moralidade pessoal e governamental, ética nas relações sociais, justiça e sinceridade. Valores difundidos por escritores japoneses como Doppo Kunikida, Sosseki Natsume e Naoya Shiga, e os chineses Wang Tu, Lu Hsun e Chao Shu-Li. Seus textos estimulam o pensar e a faculdade de questionar e avaliar. Tudo em busca do saber. Tudo vinculado ao direito de o homem distinguir seja o que for. Aprimorar a visão da vida. Aferir com isenção, equilíbrio e impessoalidade.

Muita gente tem dificuldade, particularmente no Brasil, em separar “o joio do trigo”. Infelizmente pesquisa revela, em âmbito nacional e local, que os brasileiros leem cada vez menos. Seu pensar, inacreditavelmente para a maioria, é determinado ou condicionado por meteóricas, distorcidas ou facciosas informações veiculadas pela televisão e redes sociais. Além disso, em todas as comunidades do país, desde os vilarejos perdidos ou distantes da Amazônia, aos povoados do Nordeste e demais regiões, das grandes metrópoles às cidades de pequeno e médio porte, o conteúdo das novelas, em regra geral, vem mudando, deformando, corrompendo ou adulterando  valores éticos e morais em nossa sociedade. Recentemente ouvi, antes da pandemia, de duas pessoas da minha convivência, com instrução primária, o seguinte: “Você viu fulana? A novela parece ter razão. Só vence no Brasil quem é falso, desonesto e não tem medo de enganar seja quem for”. A mídia impressa (jornais, revistas etc.) crescentemente é menos lida. Insere-se no declínio do hábito de ler no Brasil. Essa circunstância fortalece e favorece os meios de comunicação televiso e via internet, sucintos, pouco opinativos, alguns sectários e visceralmente sensacionalistas. 

Por que a televisão, que é uma concessão pública, predominantemente não emite comentários objetivos sobre graves questões nacionais? A nossa conjuntura política e econômica é gravíssima. Além das devastadoras crises sanitária e moral e do insano radicalismo, permeado de ódio e fanatismo.  Enquanto a televisão de canal aberto não proporciona informações, comentários e reflexões susceptíveis de viabilizar o ideário de Walter Lipmann (jornalista norte-americano), para quem o objetivo irrenunciável dos meios de comunicação, numa democracia, é informar  para formar a opinião pública. Opinar é comprometer-se. Cumprir o dever de descrever fatos honestamente, criteriosamente, comentá-los e avaliá-los com ética e isenção.
William Shakespeare, na tragédia “Júlio César”, distinguiu magistralmente legalidade de moralidade, ou seja, o imperativo legal e o dever moral: “A mulher de César, não basta ser honesta, tem de parecer honesta”. É só entender... 

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