Entre tom moderado e acenos a apoiadores

Publicação: 2020-08-01 00:00:00
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Brasília (AE) - Criticado por parte da militância por adotar um discurso mais moderado, o presidente Jair Bolsonaro tem agido no Judiciário e no Congresso para agradar a sua base eleitoral e tentar conter a insatisfação de seus apoiadores mais ativos nas redes sociais. Na definição de assessores que o auxiliam a encontrar uma fórmula de equilíbrio, no entanto, o grupo ideológico está "cada vez mais difícil de agradar."

Créditos: TIAGO ROLIM DE MOURA/ISHOOT/ESTADÃO CONTEÚDOJair Bolsonaro participa da entrega de residência populares, financiadas pela Caixa EconômicaJair Bolsonaro participa da entrega de residência populares, financiadas pela Caixa Econômica


O que o presidente busca é uma equação entre o tom calibrado para evitar desgastes com os demais Poderes e os acenos com bandeiras que mantêm bolsonaristas inflamados. Até agora, segundo auxiliares do Planalto, essa é uma conta difícil de fechar.

Bolsonaro tem reconhecido nos bastidores que a postura menos beligerante tem dado resultados para conter o avançar da crise que soma dezenas de pedidos de impeachment e inquéritos que fecham o cerco à família e pessoas de confiança. Por outro lado, o chefe do Executivo receia que as críticas da base cresçam a ponto de perder apoio.

O primeiro gesto do presidente para conter o desgaste foi no último sábado, 24. Logo após anunciar que estava curado da covid-19, foi de moto ao encontro da deputada federal Bia Kicis (PSL-S), que dois dias antes havia sido destituída do cargo de vice-líder do governo no Congresso. Bia Kicis reconheceu no Twitter que o gesto de Bolsonaro foi importante para ela e muitos apoiadores. "Atenção, haters, voltou o amor, podem ficar despreocupados", escreveu Bia ao publicar um vídeo do presidente deixando sua casa de moto.

No mesmo dia, Bolsonaro foi mais contundente: entrou com uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) para reverter decisões do ministro Alexandre de Moraes que suspendeu perfis de blogueiros e empresários bolsonaristas no Twitter e no Facebook. A militância e integrantes do Planalto ligados à ala ideológica sempre cobraram uma reação às medidas duras do STF.

Um dos que tiveram as contas bloqueadas, o blogueiro Allan dos Santos usou a rede social Parler, que está sendo usada pela direita em todo o mundo, para reclamar do abandono. Na publicação, atacou o líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo (PSL-GO), e três dos ministros mais próximos de Bolsonaro: Jorge Oliveira (Secretaria-Geral), André Luiz Mendonça (Justiça) e Luiz Eduardo Ramos (Governo). 

"Já viram o tuíte do Major Vitor Hugo sobre a postura ditatorial do STF? Ele só pode falar bem do FUNDEB etc.. Ramos, Jorge, André Mendonça e outros ficarão simplesmente calados. NINGUÉM no Governo sairá em SUA defesa", queixou-se.

Bia Kicis nega que o recurso do STF tenha sido apresentado pelo presidente por reclamação de queixosos como Allan dos Santos. Por outro lado, diz que agora é a hora de a Corte demonstrar que está disposta a construir uma trégua com o Planalto.

"Essa é uma oportunidade de o Supremo retroceder também nessas investidas que estão sendo feitas. O presidente fez isso primeiro e baixou o tom. Então, agora é a oportunidade do STF fazer o mesmo, caso contrário ficará bem complicado", disse. A opinião é compartilhada por alguns dos ministros mais próximos do presidente.

Em outra frente, na manhã de segunda, 27, Ramos, responsável pela articulação política com parlamentares, entrou em campo e definiu com os líderes do governo na Câmara, Senado e Congresso a retomada de pautas de costumes como prioridade. À tarde, em outro encontro, a estratégia foi passada para os vice-líderes.

Bolsonaro quer dar andamento aos projetos que autoriza a educação de crianças em casa e cria regras mais brandas para a posse e o porte de arma. A regulamentação da educação familiar, prática barrada pelo STF, era uma das promessas para os 100 primeiros dias do governo. O projeto foi enviado para o Congresso em abril de 2019.

Em relação à flexibilização do porte e posse de armas, embora o governo tenha adotado diversas medidas, elas ainda são consideradas insuficientes para a militância. No ano passado, a Câmara aprovou uma versão desidratada do projeto do Executivo sobre o tema. Foi retirada qualquer possibilidade de estender o direito a outras categorias, via decreto, como queria o governo e, por isso, Bolsonaro enviou novo projeto em dezembro.

"O governo federal, alinhado com o que o presidente Jair Bolsonaro pensa e defendeu durante a pré-campanha e campanha, definiu algumas prioridades de tramitação na Câmara dos Deputados. Duas delas muito importantes porque retomam aquelas pautas de costumes que nosso presidente defendeu e que nos todos acreditamos", disse Major Vitor Hugo em vídeo ao citar as propostas.