Entrevista com Renato Teixeira, técnico do Assu

Publicação: 2019-03-03 00:00:00 | Comentários: 0
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Vicente Estevam
Repórter de Esportes

Ter na família um nome que é um sinônimo de vitórias dentro do futebol potiguar possui suas vantagens e desvantagens. É justamente isso que o filho do ex-treinador Ferdinando Teixeira, Renato está começando a experimentar em sua primeira incursão dentro do futebol profissional, no comando do ASSU. A marca é tão valiosa que fez Ferdinando suspender até a aposentadoria para acompanhar os primeiros passos do filho na carreira. Renato Teixeira disse que ter o pai como membro da diretoria no Camaleão, vem ajudando bastante, pois numa conversa aberta de pai para filho, o homem que mais títulos estaduais acumulou em sua jornada pelo futebol local, aproveita toda sua experiência para apontar os acertos e também os erros. No momento, o novo comandante do ASSU diz estar realizando um sonho, uma vez que sempre desejou trabalhar com o pai e, o momento, vem sendo contemplado pela dupla. Na entrevista à TRIBUNA do NORTE, Renato Teixeira fala dessa nova experiência e do conselho que recebeu de Ferdinando, quando disse que havia resolvido abraçar a carreira de técnico de futebol.

Técnico do Assu
Renato: "Acredito que estamos crescendo na competição. A qualquer momento a liga vai aparecer e as vitórias vão surgir”

Como é para o filho do treinador mais vencedor do futebol do RN, decidir seguir a carreira do pai dentro do estado? Você está preparado para as cobranças, bem como, para as comparações?
É difícil falar sobre isso por que além de ser um vencedor, eu tenho um sobrenome pesado de um profissional bem-sucedido no futebol, meu pai é uma referência, um espelho. Sei que vão ocorrer cobranças, o Teixeira se transformou num nome muito pesado e eu carrego esse sobrenome, isso pesa para o lado bom e o da pressão, pois sei que muitos vão querer que eu seja um vencedor igual a ele. E a gente sabe que, no esporte, não é dessa forma que as coisas funcionam. Vivemos tempos e épocas diferentes e temos de trabalhar isso o tempo todo.
 
Quando você decidiu assumir a carreira de treinador de futebol, já imaginava o tamanho da cobrança que teria de enfrentar? Ele te incentivou?
Eu já entrei na profissão sabendo que essas comparações seriam inevitáveis, ele me aconselhou muito, mas essa é uma coisa que eu fui buscar, me preparei para ser um treinador de futebol. Fiz o curso da CBF, me formei, venho estudando muito a ciência do futebol, buscando especialização. Isso para que eu possa cortar esse cordão umbilical que liga minha carreira a do meu pai. Ele construiu a carreira dele repleta de glórias e eu agora estou iniciando a minha, buscando formar minha característica e minha personalidade dentro desse novo cargo. Logicamente que meu pai sempre será um espelho para eu me basear.
 
O fato de ter ele na comissão técnica do ASSU é alguma salvaguarda para você? Uma pessoa na qual, na dúvida, o Renato teria sempre a quem recorrer de forma rápida?
 A gente sempre conversa sobre a preparação da equipe e de acordo com os nossos adversários. Ele me pergunta o que pretendo fazer, escuta, durante os treinamentos fica observando ao redor do campo e depois faz uma análise daquilo que viu. Questiona algumas decisões, pede explicações para outras e, às vezes, indica algo a mais que poderia ser feito. A troca de ideias é muito aberta pela confiabilidade de pai e filho.
 
De forma direta mesmo ele não interfere em nada?
 Não, dentro de campo, aquilo que pretendo fazer ele não interfere. Eu programo o cronograma de treinos, ele vê só depois, mas não diz se deve ou não ser modificado. Na parte tática, meu pai (Ferdinando Teixeira) também procura não interferir. Essa questão ele deixa na minha mão mesmo. Quando muito fala, é sobre a questão de algum posicionamento, salientando o que poderia ter sido feito para buscar um rendimento melhor.

O fato de ter Ferdinando Teixeira no ASSU junto com você, foi uma exigência sua? Ou uma exigência dele para acompanhar esse seu início de trabalho?
Na verdade, esse foi mais um pedido do presidente do clube. É lógico que eu queria que ele estivesse aqui comigo para me auxiliar. Na verdade, esse trabalho serviu até para poder tirar ele de casa um pouquinho, pois essa vida de aposentado não combina muito com Ferdinando. De qualquer forma foi uma satisfação enorme quando o presidente do ASSU pediu para fazer esse convite para ele, nós já tínhamos um sonho de trabalharmos juntos algum dia e a oportunidade surgiu, então agarramos. Não foi difícil convencer ele a voltar a ativa também, por que ele sempre gostou muito desse mundo do futebol.
 
Você já disse que Ferdinando procura não intervir no seu trabalho, mas em relação as críticas no final das partidas, elas são feitas?
Ele cobra e cobra muito. É uma cobrança feita do lado profissional, mas também ajuda em outros aspectos. Eu estava necessitando de um zagueiro e mais um volante para colocar na equipe. Então Ferdinando foi a campo buscar essas peças no mercado. Vindo das mãos dele, sei que posso confiar nos jogadores, não tenho sequer como duvidar da qualidade desses atletas devido a larga experiência que meu pai possui dentro do futebol. Trouxemos Hélter e o Ítalo, que já agregaram muito ao time.

Você pegou uma equipe que vem enfrentando problemas no Estadual e que ainda não venceu dentro da competição. Em início de carreira, por que você resolveu aceitar esse desafio? Esse foi o seu primeiro ou já haviam surgido outros convites?
 Já haviam surgido outros convites. Havia conversado com outras equipes e não batemos o martelo por alguns detalhes. O ASSU surgiu e acho que ele possui um time qualificado, estava com uma baixa estima, mas deu uma melhorada. Nós estamos aqui há três semanas e o time já tem a minha cara em alguns aspectos, que é a questão de atuar em velocidade, o fechamento da defesa e o retorno da equipe quando perde a bola no ataque. Nós jogamos na quarta-feira contra o Globo e, em cinco minutos, conseguimos dar nada menos que nove chutes ao gol, com a metade tendo o endereço certo. Acredito que estamos crescendo na competição. A qualquer momento a liga vai aparecer e as vitórias vão surgir.
 
A situação financeira do ASSU prejudica muito o teu trabalho, o planejamento que você gostaria de poder executar?
Nessa questão eu procuro nem me envolver, até por que o salário de todo o grupo está em dia. A direção aqui trabalha com muita honestidade com os profissionais e a diretoria paga aquilo que acerta com cada atleta. A única coisa que procuro saber é se a folha de pagamento está em dia, por que sei que isso interfere muito no emocional dos atletas. Sabemos que a situação está difícil e não apenas para o nosso clube, mas para todos. Na semana passada, no Fluminense, ocorreu uma greve por falta de pagamento, então isso mostra que a crise ocorre em todo o país.
 
Renato Teixeira, o cabeça dura da família, ingressa na carreira cujo pai trilhou de forma brilhante no estado e diz estar ciente do peso da comparação que carregará
Renato Teixeira, o cabeça dura da família, ingressa na carreira cujo pai trilhou de forma brilhante no estado e diz estar ciente do peso da comparação que carregará

Os clubes possuem até a quarta rodada para contratar, chegarão mais reforços para o ASSU ou com o material que você tem em mãos já será o suficiente para terminar o campeonato numa boa colocação?
 Nós demos uma estabilizada, já trouxemos dois atletas novos, alguns jogadores que estavam em tratamento médico, caso do Jânio, também já estão retornando aos trabalhos e então acredito que nosso grupo é suficiente para acabar a competição.
 
Com esse grupo que possui, o ASSU pode pensar em quê dentro do Estadual?
Estamos pensando passo a passo. Primeiro vamos trabalhar para obter uma vitória. Por mais que a gente trabalhe a parte psicológica desse grupo, sabemos que a arrancada que nós estamos planejando só virá com uma vitória. Ela é que irá reanimar esse grupo, a vitória ocorrendo o ASSU entra definitivamente na briga por uma vaga na final do segundo turno. Não veio contra o Força e Luz, quando jogamos bem, ficou por um triz contra o Globo, mas ela está amadurecendo.
 
Existe algum clima de cobrança devido a essa situação de falta de vitórias? Você está conseguindo trabalhar com tranquilidade, sem pressão?
Estou. Esse grupo que nós temos é muito bom, está fechado dentro dos nossos objetivos e vem trabalhando muito para acertar. São homens de bem, que desejam mostrar o seu valor. Sabemos ainda que existe um fator ligado ao futuro profissional de cada um dos nossos jogadores. Se essa equipe crescer e obtiver uma boa colocação no segundo turno, as portas do mercado vão se abrir para esse elenco.
 
Quando surgiu essa vontade em você de se transformar num treinador de futebol?
Eu sempre fui, mas só que nas divisões amadoras e outras ligas. Iniciei com beach soccer, cheguei à seleção do RN, pela qual fui campeão nacional. Fiz um jogo internacional comandando a seleção brasileira da modalidade. Sempre de olho no futebol, trabalhei também com a seleção da OAB-RN e a gente foi campeão brasileiro. Depois surgiu um Sul-Americano para disputar na Argentina, quando subimos de divisão junto com a equipe brasileira. Depois fomos classificados para o Mundial de equipes formadas por advogados e ficamos com o vice-campeonato. Fomos campeões da Taça Ibérica, em Portugal. Minha vida foi assim, sempre voltada para o futebol de campo, o lado profissional.

A preferência era iniciar mesmo no RN ou se surgisse uma oportunidade fora, num clube de um porte semelhante com o do ASSU, você iria?
A preferência era para iniciar fora justamente para fugir um pouco dessa questão do peso do nome do meu pai. Mas como não conseguimos acertar, o ASSU surgiu e optei por não abrir mão dessa oportunidade. Poderia não ter uma chance igual tão cedo.
 
Essa ligação com o seu pai possui data certa para acabar ou deve demorar por mais alguns anos neste seu início de carreira?
Eu quero que perdure, mas ele já não quer mais. Ferdinando Teixeira trabalhou em equipes grandes e bem estruturadas, então não se habitua quando está num clube que não pode oferecer um serviço profissional, na essência da palavra. Agremiações que podem oferecer apenas o mínimo necessário para o treinamento de uma equipe. Tem certas coisas que ele não aceita e, acredito, que isso deva minar a paciência dele num curto período de tempo.
 
Qual sua análise sobre as equipes que disputam o Estadual de 2019? Todo mundo é “japonês” ou existe realmente um adversário a ser batido?
Eu acho que todo mundo é japonês. Infelizmente a gente está com um nível bem aquém daquilo que costumávamos ver em outras épocas no futebol potiguar. Já tivemos mais qualidade e, hoje, a questão financeira, está nivelando demais as nossas equipes. Mas acredito também que isso ocorra em todo Brasil, pois a gente vê Palmeiras e Flamengo, com elencos milionários, ainda penando para vencer os seus jogos. Aqui no RN precisamos dar uma melhorada, ter um time na Série B pelo menos. Essa será a retomada do crescimento.
 
Quando você disse para o seu pai que seria treinador de futebol, o que ele te respondeu?
Sai dessa, vá não! Eu como não sou um filho tão obediente e tenho a cabeça dura, disse que iria tentar. Agora é torcer para dar certo.









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