Entrevista - Tersandro Milagres: “Não é tão simples produzir barrilha”

Publicação: 2010-03-21 00:00:00
Renata Moura e Sílvia Ribeiro Dantas
Repórteres de Economia

Tersandro Milagres, diretor da Techno-parTinta, cal, cimento. Nem só de barrilha vivem os projetos da Techno-par, holding de participações criada no Rio Grande do Norte para gerir a Alcanorte e sua tão esperada retomada.  Aliás, a produção de barrilha - que já foi a estrela da fábrica em sua idealização - é um insumo hoje distante (embora não descartado) dos objetivos dos investidores. Na verdade, a Alcanorte renascerá como um complexo cujos detalhes são explicados pelo diretor da Techno-par, Tersandro Milagres. Em entrevista exclusiva à TRIBUNA DO NORTE, ele detalha como foi firmado o negócio com a Nova Álcalis, antiga controladora, e aponta quais são os próximos passos a serem dados para que o projeto que alimenta os sonhos da economia potiguar há várias décadas saia finalmente do papel. A realidade não parece tão distante, mas ainda depende de algumas questões. A primeira dificuldade para retomar o funcionamento do complexo será o fornecimento de gás natural. Embora a própria Petrobras tenha informado a políticos potiguares neste semana não ser capaz de realizar esta operação, Milagres afirma que os investidores aguardam a concretização dos planos da estatal para fornecer o gás para o Nordeste a partir do próximo ano. O empresário descarta a presença da Petrobras como parceira na produção de insumos, mas confirma que a estatal foi procurada para integrar a termoelétrica que será instalada. A estatização da empresa também é uma alternativa que ele derruba.

De quanto será o investimento feito no complexo da Alcanorte?
Estamos falando de um projeto de cerca de R$ 1,2 bilhão.

Como está o andamento desses projetos, atualmente?
Os projetos estão em fase final de licenciamento ambiental, para as obras poderem ser iniciadas. O processo de licenciamento já dura quase um ano e a maioria das etapas para o licenciamento já foi cumprida.

Como  foi fechado o negócio com a Nova Álcalis para que a Techno-Par se estabelecesse na área?
Nós fizemos um contrato de arrendamento com opção de compra. O contrato prevê o arrendamento por 20 anos. Em janeiro de 2006 foi firmado o memorando de atendimento, em maio de 2007, os contratos de arrendamento e em maio de 2008 foram feitos aditivos a esse contrato.

Qual o valor do contrato firmado?
Os contratos preveem15% sobre o lucro líquido, no que diz respeito à exploração de calcário, além de um valor fixo mensal. Se for somar tudo, podemos dizer que dá em torno de R$ 70 milhões, que renderia à diretoria da Nova Álcalis ao longo de 20 anos.

Esse é um complexo de aproximadamente R$ 1,2 bilhão e, em funcionamento, teria capacidade para gerar cerca de três mil empregos, entre diretos e indiretos. O senhor confirma essas informações?
Sim, é isso mesmo. Só com relação à termoelétrica, estamos falando de cerca de R$ 1 bilhão, que consiste no maior projeto para a área. Para concluir os outros projetos no complexo serão investidos mais R$ 400 milhões.

Qual a potência prevista para a termoelétrica?
A potência instalada com a termoelétrica será em torno de 540 megawatts de energia, fornecendo para o próprio complexo e para o mercado interno, através de leilões de energia.

A expectativa é que o projeto comece a sair do papel em quanto tempo?
O primeiro fator do projeto a ser vencido será viabilizar o fornecimento de gás. Depois disso, pode considerar mais um período de, no máximo, 36 meses para concluir a obra inteira.

Antes de começar a obra é preciso negociar com a Petrobras, para garantir o recebimento de gás?
Já estamos negociando. Há algum tempo, a Petrobras fez uma apresentação para vários investidores, afirmando que só teria como trabalhar no fornecimento de gás dentro do Nordeste a partir de 2011. Assim, estamos contando que a estatal possa fornecer gás para a termoelétrica a partir do próximo ano e precisaremos esperar até o final do próximo ano ou início de 2012, mas se tivéssemos a garantia de fornecimento desse produto, poderíamos iniciar o projeto antes.

Com relação aos insumos que serão produzidos, como tinta, cimento, cloro e numa ultima etapa barrilha, qual será o mercado para esses produtos?
As tintas serão produtos voltados para a construção civil e pensamos em vender em todo o mercado nacional, bem como o cloro. Já a cal, será vendida uma parte no Brasil e outra será voltada para o mercado externo. O mesmo irá ocorrer com o cimento, que cerca de 70% será para exportação.

De quanto será a produção da fábrica de cimento?
Estimamos ter cerca de dois milhões de toneladas anuais de cal e cimento. A nossa intenção é começar a produção cerca de 24 meses após o início do nosso cronograma, que começa em 12 meses, tanto para a cal quanto para a tinta.

A empresa pretende pegar uma fatia do mercado que vai se abrir com as obras de infraestrutura voltadas para a Copa de 2014 e com o programa habitacional Minha Casa, Minha Vida?
Acredito que essas iniciativas não são tão expressivas, a ponto de viabilizar uma fábrica de cimento. O nosso foco principal será, realmente, a exportação.

A produção de barrilha está contemplada também nesses projetos ou não há contrato de intenção firmado com investidores?
Já existem contratos firmados, porém ainda é muito prematuro falar sobre barrilha.

Podemos dizer que há a possibilidade de o estado não produzir barrilha, dentro desse complexo?
A possibilidade existe, mas acredito que é mínima. Se você me perguntar se daqui a 36 meses estaremos produzindo barrilha, vou te dizer que não, mas em um período de cinco anos, acho que a produção será uma realidade. Podemos dizer que essa será a terceira etapa do projeto, mas para ser concretizada, dependerá de variáveis, como o mercado. E sabemos que existe interesse de compradores, inclusive do exterior, mas não é tão simples viabilizar essa produção. Com relação às etapas anteriores, já foram realizados diversos estudos e já estão prontas para sair do papel.

O senhor falou que há investidores de peso com contratos já firmados, mas os jornais têm levantado a possibilidade de a Petrobras também fazer parte desse projeto. Como investidor que está à frente desse complexo, o senhor confirma ter negociado com a estatal?
Chegamos a conversar alguma coisa, mas há alguns problemas. Se você me disser que a Petrobras vai integrar o projeto de uma fábrica de barrilha, eu não acredito, pois esse não é o foco e não há nenhum interesse da empresa nesse sentido. Conversamos a respeito da termoelétrica, para a estatal fornecer o gás e ter uma fatia de participação no projeto. Essa opção foi vista com bons olhos, mas nenhum contrato foi fechado, pois o fornecimento de gás para a região Nordeste só deve começar em 2011, mas a Petrobras entrou em outros projetos aqui no estado, como a Termoaçu.

Algumas correntes políticas e empresariais têm defendido a estatização da Alcanorte. Há essa possibilidade?
Eu acho que está todo mundo falando, sem saber o que tem por trás dessa história. Eu tenho visto cada coisa absurda nos jornais. Fala-se em intervenção, mas seria intervenção de quem? A empresa faz parte de um conglomerado e sem os nossos projetos, aquilo ali é um elefante branco, como já foi dito por diversas vezes. O que posso dizer é que, de imediato, existe viabilidade para montar a fábrica de tinta, cal, cimento e algumas outras coisas. Esse é o meu projeto, estou com contratos de arrendamento e trabalhando em cima disso. Mas se vai ter estatização, isso ou aquilo, eu acho muito difícil, em função dos contratos existentes. Não tem como cogitar agora que a Petrobras vai entrar no negócio e a fábrica de barrilha vai começar a produzir daqui a três anos. A estrutura arrendada está nas minhas mãos, porque estou no meio de uma disputa acionária. Quem vai fazer um investimento no meio de uma disputa dessas? Estou esperando a Justiça dar uma solução para esse problema e acredito que esta briga deva ser encerrada nos próximos 20 dias, tanto para decidir que a gente está dentro ou fora do projeto. Agora, no formato que está hoje, ninguém vai fazer investimento em cima dessa disputa jurídica.

Nesse contexto de disputa, o que torna o projeto viável?
Acreditamos que o projeto é viável, porque levantamos uma taxa de retorno atrativa, que hoje não temos como dizer quanto, é por envolver uma série de custos variáveis.

O Governo do Estado ofereceu algum tipo de incentivo ao projeto?
Nós buscamos incentivos na parte tributária e os representantes do governo demonstraram apoio às nossas propostas. Mas nada foi firmado, justamente em função do impasse que permanece em torno do fornecimento de gás e por não termos como prosseguir, devido à disputa. O que posso garantir com segurança hoje é que, após começar o projeto, em um ano, estaremos produzindo cal e tinta. Isso porque o consumo de gás para esses produtos é em um volume que o estado tem condições de fornecer.

O que será preciso fazer na estrutura, para começar a produzir esses insumos?
Temos que qualificar pessoal e acho que na região de Macau deverá faltar mão-de-obra qualificada, além de precisarmos fazer uma estruturação no que diz respeito a um sistema de dutos, interligando com Guamaré. Na parte de construção civil, devemos começar reformando as estruturas de concreto. Íamos começar agora asfaltando o aeroporto, para facilitar o trânsito dos técnicos, e começar a asfaltar a parte interna da planta.

A Alcanorte tinha muitas dívidas. Como ficou essa questão?
Com relação às dívidas, iniciamos uma negociação com os bancos, chegamos a iniciar avaliações, mas nada foi muito à frente. Prefiro não falar o valor das dívidas, para não atrapalhar as negociações.

Como o senhor avalia todo esse movimento em prol do renascimento da Alcanorte? Acha que há muito romantismo?
Eu sou a favor do cimento. Acho que isso tudo só atrapalha, é só especulação e um monte de informação desencontrada. O projeto, em si, tem alguns entraves que estão sendo descobertos hoje pela população, mas que para a gente não são tão desconhecidos.

Jornais de Natal já publicaram que ainda é preciso fazer estudos sobre a viabilidade da barrilha e talvez fosse mais lucrativo importar do que produzir. Qual a sua opinião a esse respeito?
É preciso desenvolver estudos relativos a isso, para ter certeza. Mas o que eu penso em relação à barrilha é que temos uma fábrica que iniciou as instalações há 34 anos, com matéria-prima para produzir, que são gás, sal, calcário e água, e agora só precisamos saber o custo para recuperar a planta do local. Não tem sentido produzir barrilha em outro local do Brasil, pois no RN temos tudo para isso. Mas é preciso ver o custo de investimento em uma planta dessa.

A barrilha não é uma prioridade no projeto?
Não, porque existem outros insumos que a produção será iniciada no prazo de um ano, com um retorno mais rápido e, enquanto isso, continuaremos trabalhando no sentido de viabilizar a produção da barrilha.

Há quanto tempo o senhor trabalha no setor de energia?
Desde o ano 2000. Tenho experiência na geração e construção. O projeto do Rio Grande do Norte é um dos três que estamos estruturando com investidores americanos. Além desse, há um no Rio de Janeiro e o local do terceiro ainda está sendo estudado.

Devido a essas dificuldades apresentadas, o senhor já pensou em desistir do projeto?
Ainda não. E espero que esses impasses sejam resolvidos em breve, para que possamos colocar em prática as obras até o fim deste ano.