Envelhecer ou morrer, eis a questão

Publicação: 2018-06-14 00:00:00 | Comentários: 0
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Edilson Alves de França
Professor, ex-Magistrado e Procurador da República aposentado

Li e reli, com renovada atenção, um esquecido artigo Sobre a Velhice, com esse mesmo título, escrito com evidente desencanto e com apoio na crueza de Alfred de Vigny e do japonês Mishima. Ali, observei superdimensionados os maus presságios de Ovídio, de Montaigne e de La Rochefeucauld, entre outros que vulgarizaram a senilidade, apontando-a como fonte de opróbios e ressentimentos egoístas.

Com efeito, não se desconhece que a velhice, dentro da natural limitação física, ínsita ao seu próprio conceito biológico, alcança a todos que, ao contrário do citado Mishima (que suicidou-se), preferem permanecer por mais tempo nesse mundo que já não é só do meu Deus. Entretanto, essa realidade não significa dizer que os sobreviventes dessa nossa geração globalizada, terão, forçosamente, uma vida “coberta de opróbios”, ao ponto de almejarem “o conforto de um túmulo”, como sugere o autor do malfadado artigo.

Ao contrário de Mário Moacyr Porto, Otto Guerra e João Medeiros, que também escreveram sobre o tema, o articulista não faz concessões: “a única coisa que melhora com a idade é o vinho”, diz ele. Esse, convenhamos, não é o único libelo capaz de revelar o quanto se tem fugido de uma abordagem da velhice, como efetivo momento de crescimento. Ao que tudo indica, estamos perdendo a capacidade de entender e respeitar nossas mudanças e abrir espaço para seu desenvolvimento, esquecendo totalmente a técnica que Jung chamava de imaginação ativa, capaz de fazer com que novas atitudes brotem das profundezas da psique.

Parece que um branco histórico já não nos permite alcançar e compreender como foi que Sófocles, aos 89 anos, escreveu Édipo. Como Goeth concluiu Fausto aos 83 e como Ticiano, todo serelepe, pintou a Descida da Cruz, quando subia para a lucidez dos seus mais de 90 anos. Sócrates, Ovídio e Diógenes também poderiam ser exemplos dessa longevidade pródiga em novas ações e feitos. Entretanto, para que não se diga que esses são fenômenos de uma antiguidade remota, lembro Victor Hugo, Bismark, Leão XIII, Voltaire e Chaplin, este último, tal como Sêneca, pai feliz e brincalhão por volta dos setenta anos.

No campo do direito, os exemplos são riquíssimos, vão de Afonso Arinos, Pontes de Miranda e Sobral Pinto, até o famoso juiz Oliver Wendell, que aposentou-se aos 91 anos, julgando melhor do que quando tinha 40. Aqui em Natal, além do saudoso professor Raimundo Nonato, exemplo maior da advocacia tupiniquim, nosso jovem José Delgado, depois de aposentar-se como Ministro, acumulando saber e experiência, desenvolve uma promissora e entusiasmada carreira de advogado, mais disposto e lúcido do que nunca.

Outros velhinhos brasileiros, a exemplo de Oscar Niemeyer, foram longe, demonstrando que a juventude não é apenas uma fase da vida. É também um estado de espírito, uma questão de vontade, uma vertente da imaginação, um vigor emotivo, um combustível que vem das profundezas da alma, como diz Matshushita. As pessoas que assim vivem não procuram saber onde começa a velhice e termina a juventude. Para elas, basta que, todos os dias, possam recomeçar suas existências e renovar suas esperanças. Elas sabem que, a depender de cada um, a velhice pode ser triste, mas o será, não porque acabam as alegrias, mas, sim, porque morrem aquelas esperanças que não são cultivadas. 

 A “felicidade boa e calma” a que alude Hermes Fontes, é aquela que nos é propiciada pelo por do sol, pelo calor de uma carícia, por um banho de chuva, pelo prazer de brincar com a criançada, de dançar e pular de alegria pelas vitórias dos que nos são próximos, de contribuir para a realização da Justiça, de saber que o amor que temos para dar, aumenta na medida que o distribuímos com mais frequência. A verdade é que poucos são tão velhos que não queiram viver mais, Até porque, diante das duas opções que nos são dadas, prefiro ficar vivo e velho por muito tempo, o suficiente para me associar àqueles que, ao contrario da personagem de Goeth, não pretendem negociar com o diabo. 


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