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Escadaria de Mãe Luíza surpreende após a repaginação artística
Publicado: 00:00:00 - 22/01/2022 Atualizado: 00:05:19 - 22/01/2022
Tádzio França
Repórter

É preciso fôlego para os 133 degraus da escadaria de Mãe Luiza. O esforço é recompensado não apenas com a vista da praia de Areia Preta, mas também com a quantidade de arte que adorna o local. A repaginação artística realizada ao longo de quase dois anos incluiu um refinado trabalho de mosaicos nos degraus e arcos, junto aos murais laterais repletos de grafites. Toda essa arte é sintonizada com a história de Mãe Luiza, e forma um conjunto de cores e formas que chama a atenção de todos, sejam nativos ou turistas. A cada recorte de cerâmica e a cada traço riscado, o toque precioso de muitos artistas locais. 
Adriano Abreu
Escadaria de Mãe Luíza surpreende após a repaginação artística realizada ao longo de quase dois anos incluiu um refinado trabalho de mosaicos nos degraus e arcos, junto aos murais laterais repletos de grafites

Escadaria de Mãe Luíza surpreende após a repaginação artística realizada ao longo de quase dois anos incluiu um refinado trabalho de mosaicos nos degraus e arcos, junto aos murais laterais repletos de grafites


O embelezamento da escadaria é uma ação de políticas públicas que reuniu cinco mosaicistas (e seus respectivos ajudantes) e 20 grafiteiros. “A escadaria de Mãe Luiza estampa o maior painel cerâmico naif do RN.  Iconografia identitária idealizada e executada por várias mãos. Os murais de grafites espalhados nas quatro regiões administrativas da cidade configura um lugar que expressa a estética dos seus artistas de rua”, declara Dácio Galvão, secretário de cultura de Natal. As ações foram articuladas pelo Depto. de Artes Integradas,  dirigido por Flávio Freitas, com a coordenação de Miguel Carcará. 

Recorta e cola 
A mosaicista Gildeci Pereira afirma que se arrepia só de lembrar o resultado do trabalho realizado durante cinco meses em 2021. “É fantástico ver a obra pronta, sentir a admiração e o carinho das pessoas com ela, é gratificante”, diz. Ela trabalha com mosaicos há 12 anos. Começou quase por acaso, a partir de uma oficina dada pela instituição Adote, que auxilia sua filha com deficiência. “Na verdade eu estudo até hoje. Gosto de descobrir e aprimorar novas técnicas. Nesse ramo a gente se adapta ao gosto do cliente”, diz. 

Adriano Abreu
Gildeci Pereira e Rosângela Mello são mosaicistas

Gildeci Pereira e Rosângela Mello são mosaicistas


Para a escadaria de Mãe Luiza, Gildeci utilizou cerâmicas industriais na criação dos desenhos. Ela explica que utilizou desde o estilo bizantino clássico, até os trincados, de aspecto mais atual. A mosaicista elaborou imagens como um coloridíssimo cajueiro e a parteira que deu nome à comunidade de Mãe Luiza. Também há toques dela no arco de cima, que é dedicado ao 'Sol', enquanto o de baixo é o 'mar'. Gildeci espera que a obra na escadaria também funcione como uma grande vitrine do mosaico natalense, e o mercado se abra mais. “Trabalhamos com uma arte milenar que muita gente ainda não conhece. Algo que serve desde espaços públicos até peças utilitárias, sempre com beleza”, diz. 

Rosângela Mello trabalha há quatro anos com mosaicos . Apesar de “nova” no ramo, já ministrou oficina em loja grande e fez vários trabalhos por encomenda. Ela conta que foi uma mosaicista autodidata, no começo. “Queria uma mesa com mosaicos pra mim e decidi fazer eu mesma. Pesquisei na internet, vi vídeos. e fui fazendo. Me apaixonei e fui me especializando, não parei mais”, conta.    

A mosaicista considera que a escadaria foi pra ela um prazer e também um grande aprendizado, a maior obra que já fez até agora. “A vontade de embelezar é o que move o mosaicista, seja o trabalho comercial ou não. Fazer mosaicos é fascinante”, diz. Rosângela conta que fechou seu atelier por conta da pandemia, mas continua aberta a encomendas. Já fez mosaicos para empresas, piscinas, até um painel para a Casa Durval Paiva. 

João Batista de Lima é mosaicista há 16 anos. Ainda morava em João Pessoa quando a esposa fez um minicurso sobre mosaicos, e ele acabou aprendendo através dela. A arte é tão familiar em sua casa, que para o trabalho na escadaria de Mãe Luiza ele teve a mulher e a filha como ajudantes. “Trabalhamos nos primeiros 20m2 da escadaria, desenhamos chananas, dromedários e dunas. O resultado final ficou fantástico”, diz. 

João e família são bastante versáteis no segmento. Produzem peças decorativas como quadros, espelhos, tampos de mesa, vasos, mandalas, placas caseiras, entre outros; e também fazem painéis, em espaços diversos, principalmente arte sacra para igrejas. O casal costuma participar de eventos e feiras de artesanato, como a Fiart. Liana Diógenes e Wendell Batista também  trabalharam nos mosaicos. 

Grafites 
O grafite é uma arte de rua que sempre teve espaço nas paredes de Mãe Luiza, portanto, uma conexão obrigatória na galeria aberta que é a escadaria. Mais conhecida como Blue, Rayane Pamela foi uma das primeiras meninas a atuar no grafite em Natal. “Quando comecei, há sete anos, só tinha quatro garotas. Agora tem mais de 30 por aí, e só faz crescer”, conta. Blue diz que aprendeu a fazer observando os amigos, até que teve seu primeiro contato mágico com o spray – e não parou mais. 

Adriano Abreu
Os grafites estão no local pelas mãos de 20 grafiteiros

Os grafites estão no local pelas mãos de 20 grafiteiros


Para a escadaria, ela apostou no seu personagem marca registrada, o “Bira”, uma criatura sem raça e gênero definidos, representando todos os segmentos. No muro, Bira aparece em meio a coloridos donuts, ao lado de uma vendedora de ginga com tapioca. Blue não é atuante apenas nas paredes, mas também investiu numa loja de sprays para grafite, faz tatuagem, tem um canal no Youtube para iniciantes na arte,  faz grafites comerciais, e ainda promove o evento Potygrafite – que deve retornar após a pandemia. 

Os grafites nas velhas paredes da Ribeira inspiraram Fábio Freitas a criar seus próprios traços. Já está há oito anos na área, trabalhando com “personalização de ambientes”, como gosta de dizer. Para a escadaria de Mãe Luiza ele explica que foi feito um estudo em conjunto entre os grafiteiros selecionados, sobre a história da comunidade. Isso norteou os desenhos, mas cada um ficou livre para traçar seu estilo. 
Adriano Abreu
Os mosaicos compões lindas imagens por toda escadaria

Os mosaicos compões lindas imagens por toda escadaria


Fábio conta que abordou temas como a pesca e o surf, ambas as atividades convivendo na comunidade de frente pro mar. “Utilizei cores bem diferentes do habitual, para fazer a conexão entre o moderno e a tradição”, diz. Fábio explica que é adepto do estilo realista em seus grafites, gosta das expressões das pessoas, sobretudo das crianças. Ele atua bastante comercialmente na área, mas ressalta que o poder da mensagem é o que mais gosta nessa arte urbana.     

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