Escola de música contagia comunidade de Mãe Luíza

Publicação: 2018-05-01 00:00:00 | Comentários: 0
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Isaac Ribeiro
Repórter

O bairro de Mãe Luiza é um importante reduto cultural da cidade, com manifestações artísticas de diversos tipos, mas tendo a música sempre como destaque. Muito mais que samba, funk e hip hop, a comunidade tem feito ecoar, pelas ruas e vielas, sons vindos de instrumentos de sopro, coordenados pelas evoluções e marcações de uma batuta. A inauguração da Escola de Música de Mãe Luiza, no Centro Sócio-pastoral Nossa Senhora da Conceição, tem movimentado os ânimos da juventude do lugar, que enxerga nessa nova opção de aprendizado, uma oportunidade de futuro melhor.

Adolescentes vivenciam os dias entre ensaios e atividades. “A comunidade abraçou a escola. Eles estudam até em dia de folga”, diz o professor Leonardo Tomé.
Adolescentes vivenciam os dias entre ensaios e atividades. “A comunidade abraçou a escola. Eles estudam até em dia de folga”, diz o professor Leonardo Tomé.

Inaugurada no último final de semana, a escola é uma parceria  do Centro Sócio-pastoral Nossa Senhora da Conceição com a Ameropa Foundation, organização não governamental suíça, financiadora de projetos sociais pelo mundo.

A ONG suíça já havia construído a Arena do Morro, em Mãe Luiza, atendendo os anseios da comunidade com relação ao esporte. Eis que agora o foco foi a  inclusão social através da música, como adianta o professor Leonardo Tomé, do município de Acari, maestro da Banda Filarmônica de Mãe Luiza, juntamente com os professores  Paula Francinete e Pedro Augusto, ambos de Cruzeta. 

Através do financiamento parceiro da Ameropa Foundation, foram reformadas as instalações do Centro Sócio-pastoral, a escola de ensino fundamental que lá funciona e construída, no primeiro andar, a sala para as aulas de música e que abriga o projeto da Banda Filarmônica, que existe há dois anos, nos moldes tradicionais das bandas desse estilo, de retretas de coreto, baseado em instrumentos de sopro.

Vivendo os dias de música
O professor Leonardo Tomé comenta ter a nova escola capacidade para atender 65 alunos, em diferentes etapas de aprendizagem até chegarem à Banda Filarmônica. Atualmente, são 20 alunos aprendendo teoria musical e se aperfeiçoando em instrumentos como flauta transversal, clarinete, saxofone, trompete, trompa, trombone, bombadino, tuba, flauta doce e percussão.

O professor e maestro informa que ainda estão sendo realizadas reuniões para estabelecer um calendário e dinâmicas de ensino. As aulas específicas para instrumentos são realizadas duas vezes por semana; e ensaios gerais acontecem três vezes semanais. “Mas a todo momento se aprende por aqui”, diz Leonardo Tomé, comentando que os alunos não querem sair do novo espaço.

Ele conta que, no início, os pais chegaram a ficar preocupados com o horários das aulas, mas logo perceberam o espaço que a música vem tomando na vida dos filhos.

Músico de Cruzeta, Leonardo Tomé é um dos coordenadores
Músico de Cruzeta, Leonardo Tomé é um dos coordenadores

“O projeto foi muito abraçado pela comunidade. A equipe de professores se sente acolhida. Essa grande participação dos meninos denuncia que essa escola era algo que se desejava muito”, diz Leonardo Tomé.

E a motivação dos alunos fica evidente quando, mesmo em dias reservados de folga, eles marcam para se encontrarem na escola para treinar nos instrumentos. Alguns chegam a preparar comida na própria escola para não abandonarem seus postos. Só não ensaiam nos domingos à noite. Pelo menos até agora.

“Procuro aprendizado aqui, uma profissão. Quando não existia essa escola, ficava mais em casa dormindo. Eu venho pra cá e me divirto muito, tocando um instrumento”, comenta Kevin Gomes, 18 anos, que há dois anos se dedica ao trompete.

Junto com Kevin, ensaiavam com seus instrumentos no momento da entrevista Glace Kelly, 15 anos, trumpete; Davi Guido, 14 anos, saxofone tenor; José Wilson, 13 anos, saxofone alto; Samara Silva, 12 anos, saxofone alto; Lílian Vitória, 10 anos, clarinete; Nicole de Aquino, 9 anos, clarinete; Glide Regina, 13 anos, flauta transversal; e Kismair Felinto, 14 anos, flauta transversal. Todos com o mesmo objetivo de Kevin: a busca por oportunidades!  

Acústica elogiada
Para passar a ter aulas com o instrumento escolhido, o aluno deve passar primeiro por aulas teóricas, de solfejo e com flauta doce. Uma vez ingresso nas aulas de prática musical, também são formados grupos subjacentes, ou de câmara, como informa Leonardo Tomé. Hoje, além da Banda Filarmônica, funcionam um quarteto de flautas, um quarteto de saxofones, dois quartetos de clarinetes e um quinteto de metais. Todos esses grupos são acompanhados pelos alunos de percussão.

A sala da Escola obedece todas recomendações técnicas e de acústica, tendo sido essa bastante elogiada pelos profissionais de música que já passaram no local.  “Não se encontra no Nordeste esse padrão de acústica”, comenta o maestro.

Kevin: “Quando não existia a escola, ficava em casa dormindo”
Kevin: “Quando não existia a escola, ficava em casa dormindo”

Além disso, o espaço conta com sistema de ar-condicionado central, iluminação especial direcionada, cadeiras para uma plateia de 70 pessoas, pedestais e estantes para partituras e uma sala  pronta para receber um estúdio de gravação.     

De acordo com Edilza Gadelha, coordenadora pedagógica do Centro Sócio-pastoral Nossa Senhora da Conceição, os instrumentos foram todos doados por amigos e parceiros que ajudam a manter a escola, inclusive com doações da Suíça e da Alemanha.

Filantropia vem de longe
Edilza esclarece que o Centro Sócio-pastoral é uma ONG que atua em várias vertentes dentro do bairro de Mãe Luiza, voltadas para educação infantil e de adolescentes e jovens, além de idosos. Todas as atividades são decididas em reunião com a própria comunidade. Ela lembra que a questão mais discutida anteriormente era o esporte. Até que foi construída a Arena do Morro, com financiamento da mesma  Ameropa Foundation. “Nos últimos seminários era apontado que não havia vida cultural na comunidade. Então, pensamos na escola.”

Maestro Bembem orientou projeto
Conhecido pelo trabalho de formação musical de jovens e pela implantação de bandas de música em diversos municípios do Rio Grande do Norte, maestro Humberto Carlos Dantas, ou simplesmente maestro Bembem, foi escolhido, inicialmente, para coordenar a implantação da Escola de Música de Mãe Luiza. Porém, seguindo o próprio, outros projetos assumidos o impossibilitaram de aceitar o convite. Mas ele não declinou totalmente, a acabou orientando o projeto do ponto de vista orçamentário, com relação aos instrumentos, e ainda detalhes técnicos da sala de ensaios e de montagem de da equipe.

“A expectativa é realizar um trabalho de inclusão com a criançada de Mãe Luiza, que é uma comunidade muito tradicional e ao mesmo tempo ainda discriminada. A população de lá é maravilhosa e as crianças são muito talentosa”, comenta mastro Bembem.

Para ele, uma escola como a inaugurada em Mãe Luiza desperta no ser humano a grandeza que cada um tem em si. Ele prevê que em quatro anos surgirão excelentes músicos de lá. “O problema do Brasil é oportunidades. Acho que a escola ainda vai crescer muito e absorver todo o talento daquela região. E eu fico agradecendo a Deus por ter me colocado nessa caminho.”


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