Rubens Lemos Filho
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Publicado: 00:00:00 - 12/12/2021 Atualizado: 13:43:02 - 11/12/2021
Rubens Lemos Filho
rubinholemos@gmail.com

Escrevo com frequência, na verdade escrevo mesmo é com orgulho, por fazer parte de uma geração que podia escolher no futebol. Aquela polêmica de esquina do “quem é o melhor?”, estava presente em todas as minhas noites de infância e adolescência e com personagens diferentes. Sou do tempo – e aí vai outro clichê -, de que qualquer sujeito medianamente entendido escalava quatro seleções brasileiras.
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Vem do meu tempo e nele acabou, a divulgação da lista dos 40 convocados para Copas do Mundo. O técnico chamava 22, eram três goleiros e sempre um atacante acabava sacrificado e mais 18 nomes inscritos para eventuais substituições em casos de contusão ou de alternativa tática do treinador. 

Zagallo, em 1974(quando eu tinha quatro anos e nem imaginava o que seria a magia do futebol), pescou cinco nomes da relação de espera: o goleiro Renato (Flamengo), o fabuloso lateral-direito Nelinho (Cruzeiro), rejeitado pelo ABC dois anos antes para o Brasileirão, os pontas Valdomiro(Internacional) e Edu (Santos ) e o centroavante César Maluco. 

Perderam a vaga para a pífia campanha do quarto lugar na Alemanha(salvaram-se Marinho Chagas, Luís Pereira, Carpeggiani e Dirceuzinho), o goleiro Félix(Fluminense), Carlos Alberto Torres(Santos), Clodoaldo(Santos), Enéas(Portuguesa) e Mirandinha(São Paulo). Mirandinha seria chamado às vésperas da Copa. 

Havia gente, mas não havia time. Não existia esquema nem sombra do brilho técnico do Tricampeonato. Em suma: não havia Pelé. Nem Gerson. Nem Rivelino sozinho resolveria. 

Roberto Dinamite(foto) é exemplo do quanto o superpovoamento de craques facilitaria, em tese, o tetracampeonato muito antes de Romário inspirado e responsável pela taça em 1994. Dinamite ficou fora da lista dos 22 em 1978 e 1982. Em 78, Nunes do Santa Cruz se machucou. 
Roberto Dinamite foi o principal jogador do Brasil na Argentina, responsável pela classificação à segunda fase marcando o gol contra a Áustria(1x0), mas jogou à força. Valeu a imposição do Almirante Heleno Nunes, presidente da CBD, que barrou Reinaldo do Atlético Mineiro, técnico demais para os buracos de Mar Del Plata. 

Em 1982, nem o então Papa e hoje São João Paulo Segundo contornaria a pirraça do técnico Telê Santana, emburrado humilhando Roberto Dinamite que ocupou a vaga de Careca, contundido. Aguentamos Serginho Chulapa até Paolo Rossi mostrar como se fazia um artilheiro em Copa do Mundo. 
Eram ótimas as discussões sobre quem ficava fora. Em 1978, Marinho Chagas, Marco Antônio (Cláudio Coutinho escalou Edinho de lateral-esquerdo), o chanceler Paulo Roberto Falcão, melhor jogador do país e o rebelde Paulo César Caju. 

Quatro anos depois, reclamamos os goleiros Leão e Raul, o artilheiro Jorge Mendonça e o estilista Mário Sérgio na ponta-esquerda. 
De 1986 em diante, com o surgimento de Elzos, Alemãos, Edsons Boaros, Casagrandes, Edivaldos, Bismarcks, Andersons Polgas, Grafites, Freds, Jôs e tantos obtusos, perdemos o tesão. É muito chato consultar o Google a cada jogo da seleção brasileira. 

Adoro minha turma, minha patota, recém-chegada aos 50 anos, porque ganhamos horas e horas debatendo quem era melhor, se Geovani do Vasco ou Adílio do Flamengo, Pita do São Paulo ou Zenon do Corinthians.

Mais  Jorge Mendonça do Palmeiras, Vasco e Guarani ou Jair Prates, do Internacional e um teste quase lotérico de antigos pontas-esquerdas: Joãozinho(Cruzeiro), Júlio César Uri Gheller(Flamengo), Zé Sérgio(São Paulo), João Paulo(Santos, Corinthians e Flamengo), Paulo César Caju(150 times ) ou Mário Sérgio(uns 221). 

Na internet, perde-se a paciência com enquetes comparando o supremo Leandro, do Flamengo, com o nada mais que esforçado Cafu, ou os esplendorosos Júnior e Marinho Chagas, com o midiático Roberto Carlos. 

Terminei de escrever um livro sobre o Juvenal Lamartine - quando e se será publicado é outra história- e cheguei à conclusão. A história do nosso estadinho e teatrinho de arena da bola não se divide entre Jorginho Tavares e Alberi, ambos do ABC. 

Mas em Jorginho Tavares e Saquinho, do América e, mais ao fim, Alberi e Evaldo Pancinha, irmão de Saquinho. O JL sobrava em craques. ABC e América tiveram os últimos sobrenaturais com Sérgio Alves e Souza, há quase 20 anos. No calor monumental do Castelão(Machadão) assassinado.  

Um gol 
Sou impaciente. É a idade avançando. Não guardo, na sala de estar das emoções, o gatilho sempre pronto para a explosão dos sentimentos, eufóricos ou tristes. A impaciência é seletiva mas contundente. Agora, o América contrata um atacante que fez um gol em oito partidas e deu o passe para outro. Não posso achar legal. 

Sou filho das virtudes e coerências boleiras e a performance de lateral-direito ostentada pelo novo homem de frente rubro desanima até Carnaval em Olinda. Não se trata de perseguição, não tenho compromissos com ninguém, a não ser com a minha consciência, a Tribuna do Norte e a esperança da volta da arte no ludopédio. 

Para os novatos, é comum uma notícia que renderia a seguinte manchete: “América traz atacante que fez um gol em 2021”. Nada de negativo, tudo de verdadeiro. Artilheiro donzelo é orador. Mudo. 

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