Escravos de Jó

Publicação: 2020-03-20 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação



Não é que as palavras postas nos títulos dos partidos não representem - ou não reflitam - posições ideológicas.  Refletem. Os políticos é que não estão interessados na representação que suas siglas sinalizam. Os partidos foram tão manipulados, arrumados para bem impressionarem no significado, sem prática coerente, que hoje apenas cumprem a legislação. É preciso fazer parte de um deles, qualquer, contanto que o candidato não morra na soleira de um dos palácios.

A coisa começa lá em cima. Jair Bolsonaro não pode abrir a sua boca. Prepara-se para assumir seu nono partido. Já aquele PSL, a partir do qual ele quis ser exemplo, precisou abandonar às pressas sob pena de responder por irregularidades que disse não saber. No Senado e Câmara não é diferente, assim como ocorre em Assembleias estaduais e Câmaras municipais, as mais próximas dos eleitores e, portanto, hoje transformadas em pandemônios ideológicos.

A política brasileira, depois da coerência dos udenistas e pessedistas, escolhas da vida inteira, perderam a noção de coerência e fidelidade partidárias. Quando o tema flameja nos noticiários, fecham a porta e aprisionam os trânsfugas. Quando a onda passa, abrem uma janela e eles pulam como cabritos. O ideal da eficiência seria usar mata-burro, mas aí nem os donos dos partidos trocariam de sigla quando uma proposta mais vantajosa caísse no caroço do olho.

Como se fosse pouco - e se o Diabo não fosse de uma inteligência superior - inventaram o Fundo Partidário, rechearam de gordas verbas, tudo em nome da democracia. Como se o voto não fosse uma conquista da arte de fazer política, mas algo a ser financiado por cofres públicos ou privados, tanto faz. Daí as suas sedes muito luxuosas, com banheiras de massagem e até um helicóptero caro, afinal não é justo um político, com tantos afazeres, perder tempo no trânsito.

Apesar de todos esses excessos, tem um maior e mais descarado: essa história de que o Fundo Partidário é democrático, criado para financiar a escola do exercício democrático. Pura mentira. Financia tudo. De helicóptero a banheiras, de viagens a marketing. Menos a tão pobre democracia deste infelicitado país que hoje vive diante de uma classe política que, depois de destruir a sua própria credibilidade, insiste em não refazer as bases da representação popular.

Aos eleitores, resta assistir a políticos jogando aquele jogo dos ‘Escravos de Jó’, no bota-e-tira das siglas, mercadejando nossa própria boa fé, traficando influências, vantagens e privilégios. Voltamos às velhas calçadas da infância, agora com nossos rostos envelhecidos e caricatos, repetindo o refrão tristemente melancólico dos “guerreiros com guerreiros / fazem zigue-zigue-zá”. E eles, os cavalões, comendo. Como no triste poema de Manuel Bandeira...






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