Espalhando estupidez

Publicação: 2021-04-04 00:00:00
Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República •  Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL •  Mestre em Direito pela PUC/SP

Possuo um livro chamado “Ismos: para entender a arte” (Editora Globo, 2010), de Stephen Little. Muito legal para se conhecer alguns “ismos”, tipo o classicismo ou o surrealismo, que tanto nos encantam. Recomendo deveras!

Entretanto, pulando da arte para a política, possuo um outro livro – “Filosofia para leigos” (Alta Books Editora, 2015), de Martin Cohen, que nos adverte: “Existem muitos ismos perigosos – especialmente quando se começa a entrar na área de política. O fascismo é talvez o mais famoso. A doutrina política combina três outros ismos: nacionalismo, militarismo e totalitarismo somados. O Estado fascista suprime todos os direitos individuais nos interesses não tanto da maioria quanto da nação encapsulada por seu líder. A maior marca da doutrina veio antes da Segunda Guerra Mundial, quando Mussolini na Itália, Hitler na Alemanha, Franco na Espanha e o imperador do Japão declaram-se orgulhosamente fascistas”.

E é deste livro que eu também colho a seguinte lição sobre o poder de espalhar ódio e culpas: “Os nazistas ofereciam uma chance de odiar o inimigo no estado – um inimigo pavoroso que era, ele dizia, a causa da pobreza, do conflito e da doença; o inimigo que Hitler chamava de social-democracia. O inimigo consiste dos ‘vermelhos’, organizações sindicais, pornógrafos, deficientes, artistas transgressores e assim por diante. Era uma lista tão grande e confusa de inimigos que não surpreende o fato de Hitler ter inventado uma lista simples. Todas as coisas ruins da sociedade alemã, até do mundo, eram culpa dos ‘judeus’”.

Alguma coincidência com o Brasil de hoje, em que se tem até um tal “gabinete do ódio”?

Alguma coincidência com certo governante e sua patota de “patriotas”, que, em meio a esta terrível pandemia, insistem em não assumir suas responsabilidades, que são compartilhadas, segundo a nossa Constituição e decisão paradigmática do Supremo Tribunal Federal, com todos os entes da Federação, colocando confusamente a culpa nas costas dos seus supostos “inimigos”?

    Uma culpa indeterminada, sobre atores múltiplos, criando terrorismo e até incentivando atos de sedição. Algo conspiratório, etéreo, sem identificação precisa, mas nunca culpa Dele. A culpa é do Congresso, do STF, dos governadores, dos prefeitos, dos servidores públicos, dos novos “comunistas” e por aí vai. E pessoas boas, na onda, ingenuamente, até colocam a culpa no povo (quer algo mais indefinido?) brasileiro, que seria irremediavelmente irresponsável (e não tem cloroquina que dê jeito!). Mas não vivemos numa democracia direta. As coisas aqui não são definidas por plebiscito. Nossa democracia é indireta, dita representativa, e a responsabilidade pelo que o nosso povo faz ou deixa de fazer é dos nossos governantes. Posso dizer que a imensa maioria dos nossos homens públicos orienta seguir a Constituição e a ciência (vacinas, máscaras e o distanciamento social necessário). Mas parte perigosíssima do povo, alguns surtados, espelha ou acredita nas orientações negacionistas e até genocidas de quem presidencialmente o governa, mas que vive, repita-se, colocando culpa nos outros (os seus “judeus”, guardadas as proporções).

Por derradeiro, só mais uma observação. O livro citado, “Filosofia para leigos”, no original em inglês, chama-se “Philosophy for Dummies”. Ele faz parte de uma coleção/série – “For Dummies”, editada pela americana Wiley Publishing –, muito popular, de capa amarela e preta, que vocês devem conhecer, no original ou já traduzida. Essa série, aliás, tem uma rival, chamada “The Complete Idiot’s Guides”, da editora britânica Dorling Kindersley. Bom, dummy pode ser traduzido para o português como bobo. E idiot é idiota mesmo.

Assim, a escolha desse livro – “Philosophy for Dummies” –, para ser referido aqui, foi proposital. Afinal, devemos ser bobos ou idiotas. Só não sei se por acreditarmos nas cretinices e no ódio espalhado por alguns “ismos” ou apenas por querermos tomar a sonhada vacina.