Espectro da solidão urbana

Publicação: 2021-01-24 00:00:00
Valdivia S. Beauchamp
Sócia do IHGRN

Vê-se hoje “a cidade que não dorme”, New York, com olhos de esperança e com resiliência, no desejo de, em um futuro próximo, restabelecida a sua identidade histórica e arquitetônica, reerguida e vencida a solidão urbana - catástrofe de 2020, no continente norte-americano. Algumas vezes, as contradições, entre o que é obrigatório e o facultativo, fazem com que a vida possa se tornar um fio tênue, resultando descontentamento, inconformismo, insegurança, procura ansiosa pelo divino, pânico que podem levar ao um desatino.

Da mesma forma, o sonho dos que vem à New York é desfrutar da experiência em provar de tudo que há no planeta, que aqui parece existir. A busca dessa sensação está, também, frustrada.

São Tomás de Aquino diz: “a bondade de Deus não faz a mera transformação do indivíduo, mas sim pode influir nele, conforme a sua capacidade de percepção. E nós, seres humanos, como estamos nos comportando?

“A cidade que não dorme” sucumbe, silencia e nos colococa em grande isolamento. Daí, como era de se esperar, observa-se a reação em busca do continuar da vida, ajustando-o a uma nova realidade.

Dentro deste torvelinho de dor e expectativas, lembra-se do começo de Madri, elevada à sede do reinado, transferida de Sevilha, no século XVI. Lá encontra-se um poeta que soube cantar a dor inimaginável da mudança brusca, em consequência das vicissitudes deixadas pelos mouros na Sevilha destroçada.

LOPE DE VEGA (1562-1635) nasceu em Madri, na mesma época de sua elevação à sede do reino. Naquele tempo, observa-se sucumbir a aristocracia espanhola, (diz A. Geysse / E. Bague), entendendo-se o porquê de seus fracassos que foram muitos: numerosas guerras, êxodo rural, expulsão dos mouros, aumento incomensurável do clero, além das concessões a diversos países e, principalmente, a redução das importações dos “tesouros” da Índia, 
Situações semelhantes interligam essas duas grandes cidades, embora distantes no tempo – New York, de hoje (com seus monumentos e seu capitalismo, momentaneamente, quebrado) e Madri, da época de Carlos V e de seu Filho Felipe II (sociedade espanhola na bancarrota).

Conta a lenda que Madri, do tempo de Lope de Vega, foi sempre muito celebrada por seu teatro, com personagens reais e não como no teatro francês de Racine, cujos personagens são arquétipos, símbolos de paixão, e a atração ficando por conta do autor comissionado. Aquele dava valor à alma, os trabalhos eram mais intelectualizados.

Seu biógrafo, Montalbán, diz que o teatro de Lope de Vega era o melhor de todos os tempos: “uma prova do mais extenso e rico saber, da teologia, jurisprudência, filosofia, Belas Artes, mecânica”.

Todavia, o mais interessante da vida de Lope de Vega foi a sua atitude introspectiva, perante a tragédia de seu país e de sua própria vida, cheia de altos e baixos.

O escritor e teatrólogo, desenganado por amargura e pelo mal trato humano, escreve de dentro de seu coração a poesia “Soledades”. Seus mestres o consideravam homem recluso e sábio. Vê-se nela algo análogo à atual situação de solidão urbana, envolvendo, não só New York, mas também toda a humanidade.








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