Quadrantes
Esperança sem fim
Publicado: 00:00:00 - 19/12/2021 Atualizado: 11:54:23 - 18/12/2021
Cláudio Emerenciano 
Professor da UFRN

O homem se supera em cada momento, circunstância e desafio de sua existência. Avança, inova, amplia, descobre e renasce. Tudo na vida é um novo passo. Uma etapa que agrega e move, individual e coletivamente, a ascensão da condição humana. Há retrocessos, contradições, iniquidades, misérias, injustiças, desencantos, atos insanos de violência e estupidez. Mas essa torrente de negação do sentido da vida não inviabiliza, em tempo algum, a ascensão espiritual, cultural, ética e moral do gênero humano. Viver é nascer continuamente; renascer incontidamente. Não é a civilização que define o homem. É o homem que sedimenta o teor e o peso de uma civilização. Uma iluminação transcendental, inesgotável, renovada sem fim. É a presença de Deus entre os homens. Projeta para cada pessoa o caminho das estrelas, isto é, a visão e a perspectiva do infinito. O nascimento de Jesus Cristo foi mais um ato do amor de Deus aos homens. O Seu Filho foi ofertado como Cordeiro Pascal, isto é, imolou-Se para resgatar a condição humana. Seu Nascimento num estábulo expôs à posteridade a real, absoluta e ilimitada substância da vida: o amor. Os primeiros cristãos, martirizados em testemunho da fé, proclamavam em seus estertores: “Cristo vive e nós vivemos”.    

O Eclesiastes é imutável e irrevogável. Cabe-nos captar e entender seu sentido, atualizando-o: “Não há nada de novo abaixo do sol”. Sendo assim, o homem jamais pode renunciar ao seu atributo natural e legítimo de avaliar, questionar, buscar, desvendar e sonhar. Sobrepujar a si mesmo, como Ulisses na “Odisseia”. Em tempos de pandemia, a ciência é expressão de mais um sopro de Deus na humanidade.  

Os tempos atuais, segunda década de um século e ainda prelúdio de um novo milênio, suscitam assim novos desafios. Ostentam antigos e novos enigmas, germinam dúvidas e ansiedades, que semeiam incertezas e perplexidades. As respostas, paradoxalmente, procedem muito mais dos sentimentos do que da razão. Emergem  muito mais da alma e dos corações dos homens do que da aquisição de coisas materiais. Resultam predominantemente de valores do que de status social. Aprimoram-se no ato de partilhar e, de modo algum, na volúpia em ter e conquistar. Fundamentam-se na solidariedade, em atitudes e laços sem submissão a bens e riquezas. Não estamos enveredando num novo regresso. Não voltemos ao passado, que se perdeu. Mas ao passado que vivifica o presente para apontar e entrever os caminhos de sublimação da condição humana. O gênio de Goethe vislumbrou, no último momento de sua vida, a dimensão da identidade entre Deus e os homens, entre a origem e a destinação da humanidade. Proclamou que toda e qualquer solução para os conflitos e antagonismos à vida humana revela a supremacia da luz sobre as trevas, da luminosidade sobre a escuridão, da vida sobre a morte, da paz sobre a guerra, do amor sobre egoísmos, da fraternidade às violências. Essa consciência ensejaria melhor utilização das inovações científicas e tecnológicas. Sedimentaria na humanidade, irreversivelmente, o verdadeiro discernimento dos desafios existenciais: o primado da lucidez e da serenidade.
 Thomas Merton, muito jovem, renunciou à fortuna, ao luxo, à notoriedade e às paixões do mundo. Misto de pensador e homem de fé, escritor admirável, depois frade trapista. Em “Amor e Vida” relembrou à humanidade que Jesus Cristo dimensionou o papel da verdade para o homem: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”. Caminho, verdade e vida se integram, misturam-se, completam-se. Confundem-se com o sentido da Criação. São um amálgama perfeito, indestrutível, inexcedível e insuperável. O medo, a ansiedade e a insegurança dos nossos dias refletem ausência ou abdicação de ações e valores, que emanam da original substância da vida. Os homens podem e devem identificar dentro de si mesmos o que os torna grandes, intemporais, criadores e permanentes. Em todos os lugares do mundo, nas cidades cosmopolitas ou nas aldeias mais esquecidas e perdidas de todos os continentes, o gênero humano reclama restauração de valores éticos e morais que o dignifiquem incessantemente. Há milênios atrás, na Atenas do helenismo, Péricles, em discurso monumental, que chegou até nós, disse que o reconhecimento aos que engrandecem a coletividade não é um direito, é um dever. Dever de gratidão, mas essencialmente mister de dar continuidade às aspirações da alma coletiva, pelas crenças que se irradiam dessas atitudes e desses exemplos. André Malraux, na oração fúnebre de Charles de Gaulle, intitulada “Quando os carvalhos se abatem”, disse que a civilização se perpetua por atitudes e sonhos de pessoas incomuns, cujas vidas inspiram o caminhar das novas gerações. Essas reflexões foram precedidas, anos antes, em dois romances geniais: “A condição humana” e “A Esperança”. O primeiro transcorre em ambiente de degradantes misérias e injustiças no Vietnã sob domínio colonial da França. O outro em cerco da cidade de Toledo, na Guerra Civil espanhola (1936/39); mergulha em motivações, ansiedades, angústias e  esperanças dos combatentes, especialmente dos republicanos, que defendiam, brava e estoicamente, aquela cidade histórica, milenar e patrimônio da civilização. Passado e presente não se contrapõem. No âmbito cultural, estritamente antropológico, vinculam-se um ao outro. Convertem o passado num legado vigoroso de sonhos, ideais, hábitos, costumes, experiências, tradições e instituições. É uma vertente que transpõe circunstâncias e tempos em amplitude planetária. É o rumar da humanidade. Incertezas, perplexidades, desânimos, temores, inseguranças e decepções, que se alastram mundo afora, são circunstanciais, efêmeros, fugazes e insusceptíveis de lastrear hábitos, costumes e tradições. Pelo contrário. Deverão esgarçar-se como folhas mortas sacudidas pelo vento. É o epicentro de mais uma crise que, de tempos em tempos, assola a humanidade. Mas nada extingue a substância e o sentido da vida.

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