Espuma contra as varizes

Publicação: 2017-03-19 00:00:00 | Comentários: 0
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Isaac Ribeiro
Repórter

Varizes são veias dilatadas que não cumprem mais a função de transportar o sangue das pernas para o coração. Essa dilatação compromete o funcionamento das válvulas e o sangue acaba se acumulando, gerando inchaço, dores e desconforto generalizado, podendo inclusive comprometer as atividades diárias. São grandes as filas de pessoas esperando uma cirurgia nos hospitais públicos — conquista nem tão fácil assim... Afinal, a situação caótica desses estabelecimentos de saúde é de conhecimento de todos.

Com o objetivo de diminuir a espera nas filas, o Ministério da Saúde aprovou, no início deste ano, a incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS) da escleroterapia com espuma, técnica usada em casos graves de má vascularização e de feridas causadas por úlceras varicosas, inclusive com risco de amputação.
Técnica da escleroterapia com espuma passa a ser incorporada ao SUS com o objetivo de diminuir filas nos hospitais públicos
Um dos pioneiros da aplicação da escleroterapia no Brasil através do SUS é o cirurgião e angiologista baiano Marcelo Ruettimann, que ao perceber as filas para cirurgia de varizes aumentando ano após ano, decidiu utilizar essa técnica, consolidada há mais de 15 anos, a título de pesquisa. Os resultados foram surpreendentes e a viabilidade, atestada. Foi então que a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias do SUS (Conitec) aprovou a incorporação do procedimento.

Atualmente em Natal, as cirurgias ocorrem no Hospital Universitário Onofre Lopes que,  apesar de registrar filas, realiza apenas um procedimento por semana, como informa o angiologista Edison Bareto. Segundo ele, a Sociedade Brasileira de Angiologia já recomenda o procedimento, mas ainda faltam serem acertados alguns direcionamentos.

Questão cultural e estética


O angiologista Edison Barreto explica ser a escleroterapia uma técnica antiga, mas que tem sido aperfeiçoada nos últimos anos e alvo de debates ao redor do mundo, a respeito de seu uso e suas indicações. Diferente dos Estados Unidos e da Europa, a técnica demorou a ser amplamente usada por questões estéticas, segundo o médico, já que há o risco da aplicação da espuma deixar a pele manchada no local.

“Como não há uma facilidade de fazer cirurgia de varizes nesse tipo de população, essa espuma entrou como alternativa, e fecha realmente a ferida e tira essas veias maiores, colocando o paciente a voltar às suas atividades sociais. Muitas vezes eles ficam sem trabalhar, isolados, por causa daquelas feridas; ficam com as pernas enfaixadas por causa dessas veias calibrosas”, comenta Edison Barreto.

Ele explica que o método da espuma consiste em misturar uma substância chamada polidocanol; que tem a ação de inflamar a veia; com ar atmosférico em duas seringas, ou através de uma pequena torneira, e forma uma espuma parecida com as do tipo de barbear, e a injeta dentro da veia, guiada por um aparelho de ultra-som.  A veia é punçada e o procedimento executado.

Mas o leitor pode questionar: mas essa veia não vai fazer falta? O angiologista explica que não, pois ela já está doente e o sangue não circula mais de forma plena pelo seu interior. É justamente para retirar essa veia doente que a escleroterapia é indicada. Porém, o médico que para tratar esteticamente as micro-varizes é preciso ter cautela, pois há o risco de manchar a pele. O angiologista esclarece ainda ser a escleroterapia com espuma é um procedimento que pode ser feito várias vezes. “Essa doença é crônica; sempre vão aparecer outros vasos”, diz Edison Barreto.

Realização de cirurgia precisa de acertos


A Sociedade Brasileira de Angiologia já recomendou aos profissionais de suas representações regionais a usarem o método da escleroterapia com espuma em pacientes graves de doenças varicosas, porém ainda não definiu alguns critérios de aplicação.

De acordo com o angiologista Edison Barreto, membro da SBA/RN, para a realização do procedimento são necessários profissionais capacitados e local adequado. Apesar de requerer menos do que a cirurgia convencional de varizes, alguns detalhes precisam ser acertados. O certo é que a técnica veio para diminuir as filas nos hospitais públicos, de pessoas que esperam uma vaga para fazer se submeter à operação.

“Não precisa de uma sala cirúrgica para a escleroterapia. Você precisa de um ambulatório, um aparelho de ultra-som e do material. Então, em um dia você pode fazer dez, vinte procedimentos. Se você estava fazendo um por semana, fazendo isso por dia, imagine só como essa fila iria andar”, comenta Edison Barreto.

Com tantos pontos positivos assim é de se questionar por que essa técnica não tinha sido usada até hoje. De acordo com o angiologista, foi porque surgiu justamente essa necessidade de como resolver essa questão dos pacientes do SUS, pois a fila não estava andando. Foi então que cirurgiões vasculares em Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro começaram a fazer espuma nesses pacientes, não como um estudo experimental, mas para comprovar se havia viabilidade ou não.

“Não se usava essa espuma no Brasil por questões puramente culturais e climáticas. As mulheres daqui gostam de exibir as pernas, de ter uma perna bonita, e diferente de países frios, com na Europa, há o risco de manchar a perna”, comenta Edison Barreto. “Por isso que não divulgávamos tanto essa técnica para tratar as varizes. Mas nessa população do SUS, que já tem realmente um grau mais avançado da doença, com manchas na pele, inchaço, aquelas veias grossas, ela surgiu como boa alternativa”.


Entrevista: Profº Raimundo Nonato Nunes


Há mais de 15 anos o professor do Departamento de Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Raimundo Nonato Nunes, vem transformando a vida de muitas pessoas através dos benefícios proporcionados pela técnica da 'caminágua' — caminhada na água — que desenvolve na piscina do Campus da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Além de restabelecer pessoas com sequelas motoras, causadas por males como acidente vascular cerebral, entre outras doenças graves e colisões automobilísticas.

Outra aplicação da técnica desenvolvida por Raimundo Nonato é a diminuição e até desaparecimento total de varizes.  Ele já presenciou caso de aluno que em duas semanas teve suas veias doentes extintas.    

“Nós abrimos nosso atendimento a todo e qualquer cidadão que queira se submeter à nossa atividade, já que é uma instituição pública. Para participar, pode ligar para o meu telefone particular, o 99406 4620”, avisa professor. Confira alguns trechos da entrevista concedida por Raimundo Nonato à TN Família. 

O que a técnica da “caminhágua” proporciona no combate às varizes?

Essa atividade promove uma neo-vascularização e esses novos espaços a serem ocupados pelo sangue faz com que o calibre, às vezes, diminua. Há dois fenômenos físicos: a pressão hidrostática e o empuxo. Com isso, o sangue retorna com mais facilidade ao coração, promove, no caso, a queda da pressão arterial; e é um alívio para o coração, pois ele trabalha menos para ter esse sangue de volta. Mas na verdade, você promove uma longevidade maior ao coração e uma resistência maior à atividade física. Sem falar da questão da refrigeração; você tem o seu organismo refrigerado e assim ele rende mais.

A região afetada pelas varizes  também é revascularizada pela atividade?

Exatamente. Não somente a região afetada mas também todo o corpo. E com isso, nós temos essa queda da pressão arterial abrupta. Você termina a atividade, passa uns trinta minutos, por exemplo, você vai aferir a pressão e ela voltou ao normal. Porque você promoveu essa neo-vascularização, essa ocupação de espaço, que não acontecia antes.

E quanto tempo é necessário para retirar ou diminuir varizes através da técnica?

Eu tenho agora um fato, um documento, são fotografias, de um rapaz que em vinte dias a pressão arterial dele passou de 18/10 para 13/8. Desceram as duas marcas; a sistólica e a diastólica. Isso tudo a partir dessa atividade na água.    

O que mais a 'caminágua' proporciona ao organismo?

Ela promove uma obstrução a todo e qualquer evento vascular. O que aconteceria se ele não estivesse fazendo a atividade, em fazendo você se afasta e muito da possibilidade de ter um evento cardiovascular; uma trombose, um infarte — o que é um ganho de saúde e de longevidade.

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