Esquerda governa o RN mas o seu voto não aparece em Natal

Publicação: 2020-10-14 00:00:00
Cassiano Arruda Câmara 

Onde andam as esquerdas natalenses nessa campanha municipal, que pouco aparecem nas ruas, assim como nas pesquisas de intenção de voto?
Fica parecendo que, depois de cada um esquerdista ter conseguido uma giroflex (estadual, federal ou municipal) para chamar de sua, eles perderam o interesse pela mobilizações, sobretudo com a desculpa da pandemia e com a proibição das aglomerações sugerida pelo comitê científico.

Antes de conquistaram o poder, e isso já faz mais de 15 anos, quando a legenda do Partido dos Trabalhadores era suficiente para representar todas tendências de esquerda em Natal, o partido mostrava sua força por uma extraordinária capacidade de mobilização, muito maior do que a própria estrutura partidária.

Tendo, na presente campanha, um candidato que não tem história na base partidária, e chegou de para-quedas como candidato a Suplente de Senador, tomando o lugar de dezenas de companheiros que se achavam merecedores pela história partidária de receberem uma homenagem como suplente da companheira Fátima. A adoção do nome político de Jean, parece visar justamente um tardio entrosamento com essa companheirada...

FORA DA PESQUISA
Quem se der ao trabalho de consultar antigas pesquisas aplicadas em Natal depois da redemocratização, vai constatar que as esquerdas (todas representadas pelo PT) nos anos ‘1980/1990’, vai comprovar, que antes mesmo de ter definido o seu candidato, o “candidato do PT”, sem nome, tinha dois dígitos, e em alguma oportunidade com mais de 20%.

Agora o “senador Jean”, já lançado e com presença diária na mídia, escolhido pelo PT (que também é a legenda mais poderosa do RN – “o partido do governo”), somou apenas 2% de intenção de voto na primeira pesquisa do IBOPE (escolhido por ser o maior do Brasil).

Com a segunda maior participação no chamado fundo partidário, o PT não conseguiu surpreender, ao contrário do que sempre acontecia nos bons tempos do amadorismo voluntário. Não que a comunicação do senador Jean, não seja correta. Correta e dentro do mesmo padrão adotado pela maioria.

JUNTAR AS ESQUERDAS
Afinal, que esquerda é essa?
Para efeito numérico, vamos destacar cinco dos 16 candidatos a Prefeito de Natal (por intenção de voto): 1- Carlos Alberto, PV, 4%; 2 – Fernando Freitas, PC do B, 2%; 3 - Jean Paul Prates, PT ,2%; 4  -Rosália Fernandes, PSTU, 1%; e 5 – Nevinha Valentim, PSOL, 0.
Somando as intenções de voto, os cinco candidatos (na verdade, oito, porque o PSOL, adota a possibilidade do mandato colegiado que a Constituição permite) , com o nome de Nevinha aparecendo na chapa, mas com compromisso ser exercido por quatro, não chega a dois dígitos.

A soma da intenção dos votos de todos chega a 9%.

Só os três primeiros lugares da direita: 1 - Álvaro Dias, PSDB, 33%; 2 - Kelps Lima, Solidariedade, 12%; e 3 – Hermano Morais, PSB, 6%, totalizam o bastante para decidir o pleito; 51%. - E o número do “não sabe”, é de 23%.

Essa campanha – e esses números – não podem representar a esquerda de Natal.

HISTÓRIA ANTIGA
A ligação de Natal com a esquerda vem de longe. Começa que esta foi a primeira cidade das Américas a ter um governo comunista, em 1935, com a vitória da chamada Intentona, que durou três dias, até a chegada das tropas governistas vindas de Pernambuco.

Com o fim da Ditadura Vargas, em 1945, na primeira eleição para Presidente da República – disputada pelo general Eurico Gaspar Dutra, do PSD, e pelo brigadeiro Eduardo Gomes, da UDN, o vitorioso em Natal foi Yedo Fiuza, candidato pelo Partido Comunista. Única capital onde o candidato comunista foi o mais votado.

Mas entre as lideranças locais, são pouco os líderes identificadas com a esquerda. O primeiro deles, Café Filho, que chegou a Presidência da República, fez um governo udenista, liberal de direita). O outro foi Djalma Maranhão, deposto em 1964 e exilado no Uruguai, onde morreu.

NOVA ESQUERDA
No Governo do Estado, tem o único nome egresso da esquerda eleito para o Governo: é a professora Fátima Bezerra, nascida politicamente no Partido dos Trabalhadores, atuando como sindicalista e depois deputada estadual, deputada federal e senadora.

Com a onda da “nova política”, preferencialmente de direita, que varreu o Brasil,  o RN foi buscar uma política de esquerda, com mais de 40 anos de atuação partidária e inúmeros mandatos para lhe entregar o governo.

Sem esquecer que, nessa eleição, que consagrou Fátima os antigos líderes locais foram vítimas de “fadiga de material”. Mas a Fátima da “nova política” não conseguiu eleger uma representação legislativa de expressão para ajudá-la. O preço da sua vitória nos grotões, foi exatamente esse. O respeito ao voto das chefias municipais.

De qualquer forma é difícil argumentar que houve uma tendência de voto de esquerda. Naquela mesma eleição Bolsonaro foi o mais votado em Natal no primeiro e no segundo turno.

No primeiro turno, Bolsonaro teve 44.42% dos votos, contra 23.57% de Ciro Gomes e 22.81.% de Fernando Hadad. E no segundo turno, Bolsonaro venceu Haddad em Natal de 52.98% a 47.02%.

E para terminar: em Natal, no segundo turno, Carlos Eduardo Alves venceu Fátima Bezerra, de goleada: 60.76% a 39.24.












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