Essa força chamada Elza

Publicação: 2019-01-08 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

“Não vai me fazer um musical triste. Tem que ter alegria”, este foi o único pedido de Elza Soares para Vinícius Calderoni, autor da dramaturgia do musical “Elza” - um dos espetáculos mais elogiados de 2018. Embora a cantora realmente tenha uma trajetória de vida marcada por algumas tragédias, como a morte dos filhos e de Garrincha, a violência doméstica e a intolerância, o que mais impressiona em sua biografia é a sua força absurda de viver. E Vinícius destaca justamente isso no musical que o público potiguar vai poder conferir neste fim de semana no Teatro Riachuelo. Serão duas sessões, uma no sábado (13), às 21h, e outra no domingo (14), às 20h.

Elza Soares em sete versões: Larissa Luz Janamô, Júlia Tizumba, Késia Estácio, Laís Lacorte, Verônica Bonfim e a potiguar Khrystal.
Elza Soares em sete versões: Larissa Luz Janamô, Júlia Tizumba, Késia Estácio, Laís Lacorte, Verônica Bonfim e a potiguar Khrystal.

Dirigido por Duda Maia e com produção da Sarau Agência – dos premiados espetáculos “Suassuna – O Auto do Reino do Sol”, “Auê” e “Gota D’Água [a seco]” – o musical mostra a trajetória de reviravoltas e renascimentos de Elza Soares a partir de sete atrizes-cantoras. São elas Larissa Luz Janamô, Júlia Tizumba, Késia Estácio, Laís Lacorte, Verônica Bonfim e a potiguar Khrystal. Elas se dividem na missão de retratar as mais diversas fases de Elza, interpretando também outros personagens, como familiares e amigos da cantora, além de personalidades marcantes, como Ary Barroso (1903-1964), apresentador do programa onde se apresentou pela primeira vez, e Garrincha (1933-1983), que protagonizou com ela um dos mais famosos casos de amor da época.

A estrutura do espetáculo foge do formato convencional das biografias musicais. As várias fases e facetas da artista são mostradas de modo não cronológico. Da mesma maneira acontece com a trilha sonora, com músicas recentes, como “A Mulher do Fim do Mundo”, “A Carne” e “Maria da Vila Matilde”, embaralhadas com clássicos das mais de seis décadas de carreira da cantora, como “Se Acaso Você Chegasse”, “Lama”, “Malandro”, “Lata D’Água” e “Cadeira Vazia”. Algumas dessas canções ganharam arranjos novos pelo maestro Letieres Leite.

Segundo Vinícius Calderoni, para escrever a dramaturgia, ele leu e assistiu inúmeras entrevistas que a cantora concedeu ao longo da vida e também pesquisou a obra de pensadoras negras, como Angela Davis e Conceição Evaristo, cujos fragmentos de textos aparecem na peça. A dramaturgia ainda contou com importante colaboração do elenco, principalmente no que concerne a experiência de ser uma mulher negra, já que todas são negras.

“Elza” estreou em julho do ano passado. A montagem veio num momento em que a cantora vive uma de suas melhores fases da carreira – alavancada nos últimos anos pelos lançamentos dos discos "A Mulher do Fim do Mundo" (2015) e "Deus é mulher" (2018), que não somente ampliou o público da artista, como mais uma vez conquistou a crítica especializada.

O espetáculo chega à Natal depois de concorridas temporadas no Rio e em São Paulo. Mas além de sucesso de público, a peça também vem agradando a crítica. É o que mostra as indicações nos mais importantes prêmios do teatro nacional, como o Shell, na categoria Melhor Música (Pedro Luis, Larissa Luz e Antônia Adnet), e no Cesgranrio, nas categorias Melhor Figurino, Melhor Iluminação, Melhor Direção, Melhor Direção Musical e Melhor Espetáculo. Antes “Elza” já havia sido o grande destaque do Prêmio Reverência, ao sair consagrado em quatro categorias, e do Prêmio APCA, com o troféu de Melhor Dramaturgia.

Khrystal
A cantora natalense entrou no elenco depois após uma bateria de testes, assim como as outras atrizes, com exceção de Larissa Luz, que foi convidada. A potiguar tem aprendido muito com a experiência teatral. Mas esta não é a primeira vez que ela sobe no palco para encenar. Quando mais jovem fez teatro com os colegas João Júnior, Quitéria Kelly e João Marcelino. E em 2014, estreou no cinema com o filme "A Luneta do Tempo", de Alceu Valença, que rendeu uma indicação ao prêmio de melhor atriz coadjuvante no Festival de Cinema de Gramado.

Vivendo no Rio de Janeiro por causa do espetáculo, Khrystal retorna à Natal animada para mostrar ao público potiguar sua faceta de atriz. “A expectativa com essa apresentação é a melhor possível. Estou feliz que os conterrâneos vão poder conferir o espetáculo”, comenta. Neste rápido bate papo, a cantora atriz (atriz cantora) natalense fala de como tem sido participar desse projeto.

Khrystal, cantora e atriz
Khrystal, cantora e atriz

Bate-papo: Khrystal

Como tem sido a experiência com o espetáculo?
Tem sido muito bom. É um pouco diferente da vida na música. O teatro é um mundo muito lindo e regrado. Ensina muita coisa, como a disciplina. Se não tem, não aguenta fazer. É puxado.

Como foi a temporada no Rio?
Fizemos a primeira temporada por três meses, depois voltamos em dezembro. O povo do Rio gosta de teatro e gosta da nossa peça, o que me deixa muito feliz. Muitas noites marcantes, mas destacaria a noite que Caetano foi ver e foi até o camarim nos cumprimentar, um sonho. Ver Paulo José na plateia também foi especial. Marieta Severo, Marco Nanini. Tanta gente que eu admiro foi ver. Sempre é uma emoção. O Rio é a casa do Elza.

No que você mais se identifica na trajetória de vida de Elza?
Elza é de luta e resistência. Eu também.

Que outras artistas brasileiras você acredita que poderiam render um bom espetáculo?
Cátia de França, Áurea Martins, Alaíde Costa. São grandes mulheres e com grandes histórias de vida.

Quais outros projetos você tem pela frente? Pretende, de repente, se dedicar mais ao teatro? Há algum disco novo previsto para breve?
Paralelo à peça estou trabalhando um novo lançamento. O teatro me abriu mais um leque, me realizo muito como atriz. Tentarei conciliar esses dois mundos.

Serviço
Espetáculo “Elza – O Musical”

Dia 12, às 21h, e 13, às 20h

Teatro Riachuelo

Ingressos: R$ 70 (inteira) e R$ 35 (meia).


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