Essa solidão que nos protege

Publicação: 2020-03-22 00:00:00
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Lívio Oliveira
Advogado Público e Escritor
livioalvesoliveira@gmail.com

É domingo. Vivo mais um preguiçoso e quente domingo natalense. Provo um pouco do café que começa a esfriar por esquecimento numa mesinha ao lado. Manuseio lenta e distraidamente um livro, um bloco de cartões postais da Taschen estampando obras de Edward Hopper. Ouço canções de Nick Drake no computador – um vídeo de cinquenta e tantos minutos no YouTube, com um veleiro balançando em movimentos pendulares exposto aos sopros dos ventos e sobre as ondas do mar.

Meu cenário é esse aí. O do domingo lento e cheio de mormaço letárgico. Não fui à missa dominical. Nem sei se houve. Talvez pela TV. A verdade é que quase nunca vou. Prefiro rezar sozinho, como faço agora, diante dessas imagens e sons que reforçam e aprovam a minha solidão, às vezes voluntária, às vezes não. Às vezes difícil e dura. Nem sempre, porém. A solidão pode ser solidária. A solidão é, sim, necessária e quase sempre urgente. Construir um ser com seus contornos é um esforço que vale a pena realizar. É a solidão que permite. Vale a pena fazer silêncio ao redor. Ao redor do ser que somos. Só assim o ser se encontra, mesmo que se desencontre de si logo ao primeiro instante com o outro.

Não afirmarei, como poderia fazer Sartre: “L’enfer c’est les autres”. Muitas explicações teria a dar, neste século XXI, sobre essa frase existencialista do século antecessor. Talvez o próprio Sartre se cansasse, se hoje vivesse, não somente de explicar sua frase, como de estar constantemente cercado (como estou e estamos) do outro por todos os lados. Transbordando. Inundando tudo. Um outro que nos invade sem licença e sem avisos, através de suas presenças física, psicológica, tecnológica. Um outro que aparece em carne e osso, ainda que não chamado, ou na tela de um miserável aparelho comunicativo de mão. E somos testemunhas e cúmplices dessa invasão a nós mesmos – nem adianta negar – escancarados, violados.

Só que hoje não. Neste domingo de estranhos calores e calafrios contrastantes, decido que ficarei o dia todo impermeável, intocável, inatingível. Vou me trancar em mim, neste apartamento-bunker, quase como naquela canção lacrimosa de Ronnie Von.

Acontece que estou dizendo isso e sigo pensando sobre as pinturas de Hopper. Umas outras imagens vão surgindo na mente. Vejo os personagens do artista americano sacando celulares e deles fazendo uso enquanto observam horizontes através das grandes janelas abertas, ou enquanto bebem seus cafés ou cervejas em meio às noites melancólicas e aos lusco-fuscos e ocasos das grandes cidades.

Fecho o livrinho, sobressaltado, incomodado com o nonsense criado pela imaginação atordoante e traiçoeira. Permaneço sorvendo o meu café já frio, até sobrar apenas uma linha escura no fundo da xícara transparente que desço até um porta-copos de madeira carcomida pelo tempo. Percebo, então, que ele – o tempo – passou. Ao menos uma porção das horas passou, como se eu tivesse mastigado um queijo macio e branco, largando marcas dos meus dentes e da minha melancolia. Sem arrependimentos por estar sozinho em mais uma ou muitas empreitadas, naquelas tarefas hercúleas que se me apresentam, independentemente de ter ou não cumprido todas as anteriores.

Também me vem a certeza, nessa minha solidão, de que vivemos uma transformação radical e violenta de todos os signos e paradigmas. Nada daquilo que foi pensado até o meio-dia de hoje ficará incólume às transformações. Tudo será reinventado.

Após mais uma crise da humanidade, depois dos espasmos, surgirá toda uma gama de novos pensamentos, pensadores e realidades inimagináveis. Isso não significa necessariamente que somente teremos que acelerar tecnologias, mas que precisaremos refletir sobre, por exemplo, o fato de a poluição na China ter sido reduzida nesses dias, as águas dos canais de Veneza estarem ficando novamente cristalinas e já aparecerem ali golfinhos e cisnes.

Ah, essas novidades que chegam e que virão em grande quantidade, como uma onda de Hokusai! Ah! Aquelas imagens maravilhosas de Hopper! Ah, essas canções de Drake abrandando dores do corpo e da alma! Ah, essa solidão abençoada, que me traz de volta, reencontrado comigo! Assim prossigo... Vou tateando e vou vivendo um dia após o outro, agora sem ansiedade porque toda ansiedade é inútil. E sigo, mesmo que ilhado, mas com esperança.

Levo as mãos até a face e ponho os indicadores massageando as têmporas. Penso que quando tudo isso passar sentiremos uma vontade louca de abraçar forte e continuamente, não só os amigos, amores, entes queridos, mas os nossos verdadeiros sonhos, até então largados ou desvalorizados, os nossos desejos que tropeçaram e não chegaram até a realização, que foram subestimados ou reprimidos. O certo é que, como cantaria Mercedes Sosa...“todo cambia”.


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