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Quadrantes
Estado de espírito
Publicado: 00:00:00 - 29/05/2022 Atualizado: 14:32:34 - 28/05/2022
Cláudio Emerenciano
[Professor da UFRN]

A crise do Brasil vem deteriorando incontrolavelmente a confiança nos políticos e em instituições. Eis uma afirmação óbvia e inquestionável. As reflexões a seguir emergem de crenças e ideais. É possível reanimar esperanças? É a nossa missão, modesto e simples professor de província. Não nos esqueçamos do desespero dos 12 milhões de desempregados. Também dos jovens desiludidos. Esperemos pelo melhor...

Há líderes que revelam e encarnam sentimentos nacionais. Expressam um estado de espírito comum a um povo, nações e até a uma civilização. Ou ainda mais: interpretam, durante algum tempo, em circunstâncias excepcionais, o clamor e as esperanças do gênero humano. Foi o caso de Winston Churchill. Valores, crenças, ideais e sonhos da chamada civilização ocidental se preservaram, em determinado lapso de tempo, graças à sua imbatível e insuperável resistência ao nazifascismo. Ninguém como ele personificou na História, em circunstâncias tão dramáticas, incertas e imprevisíveis, a consciência da humanidade. Instante de sofrimento, dor, desânimo, angústia, medo e tragédia. O mundo sucumbia ante uma escalada sem precedentes de ódio, desumanidade, violência e bestialidade, agora reproduzida pela Rússia na Ucrânia. O Direito parecia ceder lugar à força e à truculência. Em linguagem popular: “ladeira abaixo”. Era quase impossível divisar a perspectiva de justiça, paz e amor entre homens e povos. Lamenta-se que os jovens, hoje em dia, na escola, não adquiram plena consciência do que aconteceu ou do que poderia ter acontecido na Segunda Guerra. Também seus desdobramentos. Registro, para exemplificar, dois episódios. Churchill, no ostracismo, denunciou Hitler e o nazismo desde 1934. Voz solitária e premonitória, que somente foi considerada após a invasão da Polônia em setembro de 1939. Escolhido Primeiro-Ministro, constituiu um gabinete de guerra integrado também pela oposição. E à nação resumiu seu intento: “Eu nada tenho a oferecer, senão sangue, trabalho, suor e lágrimas...”. A Inglaterra era bombardeada sem cessar pela Força Aérea Alemã. Impiedosamente. Os pilotos ingleses lutaram bravamente e venceram o que se chamou “Batalha da Inglaterra”. Churchill (também o maior fraseador do século XX), emocionado, revelou ao mundo a gratidão do seu povo: “Nunca, na História dos conflitos humanos, tantos deveram tanto a tão poucos”. Churchill e De Gaulle foram personagens decisivos na resistência a Hitler e ao nazismo. Volto ao assunto. É pena que as novas gerações, por insuficiência de informações históricas no ensino médio, não possuam uma visão lúcida, correta, isenta da dimensão da Guerra (de 1939 a 1945). E, sobretudo, o real significado da vitória dos Aliados. Essas consequências motivaram o pensador alemão Karl Manheim no magnífico “Diagnóstico do nosso tempo”. Também o padre Teilhard de Chardin no genial “O futuro do homem”, Alvin Toffler no impactante “O choque do futuro” e Pitrim Sorokin no revelador “Tendências Básicas da nossa época”. Anteciparam-se às surpreendentes transformações científicas, tecnológicas e psicossociais que moldaram e ainda condicionam o século XXI. Apesar de tudo...    

 André Maurois, durante a Guerra, exilado nos Estados Unidos, escreveu “Tragédia na França”, descrevendo a queda do país ante as tropas alemãs. Desvendou as causas da fragilidade moral e cívica que abatera sua nação. Apresentou os originais a Antoine de Saint-Exupéry. O autor de “Voo Noturno”, gênio também em sensibilidade, leu e observou que o texto exaltava o estado de espírito da verdadeira França, eterna e fiel. Expunha sonhos, esperanças e amarguras que tornam um homem parte indissociável do espírito nacional. Na conversa se reportou a Chateaubriand, que, no séc. XIX, visitara a América, revelando suas impressões em texto magistral: “As noites nos desertos do Novo Mundo”. Decantando a natureza em pleno esplendor. Exortando os homens a permitirem que a beleza da vida ingresse em suas almas, “pois o verde dos campos, o colorido das flores, o cântico dos pássaros, as aves voando nos céus, a placidez dos rios, as arvores agitadas pelo vento, animam e inspiram o estado de espírito”. Exupéry concluiu: “É assim que nos tornamos o homem de uma pátria, de um ofício, de uma civilização e até de uma religião”. Pois o homem tem dentro de si um universo de sonhos e sentimentos com os quais se alça à eternidade. A fé mantém permanentemente ativo e ascendente tudo aquilo que lhe dá grandeza. A condição humana restaura por si mesma a dignidade de cada um. Assim se aprimora a vocação espiritual do homem. Por isso se convencionou a premissa de que a crise de hoje deflagra, irremediavelmente, reconquistas e recuperações nos dias de amanhã. Será? Esse movimento pendular da História foi proclamado por dois grandes pensadores italianos:  Norberto Bobbio e Umberto Eco. Os governantes nessa conjuntura, em que predominam ações predatórias no âmbito da política, da economia, da ética, da moral e da comunicação social, sobretudo via redes sociais e televisão, são incapazes de sofrear e erradicar a violência e o terror globais. Mundo órfão de estadistas. Infelizmente.

Há uma dúvida sobre o significado histórico dos tempos atuais. Estamos no crepúsculo de uma era? Enveredamos no limiar de uma nova postura da humanidade? De sua própria existência? Somente os laços humanos, planetariamente, darão resposta.

Não se permita, em face da erosão moral e política, que a amargura e o desencanto contaminem irreversivelmente o estado de espírito nacional. Contemplemos o povo e a natureza no Brasil. Pois – dizia o mestre Cascudo – a gente brasileira é uma dádiva de Deus. Porque sobrevivem, relutantemente, amor, paz e esperança em cada um. 

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