Estado não sabe paradeiro de presos

Publicação: 2017-11-01 20:41:00 | Comentários: 0
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Ricardo Araújo
Repórter


“A cada dia, eu morro um pouquinho. A angústia, a espera, a incerteza me matam lentamente”. Desde o dia 14 de janeiro de 2017, os dias da família do autor da frase que introduz esta reportagem, o aposentado Francisco Luiz da Silva, de 64 anos, ganharam o acinzentado tom da incerteza. O sinal sonoro da campainha do telefone mistura, em suas ondas, esperança e medo. Desde a rebelião que destruiu o Complexo Prisional de Alcaçuz, em Nísia Floresta, e chacinou oficialmente 26 presos, Guilherme Ely Figueiredo da Silva, de 36 anos, filho de Francisco, está desaparecido.

Francisco Luiz não sabe onde o filho foi parar após  rebeliões em Alcaçuz
Francisco Luiz não sabe onde o filho foi parar após rebeliões em Alcaçuz

O detento cumpria pena por tráfico de drogas no Pavilhão 4 da Penitenciária Estadual Dr. Francisco Nogueira Fernandes, popularmente chamada de Alcaçuz. Passados quase 10 meses da rebelião que levou a crítica situação do Sistema Prisional do Rio Grande do Norte ao conhecimento global, ninguém sabe, nem mesmo o Governo do Estado, onde foi para Guilherme Ely Figueiredo da Silva. Ele, porém, não é o único. Pelo menos outros noves presos estão na mesma situação e, até hoje, a Secretaria de Estado da Justiça e da Cidadania (Sejuc/RN), não deu satisfação às respectivas famílias.

De acordo com depoimentos de familiares que pediram sigilo da identidade, temendo represálias por parte da própria Sejuc/RN, não está disposto nenhum registro de entrada dos presos sumidos em outras penitenciárias, hospitais das redes pública ou privada, nem mesmo no Instituto Técnico de Perícia (Itep/RN). Eles também não constam nas listas de presos foragidos ou mortos na rebelião iniciada em 14 de janeiro e terminada quase duas semanas depois.

Aos familiares restou uma espera que parece não ter fim. “É uma busca desesperadora. Comparo o caso do meu filho com o de Eliza Samúdio, com o de Ulysses Guimarães, cujos corpos jamais apareceram. Ninguém sabe onde eles estão. Não tenho mais a quem recorrer. Estou esperando o Juízo Final.", disse o aposentado Francisco Luiz da Silva. O último contato entre pai e filho ocorreu 48 horas antes da rebelião. “Ele me ligou de um celular de outro presos e disse que estava tudo bem, que tinha recebido a feira. Foi a última vez que ouvi sua voz”, relembra.

Documentos da Sejuc comprovam que Guilherme Ely não está em nenhuma das listas oficiais da pasta
Documentos da Sejuc comprovam que Guilherme Ely não está em nenhuma das listas oficiais da pasta

O paradeiro de Guilherme Ely é desconhecida pela Secretaria de Estado da Justiça e da Cidadania (Sejuc), responsável pela administração das prisões potiguares. “Nós não sabemos onde ele está”, limitou-se a dizer o titular da pasta, Luiz Mauro Albuquerque Araújo. “A angústia da incerteza do paradeiro dele me mata todos os dias, aos poucos. O Estado tem que dizer onde está meu filho. Ele não evaporou e o Estado era quem tinha responsabilidade de mantê-lo seguro e vivo", disse o aposentado segurando uma foto do filho.

As estatísticas recentemente divulgadas no Anuário Brasileiro de Segurança Pública, de que a maioria das pessoas mortas no Rio Grande do Norte é negra e com baixo nível de escolaridade, não se aplicam ao filho de Francisco Luiz. Branco, aluno de escola particular, atleta e com pais morando juntos e sem nenhum problema financeiro grave, Guilherme Ely viu nas drogas algo que seu pai não sabe explicar. “Ele (Guilherme) sempre estudou em escola particular, era um atleta. Era um filho amoroso, carinhoso e simpático. Sempre me abraçava e beijava. Eu não desconfiava de nada”, disse. A incerteza da espera, a busca pelo filho desde o fatídico 14 de janeiro de 2017, não faz Francisco desistir. “O quarto dele está arrumado, esperando ele voltar. Fica um vazio, sabe? Me sinto apunhalado pelo incerteza. Não sei se um dia sentirei ele junto a mim de novo".

Pai de Guilherme Ely requisitou informações oficiais à Sejuc, mas não obteve respostas
Pai de Guilherme Ely requisitou informações oficiais à Sejuc, mas não obteve respostas

Calamidade
Desde março de 2015, após episódios de rebeliões generalizadas, o Governo do Rio Grande do Norte decretou e vem renovando o estado de calamidade no Sistema Penitenciário estadual. Apesar dos reforços de efetivo enviados pela Força Nacional, o quantitativo de fugas e mortes de presos dentro de unidades prisionais não diminuiu. Pelo menos 40 foram achados enforcados ou estrangulados até hoje.

Somente no primeiro semestre deste ano, pelo menos 205 homens conseguiram fugir de Centros de Detenção Provisória, Penitenciárias e Presídios administrados pela Sejuc/RN. A maior debandada ocorreu no dia 25 de maio passado, quando 88 homens escaparam, através de um túnel de aproximadamente 40 metros de extensão, da Penitenciária Estadual de Parnamirim (PEP), na região metropolitana de Natal.

Todos os foragidos pertencem à facção criminosa Sindicato do Crime, rival do Primeiro Comando da Capital (PCC). O Rio Grande do Norte bateu outro recorde negativo, superando em dez meses deste ano, o total computado em 2016: o assassinato de mais de duas mil pessoas. 



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