"Estamos crescendo com segurança"

Publicação: 2010-05-23 00:00:00
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Sílvia Ribeiro Dantas - Repórter de Economia

O mossoroense Marcelo Rosado é formado em engenharia civil e atua no setor varejista desde 1992, juntamente à sua família, com a rede de lojas de materiais de construção A Construtora, e atualmente exerce também a função de presidente da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas (FCDL) do Rio Grande do Norte. Nesta entrevista, ele fala sobre a 14ª Convenção de Comércio e Serviços do Rio Grande do Norte, realizada entre sexta-feira passada e hoje, no Teatro Dix-Huit Rosado, em Mossoró. Além disso, Rosado revela as perspectivas do varejo norte-riograndense para o ano de 2010, aponta pontos positivos da economia do Estado, bem como o que pode dificultar seu crescimento, mas sempre deixando claro o bom momento vivido pelo setor. Ao mesmo tempo, ele deixa claro que os empresários precisam se preparar para aproveitar as oportunidades que surgirão nos próximos anos, em particular com a Copa do Mundo de Futebol de 2014, que será realizada no Brasil.
Quem é pequeno precisa ficar médio e quem é grande quer ficar maior ainda, diz Marcelo Rosado
Por que o tema Otimismo por Todos os Lados foi escolhido para a convenção deste ano?
A gente sempre pesquisa um nome que tenha forte relação com o que está ocorrendo no momento em que a convenção lojista é realizada, como no ano passado em que percebemos a necessidade de abordar a questão da ousadia. Já este ano, percebemos que existe um otimismo de empresários, consumidores, fornecedores e inclusive os economistas estão pregando que 2010 será um ano de crescimento, geração de empregos e muito investimento. Por isso, entendemos que o tema mais adequado seria Otimismo por todos os lados. Esses temas começam a ser desenvolvidos logo após o final das convenções e assim que esta terminar, já começaremos a pensar na de 2011. Nós pensamos nos temas, pesquisando o que está acontecendo em grandes eventos mundiais, como a NRF (National Retail Federation – feira anual, na cidade americana de Nova York), pois é a partir deles que vamos percebendo que tipo de informações estão sendo debatidas nos encontros voltados ao setor.

Por que a escolha da cidade de Mossoró, para abrigar a 14ª Convenção de Comércio e Serviços do Rio Grande do Norte?
Entre as reuniões que a FCDL promove durante o ano, em uma delas colocamos que estamos recebendo as propostas das Câmaras de Dirigentes Lojistas (CDLs) que querem ser anfitriãs do evento. Geralmente, aquelas que se propõem a sediá-lo são as de Natal, Mossoró e Caicó, mas sempre têm ocorrido entre Mossoró e Natal, principalmente na capital do estado. A convenção é o maior evento voltado ao varejo no nosso estado, exigindo um auditório confortável, com capacidade de abrigar satisfatoriamente um grande número de pessoas, uma boa infraestrutura de hotéis e a prefeitura da cidade precisa ser parceira do evento, para que a gente consiga subsidiar os valores da inscrição. Nessa hora, Caicó leva desvantagem. Este ano, Mossoró foi escolhida por consenso, já que em 2008 a convenção tinha sido realizada na mesma cidade e em seguida foi feito um acordo de que em 2009 o evento seria em Natal, mas a capital se comprometeu em apoiar Mossoró no ano seguinte.

O que a FCDL espera com o evento de 2010?
A convenção tem o propósito de fazer a integração de todo o movimento lojista do estado, mas hoje a gente já consegue ter uma mobilização além do empresariado, além do lojista. Percebemos cada vez mais a presença do setor educacional, da saúde, que participa e percebe que esta convenção é importante para eles também. Isso ocorre porque os temas abordados pela grade de palestrantes são trabalhados de forma que um vai completando o outro. Este ano, por exemplo, temos palestra de Maílson da Nóbrega, falando sobre globalização da economia e o que está acontecendo tanto fora quanto no Brasil, Nordeste e Rio Grande do Norte, além dos canais utilizados hoje para se fazer a abordagem junto ao consumidor, para que ele demore mais tempo dentro de sua loja e compre mais.

Que fatores influenciam positivamente o comércio potiguar?
Hoje, são principalmente o crescimento e o aquecimento da nossa economia. Percebemos que as pessoas conseguem ter carteira assinada e acesso ao crédito, consequentemente, elas compram e isso impulsiona toda uma cadeia produtiva. É o supermercado, a farmácia, a loja de material de construção que vende. Enfim, podemos dizer que todo o setor entra em uma dinâmica que favorece o crescimento do Estado. O Rio Grande do Norte está conseguindo crescer em uma taxa superior ao que vem acontecendo tanto no Nordeste quanto no Brasil e isso provoca um cenário no qual conseguimos debater esse assunto, além de mostrar a necessidade de nos prepararmos para o amanhã. Tenho certeza de que seremos mais exigidos como empresários, precisando oferecer um atendimento e uma estrutura melhores aos nossos clientes.

Os números do Caged, divulgados esta semana, mostraram recorde na geração de empregos durante o primeiro quadrimestre do ano no RN. Isso já se refletiu no comércio do Estado?
A gente teve um aquecimento e se você me perguntar qual o gargalo ou o desafio que os empresários enfrentam, posso garantir que é a necessidade de contratar mão de obra, aliada à dificuldade em encontrar essa mão de obra qualificada. Nós, da FCDL, promovemos a convenção lojista, mas a iniciativa de desenvolver ações para qualificar o setor não é exclusividade nossa. Outras instituições têm promovido ações, como o Sebrae e o Senac, que vão formando e capacitando a mão de obra necessária para o desenvolvimento do estado. Mas é bom deixar claro que no nosso evento, os gerentes e donos de empresa conseguem também perceber o que vai acontecer futuramente. Não trazemos esses grandes palestrantes ao Estado apenas para comentar ou falar do cenário atual. Eles vêm principalmente para comentar sobre o que está acontecendo no exterior e as perspectivas para a economia do RN. Cabe a quem está preparado, absorver as informações necessárias ao desenvolvimento da sua empresa e implantar as inovações dentro da sua realidade.

O que mais pode jogar contra o setor, aqui no Estado?
Temos outras dificuldades, mas a falta de mão de obra qualificada hoje pode ser vista como uma espécie de hemorragia, que precisa ser estancada. Um desafio também é a questão do crédito, que se conseguíssemos ter uma política para oferecer crédito com juros mais baixos, certamente aqueceria mais o comércio. Outra questão que o movimento lojista também vem discutindo em nível nacional diz respeito às taxas de administração de cartão de crédito. O lojista que paga 5% ou 6% de taxa de administração tem muita dificuldade, porque a margem de lucro dele muitas vezes não chega a 10%, para que ele seja competitivo, e pagar tudo isso só dessa taxa não é justo.  Ocorre que o lojista tendo melhor condição, o mercado se torna mais competitivo e o consumidor terá preços melhores.

Pelo que o senhor já falou, o setor está acreditando que 2010 será um ano de recuperação para o varejo do RN. É possível retomar os mesmos níveis de crescimento que eram vistos em 2008, antes da crise financeira internacional?
Acreditamos que será um ano de crescimento para o setor em todo o Brasil e aqui no RN, mais ainda. Eu percebo que estamos caminhando para resultados melhores do que os vistos em 2008. A gente vinha crescendo entre 2006 e 2008, mas não sabíamos o que aconteceria no futuro, então estava todo mundo apostando. E o que está acontecendo hoje é que temos uma segurança, de nos próximos quatro ou cinco anos, haverá muitas oportunidades e cabe aquele que consegue identificar essas oportunidades, como a Copa do Mundo que será realizada no Brasil em 2014, e acelerar a preparação para esse bom momento que irá acontecer. Aquele que investir nos seus funcionários, que conseguir fazer diferente no mercado, certamente irá colher melhores frutos.

Como o senhor está enxergando a crise na Grécia? Acredita que irá atingir o Brasil?
Não posso dizer que essa nova crise não tem reflexo algum no Brasil. Mas o que estamos sentindo aqui, por causa disso, é infinitamente menor do que o reflexo que a crise iniciada nos Estados Unidos, no final de 2008, provocou. Isso é natural, uma vez que a crise passada era em um país bem maior do que a Grécia e também atingiu fortemente alguns países da Europa, com os quais nós temos forte relação, tanto no que diz respeito ao comércio de produtos, quanto no fluxo de turistas. Mas, mesmo sentindo pouco, torcemos para que esta crise seja superada o mais rápido possível.

O que o senhor acha da ida de grandes supermercados para cidades como Parnamirim, Macaíba e Mossoró?
O que acontece é que quem está no mercado precisa crescer. Quem é pequeno precisa ficar médio e quem é grande quer ficar maior ainda. Ninguém começa o ano com a meta de diminuir. Como todos têm sempre a meta de crescer e o mercado de Natal já está bastante disputado, então a tendência é que as grandes empresas comecem a buscar as cidades menores, indo para o segundo ou terceiro municípios do estado. Dentro dos nossos eventos, a gente vem defendendo que é preciso se preparar, porque ninguém tem como evitar que as grandes empresas venham para o Estado. Se olharmos a cidade de Mossoró, hoje já tem supermercados como Atacadão, que é do grupo Carrefour, Bompreço, do grupo Walmart, e certamente amanhã chegarão outros. O que o empresário vai fazer? Reclamar? De maneira nenhuma. Ele tem é que se preparar e encontrar meios de concorrer de uma maneira que tenha um diferencial.

Essa é uma tendência vista hoje em todo o varejo ou fica restrita aos supermercados?
Certamente, é uma tendência de todo o setor varejista e é uma dinâmica antiga. Quando eu era secretário de desenvolvimento econômico do estado (entre 2005 e 2008), fui procurado por um dos grandes grupos supermercadistas, que colocaram para a ex-governadora Wilma de Faria a intenção de abrir unidades no RN, mas fora da capital. Eu acredito que, daqui para a frente, esse movimento acontecerá de forma rápida. O que temos que fazer é encontrar formas de conviver bem com essa tendência e as associações comerciais existem para fortalecer os pequenos, para que eles consigam obter as informações necessárias e estarem preparados para aproveitar o momento. Mas, para que isso ocorra, é preciso enxergar a chegada dos grandes de uma forma positiva, pois não existe possibilidade de o mercado ficar mais fácil e a concorrência é inevitável.

Como o senhor enxerga a campanha da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), que visa incentivar o refinanciamento das dívidas pelos lojistas, até o Natal?
Eu sou favorável a essa iniciativa e quando eu era presidente da CDL de Mossoró, já fizemos algumas campanhas nesse sentido. O que precisamos é que o nosso cliente esteja com crédito limpo, com a ficha sem nenhuma restrição, para que ele possa voltar a comprar. Se não oferecermos facilidade, ele terminará encontrando outra maneira de comprar, quer seja no nome de um parente próximo quer seja através de outra pessoa. Acredito que a melhor alternativa seja mesmo negociar, oferecendo o máximo de vantagem possível, para que ele consiga estar apto a comprar novamente em dezembro. Agora é mesmo o momento certo de fazer essa campanha, pois permite que o consumidor se prepare até o Natal.

Com relação ao recente quadro de redução no número de cadastrados no Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) e, ao mesmo tempo, um aumento de consultas. O que isso significa, na prática?
É uma relação direta. Quanto mais o lojista consulta, significa que mais gente procurou a loja para comprar, enquanto a diminuição no número de registros significa que mais lojistas estão optando por oferecer crédito próprio e fugindo do cartão de crédito, para poder fazer promoções e não ter que pagar as altas taxas de administração dos cartões de crédito. E, para que eu venda com crédiário próprio, tenho que saber se a ficha desse cliente está limpo.

Continuando a tratar de promoções, quais são as expectativas da FCLD para as próximas campanhas no formato “liquida”?
Em todo o estado, temos 29 CDLs e a perspectiva é de que praticamente todas elas realizem a liquida da sua cidade, durante o segundo semestre do ano. A tendência é que essas promoções ocorram em datas diferentes, para que elas não disputem clientes entre si, fazendo com que o mercado todo ganhe.

Falando agora como empresário do setor da construção civil, o senhor acredita que a redução no Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI)  do material de construção deve ser mantido além de dezembro deste ano, quando o Governo Federal pretende suspendê-lo?
Acredito que os incentivos deveriam permanecer. A Associação dos Revendedores de Material de Construção tem procurado defender a manutenção desse incentivo. Um dos motivos é que o programa Minha Casa, Minha Vida está começando e a suspensão desse incentivo pode até ser considerada uma traição com as pessoas que aderiram ao programa, tanto os construtores como aqueles que esperam receber suas moradias.


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