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Economia
Estamos mirando na pesquisa, diz Gestora da Primar Aquacultura
Publicado: 00:00:00 - 21/11/2021 Atualizado: 10:33:57 - 20/11/2021
Margareth Grilo 
Editora Executiva 

Pela primeira vez o Rio Grande do Norte conquistou o Prêmio Mulheres do Agro, organizado pela Bayer, empresa química e farmacêutica Alemã, em parceria com a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag). Designer gráfico há mais de 30 anos, a carioca Márcia Kafenztok, que mora no Rio Grande do Norte há quase 30 anos, foi a vencedora na categoria pequena Empresa, com a gestão da Primar Aquacultura, empresa que terminou assumindo há seis anos após a morte do marido, o biólogo  e mestre em bioecologia aquática, Alexandre Alter Wainberg.  Conheça a história dessa empreendedora que acredita no cultivo “impactando o mínimo possível o meio ambiente”. Nessa entrevista ela explica as frentes de atuação da empresa localizada em Tibau do Sul,  e a opção pelo cultivo orgânico, sustentável de camarão, ostras e outros organismos.  “A aquacultura serve, para a gente parar um pouquinho o extrativismo e aprender a cultivar, colocar os organismos na água, aprender a preservar, a repovoar”, afirma. 
Alex Régis
Márcia Kafenztok, Gestora da Primar Aquacultura

Márcia Kafenztok, Gestora da Primar Aquacultura

Para começar me fala quem é Márcia Kafenztok e como de designer gráfica você passou a gestora na área de aquacultura? 
Há 28 anos, a gente (ela e o marido Alexandre Alter Wainberg) se estabeleceu no sítio São Felix, em Tibau do Sul, na Primar, onde é a fazenda que estamos lá até agora, e eu não me envolvia com o projeto. Meu trabalho era como designer, atendia o mercado de Natal, trabalhava bastante, com muitos clientes, com gestão de marcas, muitas feitas aqui na cidade. Até que há seis anos Alexandre, biólogo marinho, mestre em bioecologia aquática, e que idealizou o projeto da Primar, foi ele que preparou aquela estrutura toda, faleceu e eu não tive coragem de sair, de abandonar tudo, achava muito bonito o projeto dele, o fato de ele estar querendo cultivar impactando o mínimo possível o meio ambiente, de tocar um projeto sustentável. Ai, eu juntei todos os funcionários, três dias depois que ele faleceu, perguntei o nome de cada um, eu não sabia o nome deles, o que cada um fazia e se eles saberiam fazer o que eles sempre fizeram sem ninguém para orientar. E todos eles, alguns com dez, outros com 15 anos na empresa, falaram que sim. Então, eu disse, a gente vai tentar, pode ser que a gente consiga, pode ser que não. Mas vamos tentar.   

E como foi esse início? 
Foi muito duro. Muito duro. Primeiro, pela perda de Alexandre, não foi morte natural, ele foi assassinado por um funcionário, e pra mim era reconstruir tudo, e minha filha tinha a senha do computador de Alexandre, a gente entrou e pediu ajuda para todos os amigos dele, profissionais e pesquisadores, explicando que a gente queria continuar com a Primar, então a gente ia precisar de suporte tecnológico, de gente com conhecimento para nos orientar. E todos os amigos dele se ofereceram para ajudar, mais de 40 pessoas, e aí fomos. Fui sendo treinada, conversando com um funcionário de cada vez, para entender o que ele fazia, como ele fazia, como era a rotina, fui aprendendo, fui sendo treinada pelos próprios funcionários. Hoje, acho que até por todo esse movimento, a gestão tem uma gestão compartilhada, participativa. As tomadas de decisões são conjuntas, sei que a última palavra é minha, mas eu procuro sempre ouvir, todos. O que está lá 15 anos, o que acabou de chegar e, às vezes, eles percebem alguma coisa que a gente não percebe. Eu acho de muito valor a opinião de todo mundo. Então, é mais fácil a gente tomar a decisão assim, e todos se comprometem com ela, querem ver dar certo. Acho que isso tem trazido pra gente uma cultura na empresa, um ritmo lá dentro, que é bastante produtivo, e acaba colaborando o que eu hoje intenciono, que é transformar a Primar em um instituto de pesquisa e aquacultura estuarina. Já temos muito pesquisador lá dentro, tem muito trabalho científico sendo desenvolvido. A gente recebe, às vezes, dos pesquisadores um desenho experimental, que a gente tem que seguir com bastante seriedade, então a gente acaba envolvendo toda a equipe nesses projetos e eles vão aprendendo, aprofundando o conhecimento. 

Atualmente, em que frentes vocês trabalham?  
Hoje, a Primar tem produção comercial de camarão e ostras nativas, ostras brasileiras, de mangue. Nós temos também um laboratório de reprodução de ostras, que foi o último trabalho de Alexandre. Só existem dois laboratórios desse organismo no Brasil, um em Santa Catarina e a gente aqui. A fazenda tem certificação orgânica desde 2003. Alexandre batia muito na tecla que dava para produzir impactando o mínimo possível. Então, a gente faz a conta ao contrário, a gente vê qual a capacidade de suporte do ambiente, e cultiva dentro daquela capacidade, sem ter que colocar ração para alimentar, ou oxigênio para os organismos, e a gente consegue colocar mais de um organismo dentro do mesmo ambiente. A gente tem um viveiro de camarão, mas a gente pode colocar as ostras junto. É um cultivo multitrófico integrado, onde vários organismos aquáticos ocupam um espaço diferente, se alimentando de coisas diferentes e todos eles coexistindo harmoniosamente, como é na natureza. No mar você não encontra um organismo só, são vários, o do fundo, o do meio, o de cima. A gente aproveita a estrutura tridimensional da água para os cultivos.  

Como se insere a pesquisa na Primar? 
Alexandre sempre teve muito envolvimento com o meio acadêmico, porque ele que inventou essa história de produção orgânica, foi pioneiro nisso, e vivia sempre num diálogo muito grande com a academia. Sempre recebia muitos estudantes, dava muitas palestras, e fazia isso de maneira informal. E eu comecei a formalizar isso. A gente tem hoje 18 universidades federais conveniadas para recebimento de estágio obrigatório, fechamos nosso primeiro convênio internacional com a União Européia em 2019, é um projeto chamado AquaVitae, é bem interessante, é um consórcio de 36 entidades ao redor do Oceano Atlântico para pesquisar organismos aquáticos, então é um intercâmbio de informações muito interessante. E a gente está mirando nessa direção de transformar a Primar em um Instituto. Por a área ser pouco tocada, porque não se entra produto químico, não entra agrotóxicos, é um ambiente do jeito que ele é há 19 anos, então é um ambiente bem bacana e estamos mirando na pesquisa.  

Que contribuições essas pesquisas têm dado ao mercado do Rio Grande do Norte e nacional? 
Isso para gente está bem latente nesse momento em relação ao laboratório de reprodução de ostras, e as ostras. Hoje, a gente tem na fazenda dois residentes, recém-formados, que estão em projeto do Mapa e do CNPq, com bolsa para trabalhar um ano, tipo primeiro emprego, tipo residência médica, mas trabalhando na Primar. Uma menina que é de Pedro Velho está focada no laboratório, trabalhando com as microalgas, e desenvolvendo coisas novas, e um engenheiro de pesca de Rondônia está trabalhando especificamente com o acompanhamento dessas ostras em campo. Então, a gente tem pessoas especializadas, qualificadas, acompanhando o trabalho de rotina, a gente vai registrando tudo, vai fazendo muitas descobertas, vai correlacionando os eventos, e acaba aprendendo como melhorar a sobrevivência desses organismos. Aqui na Fenacam, a gente trouxe a ostra Crassostrea gasar,  ou Crassostrea brasiliana, que é a espécie que a gente cultiva, extraída com seis meses de cultivo. Na literatura ela é lenta para crescer, leva um ano e dois meses, um ano e quatro meses, então a gente está com um organismo aqui com um crescimento super acelerado, passível de cultivo aqui. Estamos tendo resultados muito bacanas, e com isso a gente já vai querendo fazer pesquisa com outras coisas, pra ver se melhora a produção dessa espécie e vira um ícone relevante para o Estado. Hoje, está todo mundo começando a trabalhar não só com ostra de extração, mas com ostra produzida de laboratório. E a tendência é aumentar cada vez mais o consumo de sementes feitas em laboratório. É para isso que a aquacultura serve, para a gente parar um pouquinho o extrativismo e aprender a cultivar, colocar os organismos na água, aprender a preservar, a repovoar. Hoje, na lagoa de Guaraíras, onde a gente está, não tem mais ostra nativa para extração, acabou. O que tem lá vem de fora para colocar lá dentro. 

Você pode nos dar a dimensão da produção da Primar e que mercado abastece? 
Nossa produção é pequena, porque em uma fazenda orgânica a gente cultiva todos os organismos em baixa densidade, então a produção é baixa. A gente só abastece o mercado do Rio Grande do Norte. Natal e Pipa são os mercados. Por ano, são trinta e seis toneladas de camarão, já a ostra é difícil dizer, porque hoje a gente tem 150 mil ostras na água, mas muita coisa que acontece, e amanhã pode ser outro número completamente diferente. 

Qual o potencial que tem a aquacultura para impulsionar a economia do RN? 
Hoje, a carcinicultura no Estado já é uma das atividades preponderantes, em termos de receita, e tem muitos outros organismos que a gente pode incluir na aquacultura, porque tem um potencial muito grande, o planeta é dois terços de água. Então, se a gente já está produzindo em terra esses volumes, imagina quando a gente puder ir pra o mar, que tem uma dimensão muito maior, e aprender a cultivar outros organismos também. 

Há perspectiva de expansão e quais são os desafios? 
Perspectiva de expansão em termos de volume de produção, talvez não, mas em organismos cultivados com certeza sim. Nós estamos com pesquisas com microalgas e macroalgas nos viveiros, então, assim, possa ser que a gente venha a ter um produto de origem vegetal saindo daqui a pouco tempo. Para a Primar a gente tem todo esse foco na área de pesquisa e transformar num instituto, que daí pode vir muita coisa interessante, em termos de recursos, financiamento, que tem muito para projetos sustentáveis, para desenvolvimento de novas tecnologias.  

Explica melhor o cultivo orgânico do camarão? 
O camarão não é alimentado com ração, ele é alimentado com a biota natural que tem no fundo do viveiro. Então a gente enche o viveiro, aguarda o tempo de se criar os alimentos naturais necessários, é como se preparasse o pasto. Com ele pronto, a gente vem com a larva do camarão e coloca lá, obedecendo uma certa quantidade por metro quadrado pára que tenha comida suficiente até o final do ciclo. A gente só coloca o camarão, mas nada. Não usa nenhum tipo de conservante, é só no gelo. Ele, Morre de choque térmico, vai para o processamento.    

E o laboratório do cultivo de ostras? 
A gente leva os adultos para dentro do laboratório onde é feita a reprodução, passa 18 dias na base da larvicultura, depois mais 20, 30 dias como semente, depois que ela atinge dois milímetros vai para dentro da água do viveiro e completa seu ciclo até chegar no tamanho comercial. O laboratório já tem sete anos de funcionamento, demorou muito para produzir. Alexandre comprou o laboratório em 2014, e ele levou 43 larviculturas, se produzir, porque ele começava a larvicultura, morria tudo. Ele ficou um ano e meio nessa luta persistente, até conseguir, tudo era anotado. Foi na quadragésima quarta que ele conseguiu fazer 1 milhão e duzentas mil sementes, e ai infelizmente, ele faleceu três meses depois e não conseguiu nem ver elas crescerem, mas ele deixou a receita do bolo, e o pessoal que trabalhava com ele no laboratório conseguiu dar continuidade, e é o que a gente está fazendo até agora.   

Tem uma técnica nova de cultivo de ostras que você está expondo  na Fenacan, pode explicar? 
Sim, é o cultivo em cluster, que é a gente fazer o assentamento da sementinha da ostra numa concha morta, que a gente chama de concha mãe, e ao invés de elas ficarem soltas, se grudam na concha mãe, e ali vão crescendo. A gente engalhou a concha mãe dentro da corda e as outras vão crescendo por cima. E essas primeiras foram extraídas, com cinco meses, aproveitamos a carne e o filé da ostra.  É um experimento que a gente está começando a colher os primeiros resultados. Tem ajustes a fazer, tem custos a diminuir, vamos apertar para a coisa ser financeiramente ultrapositiva e viável.

Em termos de custos no cultivo orgânico, ele cai muito?
E menor porque, como a gente cultiva em baixa densidade, sem ração, eu não tenho custo com ração, não tenho custo com energia elétrica, tenho pouco mão de obra, mas também tenho pouca produtividade, mas a lucratividade desse produto, a margem é muito maior, porque os custos são pequenos. 

O que representa o prêmio para você e para a empresa? 
Primeiro, fico muito honrada com o prêmio, e volta aquele momento onde eu juntei todos os funcionários para falar que a gente ia tentar, aquela pessoa crua, que não sabia nada, não entendia do negócio, mas querendo manter, querendo continuar, um projeto bacana, de sustentabilidade, que era sonho de Alexandre. Então, acho que está dando certo, a gente está num caminho bacana, e para a Primar também é muito bom, internamente foi bastante motivador, porque se a gente já tem um sistema de gestão que é diferente dos vizinhos, para todos os colaboradores, todo mundo foi premiado porque a gente não ganha essas coisas sozinho. Esses seis anos, a gente está contando com o apoio de muita gente lá dentro. O prêmio é de toda a equipe da Primar, é muito legal ostentar um prêmio como esse, e acho que agrega valor à empresa, também. É a sinalização de que estamos no caminho certo, de que deve prosseguir.  

Qual a mensagem para a mulher que quer ingressar no agro? 
Está com vontade de fazer, tem sonho, faz parte do coração, quer assumir uma atividade de família, faça, e faça com conhecimento. Conhecimento hoje em dia se consegue em vários lugares, dar um mergulho no conhecimento na profundidade que você quiser, da leitura rápida na internet, pode se inscrever em alguns cursos mais concisos, pode fazer uma universidade, mestrado, doutorado. Estude, se eduque, pesquise, se inteire da situação, e se jogue de cabeça, com o coração e tudo, que a gente fazendo as coisas seguindo o coração, em geral, a gente chega num lugar bacana.  

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