“Estamos vivendo uma crise de confiança”

Publicação: 2012-02-19 00:00:00
Andrielle Mendes
Repórter

O que move um país não é uma economia forte nem um conjunto de políticas claro, mas a formação do seu povo. A frase, uma das preferidas dos políticos em tempos de eleição, soa como alerta e parte da doutora em Economia e Ciências Empresariais e diretora de pós-graduação da Universidad Europea de Madrid (UEM), Rosa Sanchidrian. Para ela, que esteve em Natal esta semana à convite da Universidade Potiguar (UnP), a educação básica deve receber mais atenção. Não adianta concentrar esforços no ensino universitário ou técnico se crianças continuarem ingressando no ensino fundamental sem saber ler ou multiplicar. Ou nem ingressarem no ensino fundamental. Segundo dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), 18 milhões de jovens entre 15 e 24 anos estão fora da escola e 1,8 milhão de jovens brasileiros não cursam o ensino médio. Esse número representa 17,9% de todos os jovens entre 15 e 24 anos do país. O desafio é grande, afirma Rosa. Mas só países que investirem em formação conseguirão se antecipar a crises e viver o período de bonança sem passar por grandes tempestades. Nesta entrevista à TRIBUNA DO NORTE, ela também fala sobre o momento atual e o que vem pela frente em relação às turbulências que afetam a Europa e acabam respingando no mundo. Confira os principais trechos:
Rosa Sanchidrian, doutora em Economia e Ciências Empresariais da Universidad Europea de Madrid (UEM)
Como alcançar a excelência em tempos de crise?

Em tempos de crise é possível alcançar a excelência com inovação, com uma gestão muito boa dos talentos, com qualidade e internacionalização.[Muitas empresas espanholas inovaram e investiram pesado na internacionalização, abrindo filiais fora da Espanha e assim amenizando os efeitos da crise].

As dicas para atingir a excelência na gestão empresarial valem paraatingir a excelência na gestão pública?

A priori sim, porque as estratégias universais são as mesmas para uma empresa privada, uma empresa pública, uma pequena, uma grandeempresa. O que muda é a dimensão das instituições. As estratégias para atingir a excelência na gestão pública vão funcionar na gestão de uma empresa privada. As formas de fazer deveriam ser as mesmas.

Você poderia destacar uma semelhança e uma diferença?   

No serviço público, a responsabilidade é muito maior. É nosso dever atingir a excelência na gestão pública principalmente por um motivo. Por quê? Porque estamos prestando um serviço para a sociedade. Porque são empresas financiadas com os impostos de todos. Isso, por si só, exige mais [planificação], mais clareza na tomada das decisões, mais transparência e, especialmente, mais ética. Aspectos que na gestão pública deveriam ser essenciais. Esta é a maior diferença em relaçãoàs empresas privadas. Empresas públicas deveriam trabalhar obrigatoriamente desta forma.

Na sua avaliação, foram problemas de gestão que provocaram a nova crise internacional?

Diria que o câmbio foi um dos principais fatores. As tecnologias também. A questão do conhecimento. E o comportamento do mercado. Esta crise virou uma crise internacional que se acentua com a bancarrotado banco de investimentos Lehman Brothers, o quarto maior dos Estados Unidos, que em 2008 anunciou concordata, afetando todo o sistema bancário. É importante dizer que a crise tem efeitos diferentes nos países. A Espanha, por exemplo, registrava um crescimento muito forte.Um crescimento econômico apoiado em poucos setores. Essencialmente no setor da construção civil. Na proporção de 50%. Mas o país também sedia grandes empresas mundiais como Telefônica e banco Santander, que está muito bem. A crise econômica na Espanha hoje está concentrada na construção, serefletindo em maior desemprego e numa maior taxa de desemprego. Nossa taxa de desemprego hoje está em torno de 5%. Uma taxa de desemprego muito alta. São aproximadamente cinco milhões de pessoas desempregadas. Isso é o que diferencia a crise espanhola da crise em outros países. O fato de estar centrada na construção, que até antes da crise, teve um crescimento muito alto. Todo o mundo estava consumindo muito e os bancos sendo muito flexíveisna hora de conceder crédito. Quando retirou estas facilitações,provocou uma crise econômica muito mais latente, mais forte. As empresas ficaram sem dinheiro para investir, os bancos não tinham como emprestar, e as empresas pequenas perderam espaço porque os bancos cancelaram as linhas de crédito.

Durante aula magna na instituição de ensino superior que a convidou, você disse que não há países inteiramente em crise, mas setores em crise. Pergunto: a crise é menos assustadora do que se imagina?

Creio que a crise não é tão grande. Em outras épocas, havia crises econômicas muito fortes. Mas agora é uma crise sobretudo de confiança. Se vocênão tem confiança em ninguém, não tem confiança em algo, retém o seu dinheiro. Na Espanha, vivemos uma situação onde, a nível político, os gastos públicos consumiam boa parte do nosso Produto Interno Bruto (PIB). Os investidores espanhóis então captavam muito dinheiro. Mas com a crise, já não conseguiam pagar. Então para captar era preciso pagar. Era preciso passar confiança. Em resumo, a crise na Espanha está apoiada em três fatores: muito gasto público, alto número de desempregados e problema de crédito. O que o governo está tentando fazer? Flexibilizar a lei trabalhista, ajudar as empresas a empreenderem e apoiar os bancos com uma reforma do sistema financeiro importante.

Quais os efeitos da crise no Brasil, país que tem um mercado internoforte, mas depende da exportação, principalmente de bens primários?

Creio que os efeitos sobre o Brasil serão mínimos. Se o país continuar se saindo bem e o governo brasileiro aprender com a crise nos outros países, terá uma grande oportunidade de não passar pela mesma situação. A exportação é muito importante. Mas o Brasil tem muitos recursos. Necessita somente que o governo seja capaz de não viver o mesmo que aconteceu na Europa. E invista na formação. Na formação dos empresários, na formação dos líderes que atuam na gestãopública, na formação da população para o progresso. Se realmente tiver líderes formados eprofissionais que tomam as decisões de acordo com osparâmetros acertados não enfrentará uma situação semelhante. Na Europa, o que se diz é que os países não se anteciparam. Estávamos vendo acrise. Entretanto, não havia uma política que permitisse que nosantecipássemos e agíssemos no momento adequado. Se tivéssemos atuado durante a crise ou tomado medidas corretas durante três anos – 2008 a2011 – não teríamos a situação que temos agora.

O Rio Grande do Norte, Estado que exporta muita fruta e camarão para a Europa, e tem no continente europeu o principal emissor de turistas, se voltou para o mercado interno. Quando o Estado poderá voltar a apostar na Europa?

Agora mesmo a Espanha e a Europa necessitam passar confiança outra vez. Mas entendoque o Rio Grande do Norte e o Brasil precisam também buscar novos mercados. Quanto a Europa, é necessário que os políticos façam seu dever de casa, investindo num plano de seguridade social, de dar confiança aos exportadores, para que a Espanha volte a ter números crescentes evolte a ser destino das exportações.

Em viagem a Natal, a presidenta Dilma Rousseff disse que o mercado interno brasileiro blindava o país contra a crise. Você concorda com esta afirmação?   

Sim. O Brasil produz muito para o auto-consumo e existem barreiras no comércio exterior que restringem a entrada de produtos semelhantes. O país está protegido pela própria política de comércio exterior adotada, o que mantém a previsão  de crescimento para os próximos anos.

O Brasil já aprendeu muito com os outros países....

Sim, sim.

Mas o que os outros países podem aprender com o Brasil?   

O Brasil tem uma oportunidade única para mostrar seu modo de fazer as coisas, principalmente durante a realização de grandes eventos mundiais, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Oportunidade de mostrar durante estes eventos como é seu modo de agir, como são suas pessoas, como são seus dirigentes. O desafio é imenso. O Brasil é um país muito grande, com muitos recursos, capaz de se tornar uma referência na realização de eventos nacionais e internacionais. Isso significa se tornar referência em infraestrutura, em formação. Para isso terá que trabalhar muito.

A crise internacional freou a geração de emprego em todo o mundo e no Brasil também. Você acredita numa retomada agressiva na geração de emprego ou as contratações seguirão em ritmo menor?   

Creio que o número de empregos crescerá, mas as pessoas precisam ser capazes de buscar novas oportunidades de negócio. A forma de empregar será distinta. Acredito que algo muito importante vai ocorrer na tecnologia e na forma de trabalhar. Esta retomada vai exigir uma maior formação. Issoocorre sempre que nos deparamos com uma nova economia. Já não teremos uma economia baseada indústria, mas uma nova economia. As pessoas terão de  mudar também sua forma detrabalhar; adequar-se às demandas das empresas. Na década de 50, por exemplo, quando um  universitário entrava para trabalhar numa empresa na Espanha, ele seguia toda a vida nesta empresa, na mesma função. Nos anos 90, e aqui eu me encaixo com minha geração,você entrava na empresa, permanecia nela, mas mudava de cargo. Mas a geração y vai querer trabalhar de uma forma distinta. Porque normalmente não vai querer trabalhar para uma empresa só, mas paramuitas. É capaz de administrar muito bem a diversidade, de aplicar muito bem os recursos tecnológicos. Tudo isso nos faz pensar que a forma de empregar também será distinta.

Conseguiremos tirar algo de positivo da crise?

Eu creio que sim. Todas as crises mostram que nos equivocamos e nos dão novo impulso. A principal lição da crise é que nós não podemos nosapoiar em um único pilar. Precisamos crescer e estimular a inovação. A crise também nos permite enxergar e mostrar a população que devemos buscar sempre novas possibilidades. A crise nos faz revisitar nossos valores, como ética, afã de superação, competência. Nos mostra o que precisamos trabalhar em nós mesmos. Em resumo, a crise pode sim nos deixar muitas lições.

Os países que investirem em formação sairão da crise mais rápido?

Eu creio que sim. Um país que aposta na formação terá uma população muito mais preparada, com mais conhecimentos especializados. Isto ajudará o país a sair muito mais rápido da crise. Mas não só a formação. Também os valores, que precisam ser introduzidos dentro da sociedade. Algo importante é mostrar que se pode empreender com seu próprio dinheiro e em seu próprio negócio. Estimular a busca pelo conhecimento e introduzir estes valores será o que fará um país sair da crise primeiro.

Que desfecho você acredita que a crise terá? O fim da turbulência está próximo?

Eu não tenho uma bola de cristal (risos), mas há muitos bons professores de Economia na Universidad Europea de Madrid, que são experts nesta área, e eles dizem que para sair da crise seránecessária uma reforma financeira global, muitíssima transparência eque as empresas e os dirigentes tenham muito claro até onde tem de ir e que deixe isso bem claro a todos os grupos. Se seguir estesparâmetros e agirem no momento certo, sairão logo da crise. É preciso que os governos apoiem as empresas com políticas fiscais e trabalhistas, auxiliem na recuperação do sistema financeiro, e passem credibilidade para as instituições, sendo transparentes. Assim conseguirão gerar empregos em empresas públicas, privadas, pequenas e grandes e atingirão a excelência.

Países trabalhando em equipe?

Isso mesmo. Os países não podem abrir mão de aliançasestratégicas para promover os valores e assim estimular o crescimento da economia e o progresso de sua população a nível pessoal e profissional. Umtrabalho em equipe será capaz de solucionar todo e qualquerproblema e buscar oportunidades. O Mercosul e União Europeia são blocos formados por países que através dos seus presidentes são capazes de buscar oprogresso social não só do seu país, mas para todos os integrantes dos blocos. Não buscam ganhar-ganhar (ganhar um e perder o outro).