Estilo para inglês ver

Publicação: 2020-06-07 00:00:00
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Alex Medeiros
alexmedeiros1959@gmail.com

Um domingo, não como hoje, 7 de junho de 1970. As lembranças correm para trás, cinquenta anos de distância, o moleque já acorda com uma camisetinha amarela, surrada, adquirida na feirinha do bairro. O desejo de ver uma nova vitória da seleção do Brasil, de gritar nas jogadas de Pelé ou Jairzinho, fica contido no pouco otimismo do irmão, que sente ainda a ressaca moral do tropeço de 1966 em Liverpool e teme que a seleção campeã seja a favorita.

Encarar a forte Inglaterra no segundo jogo da Copa, se já era uma pedreira, o nervosismo dos adultos aumentava na ausência de Gérson. O nosso maestro deu lugar ao jovem Paulo Cezar Caju, um ponta com pinta de meia e metido a driblador, mas fazedor de gols no forte Botafogo daquele tempo, que ocupava metade do plantel da seleção com o Santos. Lá em Blumenau, aos 19 anos, Marco Antônio Garotinho temia o real team, enquanto curtia o primeiro filho.

No Rio de Janeiro, Nei Leandro de Castro se concentrou num boteco da Rua Catete e passou o primeiro tempo entre goles e sustos, como narrou na coletânea “Todos Juntos, Vamos”. De Norte a Sul, os ingleses amedrontavam.

Antes da Copa iniciar, a imprensa daqui e dalhures já apontava as duas equipes como as mais fortes, assim como a sempre poderosa Alemanha. E o que o mundo assistiu foi uma das grandes obras de arte da galeria da bola.

O duelo foi uma exposição de força e talento dos dois lados, com pelo menos quatro ou cinco momentos que marcaram a história de todas as copas. Uma partida repleta de lances magníficos e com ingredientes de final antecipada.

Um primeiro tempo nervoso, onde o goleiro Félix fez duas defesas portentosas que legitimou o apelido Gato, alusão aos saltos e a um famoso desenho animado. No intervalo, fui jogar bafo com figurinhas dos produtos Weston.

Muitas das grandes jogadas naquela tarde do Estádio Jalisco, em Guadalajara, a mais lembrada até hoje é a pintura do goleiro inglês Gordon Banks defendendo a cabeçada de Pelé. Mas Félix foi herói suportando o bombardeio.

O jogo era tão duro, equilibrado, técnico e nervoso que o povo amontoado na pequena sala do meu vizinho torcia até pela violência, como na malícia calculada de Carlos Alberto quebrando o ponteiro Lee, se vingando por Félix.

Jairzinho e Pelé tentavam romper a defesa inglesa, mas parecia que as tropas do general Montgomery estavam plantadas ali. Seria preciso uma arma mais refinada, num ataque mais surpreendente, para furar a barreira britânica.

E a arma foi a mesma que ajudou o Brasil a cavar presença na Copa 70 nas eliminatórias de 69. Se a surpresa era necessária, ninguém melhor do que o gênio Tostão para solucionar o problema que estava atrapalhando a seleção.

E o craque do Cruzeiro, acostumado a desafiar o Santos do rei Pelé, fez o que o mundo inteiro jamais imaginou. Tostão afastou um zagueiro com o cotovelo, deu um toque sutil e despachou o segundo e partiu pra cima de Bobby Moore.

Primeiro meteu a bola entre as pernas dele, depois girou sobre o próprio eixo sem tirar o pé esquerdo do solo e tocou de direita para Pelé que tinha um marcador a um metro, mas o suficiente para o rei rolar macia para Jairzinho.

O herdeiro de Garrincha no Botafogo e na seleção disparou um petardo de direita sem tempo para Banks fazer o milagre que Félix já tinha feito. A sala explodiu, gol do Brasil e depois meia hora de sustos à espera do apito final.

Próximo jogo, pra classificar, seria contra a Romênia, quarta-feira, dia 10. E eu com a mesma camisetinha amarela.



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