Estrada para o sertão profundo

Publicação: 2018-04-15 00:00:00 | Comentários: 0
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Tádzio França
Repórter

Um sertão de pedra e pó é o personagem mais poderoso de “Onde Nascem os Fortes”, nova supersérie da Globo, com estreia  no próximo dia 23 de abril. Mais do que um cenário, esse ambiente árido e quente localizado no interior da Paraíba é um reflexo da trama de ódios, paixões e perdões escrita por George Moura e Sérgio Goldenberg, com direção de José Luiz Villamarin. O sertão profundo que exigiu uma entrega total do elenco também inspirou a “imersão” com a imprensa promovida na semana passada, à convite da rede Globo. A reportagem da TRIBUNA DO NORTE viajou no  grupo de jornalistas que circulou pelos principais cenários naturais da trama e vivenciou um pouco do que está por vir nas telas.

O lajedo de Pai Mateus é cenário mítico por natureza. O local será a morada do líder comunitário Samir, papel de Irandhi Santos
O lajedo de Pai Mateus é cenário mítico por natureza. O local será a morada do líder comunitário Samir, papel de Irandhi Santos

“A gente decidiu sair das tramas urbanas e ir para o interior do Brasil, retratando uma área dura, feita de mineração, argila e pedra. Um sertão contemporâneo, mas que ao mesmo tempo mostra que alguns hábitos antigos não mudaram, como aqueles de honra e vingança”, explica George Moura. Os autores ressaltam que as gravações têm sido uma autêntica aventura para toda a equipe, já adaptada às intempéries do sertão. O trabalho começou em outubro do ano passado, e as gravações seguirão até o fim de abril.

George e Sérgio tiveram o primeiro contato com a imprensa convidada em frente à fábrica de bentonita, um dos cenários da trama, pertencente ao personagem Pedro Gouveia (Alexandre Nero), o mais poderoso empresário de Sertão, a cidade fictícia onde se passa a trama. A bentonita é uma mistura de  grãos muito finos de argila, usada para variados segmentos (da higiene animal à construção civil e estética). A fábrica usada como cenário da série está localizada na cidade de Boa Vista, e é a maior do Brasil em seu segmento há 57 anos.

O ambiente remete a um deserto. Amplos espaços a perder de vista pontuados por grandes montes de bentonita similares a dunas, elevações montanhosas e vulcões. Escavadoras e tratores circulam pelo local, deixando nuvens de pó pelo caminho. Junto ao sol forte do sertão, gera um ambiente quase opressivo. Perfeito para “Onde Nascem os Fortes”.

Patrícia Pillar revive o passado ao retornar a cidade Sertão
Patrícia Pillar revive o passado ao retornar a cidade Sertão

Várias cenas já foram gravadas na fábrica e, claro, causaram comoção no pedaço. “As gravações tiraram a empresa da rotina, mesmo tudo sendo feito com muito planejamento prévio. Nunca vimos tanta gente por aqui, tem sido algo bem diferente do nosso dia a dia”, afirmou Antônio Carlos Nunes, gestor de planejamento e produção da Bentonit.

Lajedo místico
“Geograficamente, o que amarra essa história é a estrada de terra”, disse Luiz Villamarin. Uma das mais interessantes estradas da série leva ao Lajedo de Pai Mateus, localizado na área rural de  Cabaceiras, em pleno cariri paraibano. Trata-se de uma impressionante elevação rochosa por onde se espalham dezenas de grandes pedras arredondadas, esculpidas pela natureza ao longo de milhões de anos. “Esse lugar foi fundamental para a escolha da Paraíba como locação da série. O lajedo tem um visual diferente, estranho, quase lunar, como se fosse outro planeta. Tem o clima que a gente queria”, afirmou George Moura.

O sentimento místico inspirado pelo lajedo o levou a ser cenário oficial de Samir, personagem do ator pernambucano Irandhir Santos, o líder da comunidade Lajedo dos Anjos, uma área que recebe pessoas em busca de abrigo e paz espiritual. Samir é um homem íntegro e caridoso que se isola do mundo – e do passado conturbado – numa grande oca no topo do lajedo, um templo de sincretismo religioso onde ele recebe seus fiéis.

Personagens tem sua história amarrada pela estrada árida do cariri
Personagens tem sua história amarrada pela estrada árida do cariri

A “igreja” e casa de Samir é uma das construções mais espantosas da série. Tem dez metros de largura e até oito metros de altura. O material, que simula galhos de madeira trançados, é na verdade uma trama de canos de PVC reciclados, obra do artista Alexandre Gomes.  A oca foi projetada para não parecer um corpo estranho na paisagem, sendo facilmente incorporada entre as pedras do local. E o objetivo foi plenamente atingido, pois ela soa totalmente natural no cenário. Mas nem tudo será gravado no local: as grutas onde vivem alguns personagens do lajedo foram reproduzidas com isopor e resina em estúdio no Rio de Janeiro.

A trama
“Onde Nascem os Fortes” se passa nos dias de hoje, na cidade de Sertão, um lugar desolado e misterioso do interior do Nordeste. Hermano (Gabriel Leone) e Maria (Alice Wegmann) se apaixonam fortemente, mas uma briga os impede de continuarem juntos. Maria acusa o pai adotivo de Hermano, Pedro Gouveia, de sumir com seu irmão gêmeo Nonato (Marco Pigossi). A engenheira química Cássia (Patrícia Pillar), mãe de Maria, se muda com a garota para o local com a intenção de investigar o desaparecimento do rapaz. Em meio à procura, variadas tramas paralelas se desenrolam e se entrelaçam, revelando preconceitos, rivalidades, vidas duplas, passados obscuros, revelações, e sentimentos em conflito.

A série conta com vários atores potiguares no elenco: Quitéria Kelly (Umbelina), Pedro Fasanaro (Valdir), Ênio Cavalcante e Titina Medeiros entre os fixos, e mais outros como participações especiais. O Nordeste de 2018 entre em cena.

Parte do elenco foi reunido na ocasião para o lançamento da série, em um hotel no Lajedo de Pai Mateus. Um longo clipe, ainda inédito na TV, foi exibido para apresentar uma geral da trama aos presentes. A atriz Maeve Jinkings, que interpreta Joana, uma funcionária da fábrica que tem um caso com Pedro Gouveia, afirma que tem sido uma experiência singular gravar no sertão. “É outro tipo de sensibilidade. Do elenco fixo aos figurantes, todos vivem as cenas à fundo, a gente se camufla nesse cenário”, diz.

Alexandre Nero (Pedro) e Enrique Diaz (delegado) são rivais
Alexandre Nero (Pedro) e Enrique Diaz (delegado) são rivais

Maeve conta que sua personagem tem algo em comum com todos os outros: não é óbvia. “Ela tem muitas camadas. Os autores criaram personagens perdidos entre o que eles gostariam de ser e o que realmente são. No meio desse abismo está toda a complexidade de viver”, analisa. Ela ressalta que o fato das superséries serem obras mais enxutas que as novelas, permitem que os personagens vivam seus momentos sem intervenção do público. “A série tem 53 capítulos e nossas histórias já estão fechadas”, enfatiza.

Irandhir Santos considera um desafio ser o personagem que aglutina todos os outros em torno de si. “As histórias são de ódio, e o Samir precisa receber isso com toda a sua espiritualidade. É um exercício a cada cena”, diz. O ator ressalta que apesar da presença religiosa de seu personagem, ele não se prende a dogmas específicos. “Evitamos pender para uma religião específica. Optamos por construir um líder religioso sincrético, aberto a todos”, afirma ele, ressaltando que se inspirou bastante nas rezadeiras que via em sua cidade, Limoeiro, quando era criança.

Alexandre Nero, que interpreta um poderoso do sertão, afirma que Pedro está longe da figura do 'coronel' habitual. “A gente mostra um sertão diferente do que o cinema e a TV se habituaram a passar, aquela coisa caricata ou meio datada. As pessoas não vivem mais ilhadas, não são bichos do mato. Meu personagem é um cara ligado no mundo. Não é um vilão. É até um cara esperançoso na humanidade – diferente de mim”, brinca. Fábio  Assunção, o juiz Ramiro Curió, verdadeiro vilão da trama, diz que é desafiador viver um homem que representa um retrocesso tão grande, “ainda mais no país como está hoje. É desafiador trabalhar com essas energias”, completa.

O veterano José Dumont, paraibano autêntico, celebra a representação de um Nordeste longe dos clichês regionalistas de sempre. “A internet misturou o povo, mas os valores básicos continuam os mesmos. A cultura nordestina é muito forte, e o elenco está traduzindo essa força com excelência”, diz ele, que interpreta Tião das Cacimbas. “Ele é meio surtado, mas sempre entre em cena para fazer algo de impacto”, brinca.

* A reportagem da TN viajou a convite da TV Globo


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