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Natal
Estudante de Natal faz campanha para ir à Harvard
Publicado: 00:00:00 - 12/06/2022 Atualizado: 10:14:08 - 11/06/2022
Aos 23 anos, o jovem Erick Matheus Sousa de Medeiros tem um objetivo ousado: estudar em Harvard, considerada uma das melhores universidades do mundo. Atualmente, o rapaz é aluno do sétimo período de Medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e passou para uma graduação sanduíche na instituição americana. Este formato, de nome diferente, é dado para um tipo de graduação na qual o aluno sai do seu país de origem para estudar temporariamente em outro. Para realizar o sonho, Erick está fazendo uma campanha virtual e espera arrecadar R$ 150.000.
Alex Régis
Erick Matheus, de 23 anos, passou para estudar em Harvard e precisa de R$ 150 mil para conseguir realizar o sonho

Erick Matheus, de 23 anos, passou para estudar em Harvard e precisa de R$ 150 mil para conseguir realizar o sonho


A inscrição para o programa na universidade americana foi feita em abril desde ano, e o resultado veio em maio. No dia 24, ele lançou uma vaquinha online nas redes sociais. Na primeira semana de arrecadação, já conquistou mais de R$ 10.000, vindos de 158 doadores. Agora ele corre contra o tempo para reunir o dinheiro total até 1 de julho, quando precisa dar uma resposta à universidade. As aulas estão previstas para serem iniciadas em agosto e devem ir até dezembro de 2022.

Para ajudar na divulgação, ele publicou um vídeo nas redes sociais em que relata sua conquista. O vídeo tem cerca de 200 mil visualizações, e tem impressionado o jovem. “Muita gente veio me seguir, veio doar depois disso. E o que eu acho bom é que esses R$ 10 mil, a grande parte foram de diversas pessoas que doaram um pouquinho que elas tinham”, relata

Do Potengi para Harvard

Filho de um pai taxista e de uma mãe dona de casa, Erick possui uma trajetória humilde. “Eu sou a primeira pessoa da minha família a entrar na faculdade, e a última pessoa que você imaginaria que seria a primeira pessoa do Estado a fazer uma graduação em Harvard”, descreve. “Você ia pensar no menino que é filho de um engenheiro e de uma médica que mora no Tirol e que já fez um intercâmbio no Canadá. Essa pessoa ia ser o super óbvio”. Por isso, apesar do valor alto, ele diz que tem “muita fé”.

Nascido e criado no bairro Pajuçara, zona Norte de Natal, hoje ele mora no Potengi, mesma região. Ex-aluno do IFRN Campus Zona Norte, diz que antes de optar pela área da saúde cogitou outros cursos. “Eu já quis ser tudo: policial, bombeiro, físico, até exorcista”, brinca.

A escolha pela Medicina veio por um fato triste. “Comecei a ter um interesse pela Medicina vendo séries, mas o que me marcou mesmo foi quando eu fui ser voluntário do CVV [Centro de Valorização da Vida], que é o serviço de atendimento para pessoas em situação de suicídio”, diz. Com 18 anos, Matheus perdeu o melhor amigo por suicídio, e ele próprio possuía depressão.

“No caminho de tentar me curar, de tentar fazer algo melhor pela minha vida, eu já sabia na época que eu era muito bom em ajudar outras pessoas, então eu fazia parte de vários grupos de pessoas com problema de saúde mental, com depressão, e sempre tinha alguém lá precisando de um desabafo”, revela o jovem.

No voluntariado, em que afirma que foi o mais jovem da história do CVV, se deparou com uma história que o marcou. O Centro atende por meio de ligações por telefone. Durante uma madrugada, por volta da meia noite, recebeu o chamado de um empresário de São Paulo. Após trair a esposa e cometer outros erros com a família, segundo relatou na ligação, os parentes haviam o deixado.

“Ele rico, com muito dinheiro, mas uma pessoa totalmente frustrada e triste com a vida porque não tinha mais a família. E naquele dia ele tinha comprado uma arma e decidido se matar”, lembra Erick. A mudança de rumo de uma vida que poderia ter sido perdida veio na chamada com o estudante. “Fiquei conversando com ele por um bom tempo e no final ele disse algo que me marcou: ‘hoje você salvou a minha vida e por sua causa amanhã eu vou poder abraçar os meus filhos’”, descreve. Depois de ouvir o que considera marcante, bateu o martelo: “vou ser médico”.

Após sair do ensino médio, onde se formou no curso técnico de Comércio, Medeiros fez o curso preparatório para o ENEM oferecido por uma universidade particular de Natal. O cursinho, pelo que se recorda, custava mais de 300 reais por mês na época, dinheiro que não podia pagar. Mas a instituição também ofereceu uma prova para que os melhores colocados ganhassem uma bolsa de desconto. “Foram mais de dois mil inscritos e os cinco primeiros lugares ganhavam bolsa de 100%. Eu fiquei em segundo lugar e ganhei essa bolsa de 100%, porque eu não tinha como pagar no final do período do cursinho”, recorda.

Após isso, Erick foi aprovado para o curso de Medicina na Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa) em Mossoró, mas preferiu continuar se preparando para estudar em Natal. Com os bons resultados obtidos, conquistou mais um desconto total em outro cursinho preparatório da capital natalense. Assim, foi aprovado com cotas de escola pública e renda na UFRN para o período 2019.1.

Depois de entrar na principal universidade do Estado, o jovem passou a almejar conquistas maiores: o período de estudos em Harvard. O primeiro passo veio na pandemia. “Desde a minha adolescência eu queria fazer um intercâmbio. Na pandemia, fecharam as aulas da UFRN, e eu disse ‘caramba, não estou tendo aula, estou aqui tranquilo em casa, vou pesquisar essas faculdades que eu queria ver nos Estados Unidos”.

Estudante trabalhou como motoboy

Por meio das buscas, Erick encontrou os cursos básicos da Harvard Medical School, a faculdade de medicina da universidade americana, realizados online. As aulas abordavam temas como farmacologia, genética e fisiologia, e o estudante optou pelo último. Entretanto, se deparou com outro obstáculo: “cada curso era 800 dólares, que era [cerca de] R$ 4000 e pouco”. Os americanos, porém, também ofereciam um processo seletivo para bolsa, onde ele conquistou o desconto máximo oferecido, de 75%, após a segunda tentativa.

Com três quartos de desconto, o valor ainda era alto para o Brasil: cerca de R$ 1200. “E meu pai é taxista e estava no lockdown, não estava trabalhando e é ele que geralmente me ajuda com alguma coisa”. Sem dinheiro, Medeiros recorreu às alternativas que já tinha. “Eu não tinha ninguém da família para pedir, mas tinha minha motinha. Aí comecei a trabalhar de motoboy nesse período, e em um mês, eu juntei esse dinheiro dele de 1200 reais para fazer o curso”, comemora.

O estudante ainda lembra que no momento que começou o serviço de entregador estava de férias da UFRN, o que tornou a rotina menos exaustiva. Quando as aulas recomeçaram, adotou as entregas somente aos finais de semana. “Aí era difícil conciliar com as aulas”.

Ao iniciar os estudos remotos em Harvard, o aluno diz que se deparou com “outro mundo”. No curso que durou dois meses e meio, afirma que conquistou um certificado entre os 5% melhores estudantes da disciplina.

A decisão de partir para uma graduação sanduíche veio após conhecer outra história. Em 2020, a alagoana Natália Cecília Carvalho Ribeiro, 23, foi aprovada para o intercâmbio Visiting Undergraduate Student em Harvard. “Ali que eu vi que eu poderia também, e isso foi no começo para o meio de 2021. E desde lá que eu estou me preparando até esse dia de hoje”, afirma Erick.

Ao receber a carta de aceite, o futuro médico se apoiou na crença. “Eu fiquei um pouco sem acreditar no início. Sou uma pessoa de muita fé, e aí vi que tinha recebido o e-mail. Só orei a Deus pelo resultado, não para que eu passasse, mas para que a vontade dele fosse feita”, aponta.

Para chegar nas próximas semanas até a cidade de Boston, no estado americano de Massachusetts, Erick Matheus ainda precisa completar o valor necessário para confirmar a inscrição. Para isso, abriu uma vaquinha online para arrecadar a meta de R$ 150 mil. Se tudo der certo, o natalense fará quatro cursos: Neurociência, Psicologia, Sistemas de saúde, além da disciplina de Desigualdade social e saúde. Na Harvard Medical School, diz, “você tem poucas horas de aula, mas muita coisa para casa”.

A escolha dos cursos em inglês vem pelos seus objetivos profissionais no Brasil. “O que eu quero mesmo para a vida, na minha área de especialidade, é psiquiatria. Sendo que a psiquiatria é uma das áreas mais atrasadas da Medicina, até porque muitos conceitos a gente não sabe explicar bem”. De acordo com Medeiros, o país forma “médicos clínicos, mas que não têm base científica”.

“Um médico sabe ver qual é o teu sintoma, mas não sabe como é que o Rivotril funciona, como é desencadeada uma ansiedade. Então nós tratamos doenças que a gente não sabe porque elas existem”, analisa.

Segundo o morador da zona Norte, “nós somos uma geração adoecida”. Por isso, os dois cursos voltados à gestão em saúde que escolheu tem o objetivo de buscar melhorar o tratamento médico no seu próprio país. Por gostar da área da pediatria, quer unir o amor à psiquiatria pelo desejo de cuidar de jovens. “Cada vez mais nós temos crianças e adolescentes com problemas de saúde mental. Dentro do Estado tem dois ou três psiquiatras da infância e adolescência”, comenta. “Aqui isso é algo que a gente ainda está percebendo e lá em Harvard eles têm as maiores bases científicas de pesquisa sobre o assunto”, explica o acadêmico.



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