Estudantes inovam e são premiados

Publicação: 2014-12-21 00:00:00
Nadjara Martins
Repórter

Imagine uma cadeira de rodas motorizada, recarregável à energia solar. E um mouse que, ao ser aproximado do papel, amplia em 25 vezes a imagem reproduzida pelo computador? Uma bengala para cegos que, ao se aproximar de um obstáculo, emite um sinal de vibração para a pulseira do portador? Objetos que poderiam ser desenvolvidos por qualquer grande indústria – ou pela ficção científica –  mas foram elaborados no seridó potiguar por alunos do ensino médio da Escola Estadual Tristão de Barros, em Currais Novos.

A ideia de reutilizar lixo eletrônico recolhido na cidade para desenvolver tecnologia assistiva – recursos que ampliam habilidades funcionais de deficientes físicos – resultou no projeto “Equilíbrio: para uma inclusão sustentável e um meio ambiente melhor”, ganhador de um prêmio internacional da Samsung no dia 8 de dezembro. Desenvolvido por 35 alunos do 3º ano ‘A’ da escola, o projeto foi selecionado entre 360 concorrentes de países da América Latina. Disputaram com 27 mil estudantes do Peru, México, Panamá, Argentina e Chila. Este ano foi o primeiro em que o Brasil entrou na disputa. Os estudantes curraisnovenses desbancaram o projeto do Ceará, que utilizava a folha da carnaúba para criar um filtro para a água.
Equipe mostra bengala que emite vibração próximo a objetos
Recolher lixo eletrônico das casas e ruas de Currais Novos foi uma atividade iniciada pela escola em 2012 para promover a conscientização, uma vez que o lixo não possuía uma destinação específica pelo município. Parte do material era revendido e o recurso utilizado na distribuição de panfletos para a comunidade. Entretanto, após iniciado o desmonte dos equipamentos surgiram as primeiras ideias.

De acordo com o professor de física Ivanês Oliveira Alexandrino, que orientou o projeto, foi observando o cotidiano dos estudantes do programa de Atendimento Educacional Especializado (AEE) que surgiu a inspiração. Dos 24 estudantes com deficiência da escola, dois estavam na sala do 3ºA. Foi quando iniciou-se a discussão com a turma para desenvolver tecnologias que ajudassem aos alunos do AEE.

“Na sala tínhamos dois alunos: um cadeirante e um com dificuldade de locomoção. Tentamos ajudar os colegas de sala e, depois disso, expandimos para o AEE e depois para a comunidade”, conta o professor Ivanês. A cadeira, que começou a ser desenvolvida em 2013, foi doada para uma cadeirante de Currais Novos.

Dos celulares, pilhas, baterias e câmeras descartados, nascera três protótipos: um mouse de computador que ajuda na leitura ampliada para deficientes visuais; uma cadeira de rodas com motor de parabrisas e bateria recarregável com energia solar, controlada via joystick, e dois protótipos de uma bengala para cegos que emite um sinal de vibração para uma pulseira ao se aproximar dos objetos.

“Recebemos o prêmio por retirar o lixo da natureza e dar um fim adequado a esse lixo. Isso aqui é resultado, produto do projeto”, comenta o professor. “O nome do projeto é Equilívrio por estar sempre em constância: material para fazer esse tipo de produto eu tenho sempre, e sempre estou produzindo esse lixo. Não tem como não ser sustentável.”

 Entre os dias 7 e 9 de dezembro, uma equipe de cinco alunos representou a escola na premiação da Samsung, em São Paulo. Para alguns estudantes, como Bruno Henrique de Oliveira, 17 anos, a experiência foi uma sensação única. “Eu só tenho a imagem na minha cabeça porque na hora todo mundo ficou sério, ninguém acreditava. Depois estava todo mundo chorando”, confessa, rindo. De volta à cidade, os estudantes foram recebido em carreata.

Protótipos são resultados de quatro anos de trabalho


Quem vê os protótipos pensa que foram desenvolvidos unicamente para disputar o prêmio. Entretanto, é resultado de um trabalho desenvolvido há quatro anos a partir da reformulação do projeto pedagógico da escola. A estadual Tristão de Barros foi a primeira escola do estado a aderir ao programa Ensino Médio Inovador, do Governo Federal. O programa fornece recursos – R$ 56 mil – anualmente para que a escola incentive projetos de inovação, ciência e tecnologia, arte e cultura.

De acordo com a diretora Elba Alves, a escola faz uma reunião pedagógica a cada início de ano letivo e define um tema a ser trabalhado pelas disciplinas. No contraturno das aulas são oferecidas atividades complementares, como clube de ciências, de leitura, astronomia.

“Isso aproxima todas as áreas e os meninos têm noção do todo, e não do ensino fragmentado”, comenta a diretora. “Eu me orgulho de dizer isso porque quem representa a educação do país ainda não entendeu que a gente tem que atende ao perfil do jovem de hoje – o jovem digital, interessado na troca de informação. Porque ensinar não é trazer o conteúdo pronto, mas produzir junto, entender junto. Criar o conhecimento a partir do conhecimento que já existe.”

Além do reconhecimento pelo prêmio da Samsung, a escola foi premiada com uma sala interativa com uma tv LCD, 50 tablets e um notebook. Mas, antes de ganhar o prêmio, foi preciso passar por três etapas: entre elas a visita de um avaliador da empresa à cidade. O avaliador entrevistou representantes do comércio e moradores para atestar a representatividade da escola junto à comunidade. Só ouviu elogios e, para a diretora, esse foi o maior prêmio.

De acordo com o professor Ivanês, a meta dos alunos é continuar criando. Acho que temos tanta tecnologia no Brasil, por que não colocá-la à disposição das pessoas com deficiência?”, comenta.

Entre os estudantes que participaram, nem todos vão seguir o rumo das engenharias. Muitos prestaram Enem para Direito, Letras. Entretanto, eles reconhecem a relevância do projeto na formação do conhecimento. “Eu não tinha interesse pela física, sinceramente não gostava.Mas saímos da teoria para a prática”, acrescenta Janaína Cunha, 18 anos.

Projetos de Tecnologia Assistiva


São objetos e serviços desenvolvidos que contribuem para ampliar as habilidades funcionais de pessoas com deficiência física, proporcionando vida independente e inclusão

Mouse para leitura ampliada

A equipe retirou de dentro de um laser (infravermelho simples) uma lente com capacidade zoom, a emparelhou com uma câmera de celular e a colocou dentro de um mouse USB. Ao passar o mouse por cima de qualquer objeto, a imagem reproduzida no computador é aumentada em  25 vezes. Para auxiliar na leitura, foram encaixados dois “pés” no mouse e uma lâmpada LED, que auxiliam na leitura. Eles também querem acrescentar um dispositivo que transforme os caracteres em palavras.

Bengala 1

O primeiro protótipo da bengala começou a ser desenvolvido no ano passado, utilizando um punho de bicicleta. No modelo inicial, a bengala utilizada um sensor responsivo de celular que detectava a aproximação dos objetos e emitia um bipe ao portador. Entretanto, o zumbido acabava incomodando o deficiente

Bengala 2

Desta vez utilizando um material mais leve, de uma bengala, acrescentaram um sensor de ré para carro. O sensor tem capacidade maior de identificar a aproximação. O bipe foi substituído por uma pulseira equipada com um vibrador de celular. Toda vez que se aproxima de um objeto, a bengala emite um sinal para o portador, que vai ficando mais forte ou fraco dependendo da distância.

Cadeira de rodas recarregável

A cadeira utiliza dois dois motores de limpador de parabrisas instalada nas rodas. O cadeirante utiliza um joystick para fazer os movimentos. Além disso, a bateria é recarregada por energia solar. Em contrapartida, uma cadeira motorizada desenvolvida pelo mercado custa entre R$ 800 e R$ 1,2 mil.

O prêmio

O prêmio “Respostas para o Amanhã” é realizado pela Samsung em cinco países da América Latina e premia iniciativas sustentáveis, com foco em matemática ou ciências, que promovam mudanças nas comunidades locais. O Brasil foi incluído em 2014. O projeto “Equilíbrio”, de Currais Novos, foi selecionado entre 360 projetos desenvolvidos por 27 mil estudantes. Como prêmio, a escola ganhou uma sala interativa equipada com TV LCD, 50 tablets e notebook, além de câmeras fotográficas para os alunos participantes