Cookie Consent
Natal
Estupro de criança em shopping alerta para necessidade de prevenção
Publicado: 00:00:00 - 07/08/2022 Atualizado: 17:09:51 - 06/08/2022
Cláudio Oliveira
Repórter

Mais uma vez, a vulnerabilidade de crianças e adolescentes voltou à pauta com o caso do homem que foi preso no último dia 29 de julho, acusado de estuprar um garoto de 10 anos dentro do banheiro de um shopping center, em Natal. O homem já cumpriu pena pelo mesmo crime e respondeu dois processos por importunação sexual, todos contra crianças e praticados no mesmo ambiente. O episódio levanta a preocupação quanto às formas de conter a ação dos abusadores e de proteger os menores desse risco. É possível reconhecer sinais de abusos e identificar possíveis criminosos, mas profissionais que trabalham com esses casos ressaltam que o trabalho deve ser conjunto, a partir da família, mas envolvendo escola, gestores públicos e empresas.

Divulgação
Assessor do Centro de Direitos Humanos, Gilliard Laurentino: “Identificar um predador sexual é muito difícil”

Assessor do Centro de Direitos Humanos, Gilliard Laurentino: “Identificar um predador sexual é muito difícil”


Infelizmente, não é fácil identificar um criminosos sexual desse estilo facilmente. O assessor técnico do Centro de Defesa de Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes do Rio Grande do Norte (Cedeca/Casa Renascer), Gilliard Laurentino, explica que é um engano apresentar a figura do abusador em campanha como sendo um monstro, porque, na verdade, na maioria dos casos, eles são familiares e conhecidos da família, que, em tese, não representariam risco.

“Então, identificar um predador sexual é muito difícil, porque geralmente ele consegue manipular muito bem. O melhor caminho para para a gente lidar com isso é com o que a gente chama de autoproteção. É a gente ensinar crianças e adolescentes a perceberem quando uma pessoa começa com uma conversa diferente, ou quando começa aqueles assédios na sutileza”, sugere o Gilliard, que também é psicólogo.

Ele explica que a autoproteção ensina para criança que existe algumas partes do corpo dela que não podem ser tocadas. É ela identificar quando um toque não é carinho. “Quando vai dar banho pedir licença primeiro para o filho para lavar as partes íntimas, por exemplo, para ir colocando na cultura dele que as pessoas não podem tocar em algumas partes do corpo dele sem permissão. Desde cedo para ele já ir amadurecendo nessa nessa linha de de saber que o corpo dele é dele e ninguém pode tocar a não ser com permissão. Que existe alguns carinhos que não são carinhos. Que existem algumas conversas que são manipuladoras”, pontua o psicólogo.

Ao tentar aliciar um menor, geralmente o criminoso pede segredo, seja por meio de ameaças, ou em troca de presentes e até dinheiro. Tudo isso também deve estar claro no diálogo dos pais com os filhos. Muitos pais não sabem, porém, como conversar esses assuntos com as crianças. Outros até resistem sob a argumentação de que se trata de ensinar sexo para os menores, discurso amplamente adotado por grupos conservadores.

“A gente vai conversar com eles a partir do conhecimento deles, a partir do que eles conseguem entender. Existem diversos livros, tipo 'Não me toca, seu boboca', que ensinam como a gente trabalhar com a criança, porque com uma criança a gente não vai trabalhar como trabalha com adolescente, por exemplo”, diz Gilliard Laurentino.

O Cedeca/Casa Renascer atua com enfrentamento à violência sexual no Rio Grande do Norte há 31 anos e em 2022 conseguiu aprovação de uma lei de autoproteção em Natal para desmistificar que não se deve debater a sexualidade, na escola, por exemplo. Contudo, a lei foi vetada integralmente pelo prefeito e, apesar da Câmara ter derrubado o veto, ainda precisa ser implementada.

Para o psicólogo do Cedeca, o trabalho de autoproteção não depende somente da família. “A gente tem que trabalhar a prevenção nas escolas, nas empresas, em todos os espaços. Não tem como a gente colocar só a responsabilidade nos pais quando é algo que é muito maior”, disse ele.

A urgência para combater o problema não é à toa. Cerca de cem crianças de até 14 anos são estupradas, por dia, no Brasil. O levantamento do UNICEF junto com o Fórum de Segurança Pública, mostra que esse ainda é um crime difícil de combater.

No Rio Grande do Norte, a cada 19 horas, uma criança ou adolescente foi estuprada na primeira metade de 2022. Dados da Coordenadoria de Informações Estatísticas e Análise Criminal da Secretaria de Estado de Segurança Pública e da Defesa Social (Coine/Sesed) mostram que no primeiro semestre deste ano 118 crianças (0 a 11 anos) e 111 adolescentes (12 a 17 anos) foram violadas sexualmente em todo o Estado, o que representa um aumento de 4,5% em comparação com o mesmo período do ano passado.

Empresas podem ajudar a coibir

Potenciais abusadores estão em toda parte. A grande maioria dos algozes está dentro ou próximo da casa da vítima. São parentes, amigos, vizinhos e conhecidos da família. Isso é fato. Mas no caso em questão, o acusado é um desconhecido dos pais do menino que foi atacado num lugar onde se pensa ser inesperado, mas não é.

Magnus Nascimento
Para a delegada, estabelecimentos podem ajudar a coibir

Para a delegada, estabelecimentos podem ajudar a coibir


Nos estabelecimentos de grande fluxo o registro de casos de importunação e até estupro têm se intensificado. Por essa razão, o  assessor técnico do Cedeca/Casa Renascer, Gilliard Laurentino,  sugere que é preciso levar a política de prevenção aos espaços públicos, aos empresários, para que se façam atividades preventivas. “Precisamos colocar para os shoppings locais que falem sobre prevenção, que falem onde denunciar. A gente precisa trazer para a sociedade esse debate para que a gente consiga diminuir tantos casos”, destacou.

A orientação para quando se perceber que a criança foi vítima de abuso sexual ou correlacionadas, é acionar as políticas públicas, a polícia, o Conselho Tutelar, os órgãos que darão o tratamento necessário. “São pessoas que já estão preparadas para lidar com essas situações, inclusive, nessa situação do shopping, impactou muito a gente porque era a terceira vez que a pessoa estava sendo presa pelo mesmo crime no mesmo shopping. E aí nos chama atenção do porquê os nossos grandes centros empresariais não terem pessoas lá dentro pra identificar o indivíduo que é reincidente e para ver se uma criança está sozinha ou não”, questiona.

Nessa mesma linha, a delegada Igara Rocha, da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), explicou que serão repassadas orientações sobre como os estabelecimentos devem reagir nesses casos. “São orientações de como agir, como o segurança que tiver contato ou visualizar um tipo penal desses deve buscar a polícia para que se consiga fazer o procedimento o mais rápido possível contra a pessoa e deixá-la encarcerada”, disse a delegada.

Ela destaca que o controle dos pais é essencial nesses casos. “Jamais deixar o filho desacompanhado, acompanhá-lo num banheiro público. É preciso entender que locais onde existe um fluxo de crianças e adolescentes, com certeza existem abusadores. Eles se utilizam desses locais para satisfazer a perversão sexual deles porque sabem que as vítimas estão ali. Por outro lado, os pais precisam tentar dialogar com o filho para que, caso sinta-se importunado, lhes conte e busquem a polícia para agir a tempo”, enfatizou Igara Rocha.

O pai da criança em questão notou que o filho estava estranho e o questionou. O menino falou sobre o que aconteceu e, imediatamente, o pai acionou os seguranças e foi em busca do criminoso. Porém, o acusado não foi encontrado de imediato, mas somente 20 dias depois. Depois da divulgação das imagens, outras duas denúncias contra o mesmo homem chegaram à polícia. Foram pais de outras vítimas de abuso. “surgiram mais dois registros que vamos trabalhar em cima desses dados. Ele é suspeito de pelo menos cinco situações”, acrescentou a delegada.

A Polícia Civil suspeita ainda que pode haver uma subnotificação nas ações do suspeito. No caso do investigado, a Delegacia de Criança e Adolescente já tinha averiguado que ele havia trabalhado em três lojas do shopping. 

Qualquer situação de violação dos Direitos Humanos, incluindo violência contra crianças e adolescentes, deve ser denunciada ao DISQUE 100. Segundo balanço da plataforma, em 2021, mais de 18% dos casos contra esse público foram ligados a situações de violência sexual.

Melhora nos índices depende de esforço 

A subsecretária de Políticas Públicas das Mulheres da Semjidh, Wanessa Fialho, afirma que o governo vem atuando na assistência às vítimas com o fortalecimento dos canais de denúncia e com a criação de espaços de apoio, como a Casa do Acolhimento. Na prevenção, o governo desenvolve ainda o projeto “Maria da Penha vai às Escolas”, que tem o objetivo de promover ações no ensino público voltadas a desconstrução do machismo, além de educar sobre os diferentes tipos de violência.

“A gente só vai ver o efeito disso a longo prazo, mas precisamos combater isso na base para prevenir. Aqui na secretaria nós procuramos sempre nos integrar porque são políticas transversais que precisam estar estruturadas em vários órgãos de governo para que isso funcione de fat”, destaca.

Na semana passada, o Governo conseguiu aprovar na Assembleia Legislativa um projeto de lei para criar o Departamento de Proteção a Grupos de Vulneráveis (DPGV) no âmbito da Polícia Civil do Rio Grande do Norte. O DPGV terá a finalidade de exercer atividades de polícia judiciária de forma especializada. A ideia é dividir por setores as investigações referentes aos crimes contra mulheres, crianças, adolescentes, idosos e pessoas com deficiência.

Canais de denúncia no RN:
DPCA: R. Ângelo Varela, 1465 – Tirol (3232-6184);
Deam Zona Sul: R. Nossa Senhora de Candelária, 3401 – Candelária (3232-2530);
Deam Zona Norte: Fórum Varella Barca, Av. Guadalupe, 2145 – Potengi (98135-6792);
Plantão Deam: Av. João Medeiros Filho, 2141 – Potengi (3232-1547, 3232-6291 e 98135-6538);
Deam Parnamirim: R. Sub. Oficial Farias, 1487 (98123-4114);
Deam Caicó: R. Maria das Neves Dantas, 35 (3421-6040);
Deam Mossoró: R. Julita G. Sena, 241 (93135-6111);
Ouvidoria Geral de Direitos Humanos: 98147-3498 ou ouvidoria.semjidh@gmail.com;
Casa de Acolhimento: 99663-0124 ou 98623-3681.

Leia também

Plantão de Notícias

Baixe Grátis o App Tribuna do Norte

Jornal Impresso

Edição do dia:
Edição do Dia - Jornal Tribuna do Norte