Eu, Jesus, mamãe e a História

Publicação: 2020-12-05 00:00:00
Alex Medeiros
alexmedeiros1959@gmail.com

Jesus nascia lá em casa todo dezembro e ficava até o dia de reis deitadinho num berço verde musgo e cáqui, debaixo de uma manjedoura armada com talas de madeira vindas da loja de tecido onde trabalhava meu pai e coberta com tiras de palhas de coqueiro. Meu irmão, ainda adolescente, era o arquiteto da cristandade que minha mãe impunha no ambiente da casa, sem oposição do marido ateu. Os bonecos de louça ou gesso davam um charme especial ao pequeno presépio que era visitado pela vizinhança da estreita rua no Centro.

Já no período da morte de Cristo, na semana santa católica, havia alguns ritos obrigatórios que entravam em voga já a partir da quarta-feira, chamada “quarta de trevas”. Mamãe proibia os doces e controlava nossos banhos até chegar o domingo. Da casa na travessa Padre Calazans até à casa da rua Berta Guilherme, em Santos Reios, ali entre meus 6 e 10 anos, Jesus vivia sempre por perto, cultuado na vida e na morte, sem que eu tivesse qualquer compreensão daqueles rituais todos.

Lembro-me de ter decorado, antes de aprender a ler, a “oração do angelus”, que tínhamos que rezar antes de dormir. Foi uma prima com poderes de mãe interina, Maria José, quem me informou que o anjo era o mesmo do presépio.

Apesar da devoção de mamãe pelas coisas de Jesus, o ambiente das igrejas não me atraía e até me provocava um estranho desconforto, o que me fez abandonar em poucos meses as aulas de catecismo e fugir da primeira comunhão.

Só voltei a frequentar um clima paroquial aos 13 anos, já morando nas Quintas, para assistir às missas da igreja na rua Marcos Cavalcanti, às 6h da manhã, o que deixou minha mãe feliz da vida. Mas, o meu real motivo nada tinha de catolicismo.

Era uma loirinha que residia na tal rua, irmã mais nova de uma colega de sala no Grupo Escolar Felizardo Moura. Eu soubera que toda a família acordava cedo no sábado para ir à missa. Até as aulas de educação física eu encarava para ficar perto dela.

Ali pelos 16 anos passei a ter uma proximidade maior com Jesus, fruto da influência cultural da época que pintou o palestino como um pop star, ou como um precursor dos hippies que circulavam pelas ruas pregando paz e amor ao som de Beatles e Bob Dylan.

Na calçada do colégio Winston Churchill apareceram os “Meninos de Deus”, distribuindo panfletos da seita americana que invadia a América Latina com apelos que remetiam aos nossos estímulos musicais e literários; a doutrina.

Eu já lia o Novo Testamento desde os 11 anos e a partir dos 15 ou 16 acrescentei alguns textos paralelos não aceitos pelo mundo cristão, e que me deram um desenho diferente do perfil de Jesus. A militância política não o afastou.

E nem foi ela, a militância, que influenciou meu ateísmo, mas muito provavelmente um toque de atavismo paterno e a natural indiferença às crenças que se instalou em mim na puberdade. As histórias bíblicas só tinham aspecto literário.

Nunca juntei Jesus com o deus cristão e judeu, vejo o nazareno como um personagem exclusivo do Novo Testamento. O filho do carpinteiro é quase uma figura mitológica no real contexto da História, não preenche seis páginas.

Não há quase nada citando Jesus nos livros dos historiadores do passado, como o romano Flávio Josefo, nascido sete anos após a crucificação e que fala de Cristo em apenas um parágrafo da importante obra “Antiguidades Judaicas”.

Em tudo que foi produzido nos anos posteriores à morte de Jesus, sua figura foi tão irrelevante quanto os ladrões crucificados ao seu lado, Dimas e Gestas. Sua força histórica vem dos depoimentos dos apóstolos e os livros do NT.

Mais misterioso ainda é o vácuo de 18 anos na sua vida, como se vê nos evangelhos dos apóstolos Mateus e João e depois nas narrativas dos discípulos de São Paulo, Marcos e Lucas. 

Até que se desvende tudo isso, Jesus seguirá nascendo e morrendo pelos séculos afora, sustentando a pureza da fé em pessoas como a minha mãe e servindo de alicerce e paredes para uma indústria religiosa que acumula a riqueza que ele supostamente combateu.

Créditos: Divulgação

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Música
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Manhã e tarde tem Burnley x Everton, Manchester City x Fulham, West Ham x Manchester United, Chelsea x Leeds, Sevilha x Real Madrid, Atlético Madrid x Valladolid, Cadiz x Barcelona, Juventus x Torino, Internationale x Bologna.






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