"Eu não gosto de polarização", diz Luiz Henrique Mandetta

Publicação: 2020-08-02 00:00:00
Everton Dantas
Diretor de Redação

O médico Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS) marcou sua passagem pelo governo Bolsonaro como ministro da Saúde que manteve a defesa da ciência e do SUS no enfrentamento da covid-19. E por este motivo acabou deixando o cargo. O posicionamento lhe rendeu elogios e uma posição privilegiada como analista de como o País vem tratando a doença. Nessa entrevista exclusiva à Tribuna do Norte, o ex-deputado entrega exatamente essa análise de quem é médico e passou por um ministério quando o Brasil foi atingido pela pandemia. E avalia ainda os reflexos futuros dessa doença. Com relação a 2022, uma possibilidade de candidatura, ele evita ainda qualquer comentário, mas não sem deixar uma declaração que sinaliza sua rota futura na política: " A única coisa que eu sei é que eu não gosto de polarização."  
Créditos: Marcelo Camargo/Agência BrasilEx-ministro mantém defesa da ciência e do SUS no enfrentamento da covid-19 e alerta para as implicações futuras do coronavírusEx-ministro mantém defesa da ciência e do SUS no enfrentamento da covid-19 e alerta para as implicações futuras do coronavírus

Como o senhor avalia o desempenho dos governadores no combate à pandemia?

Eu acho que os governadores acabaram tendo de ser a própria face do SUS. O governo federal, que no início procurava ter uma ação União - governos estaduais - governos municipais, tripartite, respeitando o SUS, a partir da minha saída, foi retirado o governo federal, que se limitou a fazer repasses financeiros pontuais, mas parou de dar apoio técnico inclusive para medidas duras. E nesse momento os governadores e prefeitos tiveram de assumir essa responsabilidade. Como os prefeitos têm uma agenda política iminente, que são as eleições municipais e sofrem muito a pressão do comércio local, dos empresários locais, coube aos governadores serem o poder moderador para tentar levar com o menor dano possível à sociedade brasileira. O grande ausente é o governo federal.     

E que avaliação o senhor faz do desempenho do governo federal?

São três tempos distintos. O início, quando você  tinha o Ministério da Saúde enfrentando, com muita transparência, com muita disponibilidade de dados, colocando tudo às 17h30, para que os jornais se apropriassem, as rádios se apropriassem, todos os números, todas as perguntas que eram feitas eram respondidas prontamente; uma transparência total porque naquele momento era a coisa mais importante era que as famílias soubessem de uma fonte fidedigna qual era a gravidade da doença para que elas montassem suas linhas de cuidado dentro das casas. As famílias se apropriaram dessas informações e se organizaram para proteger a mãe, o avô, a tia; e organizaram redes de solidariedade aos menos favorecidos. As famílias foram o primeiro elo de ligação. Depois nós viemos para um segundo momento quando começamos a ver o desmanche do Ministério da Saúde, no seu segundo escalão, com a retirada dos técnicos; com um ministro que comunicava menos, mas que tentava de alguma maneira ter alguma base científica e depois esse período militar. Os três períodos caracterizados por uma posição do presidente, isoladamente. No primeiro, desqualificando completamente a política de preservação da vida, com um discurso que iria optar pela economia, como se essa opção fosse um dilema real e obviamente isso não se sustenta. Países que optaram por este caminho levaram muito mais tempo para recompor suas economias, perderam muito mais vidas. Depois nós vimos um presidente desqualificando a ciência, dizendo que não havia necessidade de pesquisa, que não havia necessidade de universidades e dizendo que uma caixa de cloroquina resolveria todo o problema, numa posição totalmente contra qualquer estudo sério. E o terceiro momento federal é o da ocupação militar do Ministério da Saúde. A ocupação militar se dá sem técnicos de saúde e aí a gente passa a ser conduzido pelo vírus. A gente vai a reboque. O Ministério da Saúde silencia, para de prestar as informações, tentam não mais mostrar os números, a ponto do STF ter de dar uma ordem para que seja feito pelo menos o balanço de casos e o que a gente tem hoje é um governo federal sem nenhum cuidado, sem nenhuma preocupação com saúde, deixando lá um general desconfortável no cargo, porque não está preparado para aquilo. É como colocar médicos para tocar uma guerra. Médicos não tem condição de tocar uma guerra. Militares não têm condição de tocar o Ministério da Saúde. O que a gente vê é o país, parece que, aguardando a doença fazer todo o estrago que ela vai fazer, livre; um Ministério emudecido; e a sociedade civil tentando através de meios de comunicação, de governos estaduais, de pesquisadores, tentando achar o caminho por conta própria mas sem contar com o governo federal.

O senhor acha que o futuro reserva ao governo federal a responsabilização histórica por todas essas mortes?

Eu acho que a história vai observar muito como que os países, os chefes de estado trataram essa doença. Lá nos Estados Unidos nós temos um comportamento muito parecido do presidente de lá com o do Brasil. E as pessoas dos EUA me parece que estão muito insatisfeitas. Me parece que a história será escrita, o século XXI começando dessa epidemia do coronavírus porque ela colocou em discussão os valores que regem determinadas sociedade. A preservação da vida deveria ser, em tese, o maior patrimônio de um país. A gente não pode dizer 'ah, morreu porque era idosa'. 'Morreu porque era pobre'. Como eu escutei: 'essas pessoas moram no esgoto então elas têm resistência porque não tem saneamento, tem que ser estudados porque elas sobrevivem". Esse tipo de olhar não cuidados em relação á vida vai cobrar um preço que a história vai colocar no seu devido lugar. Agora, me interessa mais a análise das pessoas, do dia a dia, das famílias. E eu tenho percebido que as famílias não acham graça disso. Tanto que você faz a abertura de bares e restaurantes e continua as pessoas tendo cautela. Porque sabem que ainda precisamos encontrar  um teste de melhor qualidade, um remédio de melhor qualidade e uma vacina de melhor qualidade. Aí sim, não mais sob a pressão da doença,  aí nós vamos atravessar uma década refletindo sobre esse momento. O que é que nós fizemos de errado historicamente? Nós permitimos às favelas, nós permitimos às áreas sem saneamento, nós permitimos que as pessoas pudessem ser manipuladas facilmente. Porque mesmo aquelas que têm instrução não tiveram a cultura de prestigiar a ciência e a pesquisa. De prestigiar o caminho duro, o caminho difícil, que diferencia as sociedades mundiais. Eu acho que na hora que a gente fizer essa análise o Brasil vai se olhar muito no espelho e vai encontrar muita coisa que precisa mudar. Porque se nós tivermos um dia - e isso pode acontecer - um vírus que tenha o mesmo grau de transmissão desse mas com letalidade, com potencial de levar as pessoas a óbito, maior do que esse, que é de 3%... E se fosse de 30%? E se fosse 50%? Será que seria dessa maneira que nós íamos enfrentar? Essa discussão passa a ser feita e o SUS passa a ser o grande caminho de diminuição das desigualdades sociais para a gente encontrar uma sociedade mais justa.

A forma como a pandemia agiu no Brasil também cobra o preço pelos anos e anos de descuido com a saúde pública nos estados e no governo federal?

Não só com a saúde. Mas com a educação, com o tipo de trabalho que a gente faz. Os trabalhadores informais no Brasil, que são milhões de pessoas, que vivem dos restos da cidade; que são flanelinhas, guardadores de carro, vendedores ambulantes, pessoas que tem um tipo de atividade que quando confrontada com uma situação como está não lhes resta outra alternativa. A proteção social que o Congresso aprovou veio para atenuar os problemas graves dessa pandemia, mas não resolve os problemas graves da falta de oportunidades reais para que as pessoas construam suas próprias redes de proteção social. Ficou muito claro nesse momento as diferentes chances de vida entre negros, favelados e pessoas da periferia e as pessoas da classe média alta, dos ricos. Isso ficou evidente. Ficou muito estampado nós números de pessoas, no acesso aos testes, nos número de acesso aos leitos, em como tratar essa doença. Eu acho que ela veio para que toda a sociedade, não só a classe política, faça a sua reflexão. Como é que foram os empresários que sofreram tanto, como passaram por isso? Como se comportaram os líderes religiosos: entenderam que não podia aglomerar seus fiéis? Preservaram a vida? Usaram a palavra de Cristo a favor da promoção da saúde nas suas grandes lideranças? Como foi o comportamento das redes de comunicação? Como foi o papel da internet na primeira pandemia narrada em tempo real em todos os continentes? Como foram as milhares de fake news que só vinham para prejudicar? Como foi o comportamento dos médicos, alguns mais ligados a evidências e outros assumindo riscos, com medicamento não testados, colocando em risco pessoas de mais idade; com mulheres gestantes, sem nenhuma pesquisa; prescrevendo drogas experimentais. Como foi o comportamento de cada um? Como foi o comportamento do Ministério da Saúde? Do próprio ministro? O que acertou e o que errou? Como foi o nosso comportamento como tentativa de se construir uma nação que tenha liga? Se importou São Paulo ou Rio de Janeiro com a situação do Rio Grande do Norte? Houve solidariedade? Quando diminuiu os casos em um estado, houve transferência para outro? Não tivemos nenhum mecanismo internacional que pudesse moderar essa corrida desenfreada, sem nenhuma liderança mundial, sem nenhum organismo que pudesse fazer uma defesa da humanidade, uma defesa das nossas desigualdades continentais. Vejo que essa pandemia chega ao fim com a vacina e aí começa um grande debate sobre regulamento sanitária e sobretudo como vamos nos comportar daqui para frente.

Com relação à vacina, qual sua expectativa?

Estamos na etapa 3, testando. Ali por dezembro devemos ter conclusões. Depois disso temos um grande desafio: que é como produzir. A fase industrial da vacina. Como colocar no frasco e distribuir essas vacinas. Será que vamos repetir a mesma lógica anterior? Será que os países ricos vão comprar toda a produção e se vacinar, deixando países como o Brasil à margem? Será que o Brasil está preparando um parque industrial para produzir essa vacinas para o Brasil e para outros países? Como está a preparação do Brasil para a fase industrial da vacina? Se conseguirmos produzir aqui sem depender de laboratórios internacionais, acredito que no primeiro trimestre já poderemos pensar em distribuição e calendário. Se nós formos aguardar que os países ricos adquiram e vacinem suas populações, ficaremos para o final do semestre que vem talvez ou talvez para o segundo semestre do ano que vem.

Como médico, o senhor receitaria ivermectina ou cloroquina para combater covid?

Para combater covid, não. Para combater verminose a ivermectina é um bom medicamento. Ela retira sarna, piolho, mata verme... Ela vem do uso veterinário, ela começa pelo nome "ivomec": o gado fica com o pelo liso, caem os carrapatos, ela funciona muito bem. A cloroquina é um bom medicamento utilizado há muitos anos como antimalárico e funciona razoavelmente bem. E é usado num segundo uso para as doenças reumáticas. Não tenho nenhum problema com remédio nenhum. A medicina manipula drogas muito mais complicadas que essas duas. Eu não tenho problema nenhum de assumir riscos com medicamentos desde que eu saiba o benefício. E até agora ninguém me demonstrou o benefício. Ciência não torce por ninguém, não tem lado. Quer evidência. A ciência não tem partido político. Não tem país, não tem lado, ela quer verdade científica. E por enquanto nenhum desses medicamentos demonstrou verdade científica. Aos médicos que prescrevem, eu fico olhando e lamento muito que eles não estejam atentos aos estudos.

Como médico e ex-ministro, que conselho o senhor dá aos potiguares que agora estão vivendo a fase de reabertura da economia?

Eu acho que continuar com as medidas de prevenção: lave as mãos a cada uma hora, com água ou álcool em gel. Use máscaras. Guarda distância de dois metros de cada pessoa. Não aglomere em hipótese nenhuma. Essa doença é uma roleta-russa. Tem gente de 100 anos que pega e sai bem do outro lado. E tem jovens de 30 anos que enrosca, vai parar em CTI e morre. Não dá para fazer previsão. Esperto será aquele que não pegar e tomar a vacina e sair do outro lado sem ter que passar por essa doença tão imprevisível. Ainda tem muita coisa que a gente não sabe. O maior perigo é as pessoas relaxarem. E que os governantes meçam de manhã e de noite para caso haja uma volta não tenham medo de reduzir novamente a transmissão. É preferível ser mais duro do que querer conviver com a doença.

Qual o caminho do DEM em 2022 e se o senhor é candidato?

Agora a gente tem de estar atento com essa doença. 2022 está tão distante que devemos deixar ele lá. Vamos viver o presente. Temos um inimigo muito maior que qualquer governo. A gente tem uma ameaça à vida das pessoas. Depois vem eleições municipais. Tem uma boa discussão agora no final do ano. A população vai poder dizer o que achou. 2021 vai ser um ano de muita reflexão para todo mundo. A única coisa que eu sei é que eu não gosto de polarização. Eu acho que se a gente conseguir construir um bom conjunto de ideias e que o povo de bem venha junto, o Brasil sai ganhando. Nomes são secundários.