Política
Executivo de operadora passa a investigado
Publicado: 00:00:00 - 23/09/2021 Atualizado: 23:38:11 - 22/09/2021
Durante seu depoimento ontem, o diretor-executivo da operadora de saúde Prevent Senior, Pedro Benedito Batista Júnior, passou da condição de testemunha para a de investigado pela CPI da Pandemia. Tendo jurado dizer a verdade, Batista Júnior foi acusado por senadores de mentir e de ter trabalhado em conjunto com o chamado gabinete paralelo, que atuaria no Ministério da Saúde. O relator, senador Renan Calheiros (MDB-AL), mostrou vídeos em que Batista Junior tratava de protocolos de combate à covid-19 com integrantes do grupo que atuava junto ao governo Bolsonaro. 

Edilson Rodrigues/Agência Senado
Pedro Benedito Batista Júnior (à esquerda) presta depoimento, no Senado,  para a Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia

Pedro Benedito Batista Júnior (à esquerda) presta depoimento, no Senado, para a Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia


Os senadores também apresentaram vídeos, áudios e documentos encaminhados à comissão com denúncias de médicos e pacientes que comprovariam a orientação da Prevent Senior para distribuição da medicação de forma indiscriminada, além da pressão para que os profissionais conveniados prescrevessem o kit do "tratamento precoce". 

“Na reportagem [da Rádio Bandeirantes], é possível ouvir um áudio de familiares de pacientes e corretores de plano de saúde mostrando que, para novos clientes da Prevent, o 'kit-covid' era enviado diretamente para a casa dos pacientes. Como eu disse, nós temos um elenco de provas e, a cada dia, chegam mais provas de que essa coisa infelizmente, lamentavelmente, existiu — disse Renan Calheiros.

Em sua defesa, o executivo disse que ele e a empresa são vítimas de um conluio e de acusações falsas e se recusou a falar de prontuários de pacientes mencionados nas denúncias. “Reitero que o dossiê entregue a esta Casa é uma peça de horror, produzido a partir de dados furtados de pacientes, sem qualquer autorização expressa, o que configura crime que precisa ser investigado. Esses dados precisaram ser manipulados para deturpar a real conduta de mais de 3.000 médicos e, desta maneira, após furtados e adulterados, pudessem ser usados para atacar uma empresa idônea”, rebateu o depoente.

Prontuários
O relator também mostrou mensagens segundo as quais os médicos da Prevent Senior seriam orientados a fraudar os prontuários, de modo que os pacientes recebessem a CID B34.2. Assim, após 14 dias do início dos sintomas (pacientes de enfermaria/apartamento) ou 21 dias (pacientes com passagem em UTI/leito híbrido), a CID — classificação internacional de doença — deveria ser modificada para qualquer outra, de forma a identificar os pacientes que já não tinham mais necessidade de isolamento. Os senadores classificaram essa orientação como fraude. 

“O senhor [Batista Júnior] não tem condições de ser médico, modificar o código de uma doença é crime — disse o senador Otto Alencar (PSD-BA). “Essas pessoas morreram em consequência da covid-19. Isso é uma fraude”, afirmou o senador Humberto Costa (PT-PE), explicando que o objetivo da mudança da CID era dizer que os pacientes já não tinham covid-19. 

Durante o depoimento, Batista Jr. negou que a operadora tenha ocultado mortes de pacientes em estudo realizado para testar o “tratamento precoce” contra a covid-19. Ele ainda disse que o dossiê do estudo sobre a prescrição da medicação, enviado à comissão, foi adulterado por médicos da empresa e que nunca houve distribuição de “kit-anticovid” para pacientes sem indicação médica. 

“Havia prescrição das medicações e, naquela primeira mensagem, que foi manipulada lá trás, justamente mostrava que existia um setor pra avaliar criteriosamente cada um dos pacientes”, disse o depoente. 

De acordo com o diretor, o casal George Joppert Netto e Andressa Hernandes Joppert, médicos desligados da Prevent, em junho de 2020, manipularam dados de uma planilha interna para tentar comprometer a operadora. 

Ao responder o senador Eduardo Girão (Podemos-CE), o investigado esclareceu que os profissionais tinham autonomia para o diagnóstico e prescrição do tratamento e que a operadora possui ata notarial para que os senadores façam acareação das informações. 

À Soraya Thronicke (PSL-MS), ele esclareceu, ainda, que a distribuição dos medicamentos foi feita pela Prevent Senior apenas para aqueles que tiveram o tratamento prescrito pelo médico e que a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) permite essa prática. A resposta foi recebida com ironia pela senadora. 

“Poxa, vocês estão bonzinhos, heim? Eu estou bem impressionada. Eu acho assim, não tem plano de saúde que seja tão benevolente. É impressionante, até o motoboy leva [o medicamento] até você”, reagiu.

O relator questionou sobre a causa da morte, em janeiro deste ano, do pediatra e toxicologista Anthony Wong, que era defensor do "tratamento precoce". Segundo denúncia de ex-médicos da operadora, teria sido internado com sintomas de covid-19 e morrido em decorrência da doença. Os denunciantes afirmam, em áudio exibido pelo relator, que a Prevent Senior escondeu a verdadeira causa do óbito na declaração. O depoente se recusou a responder, dizendo que há proibição expressa da família para que se comente sobre o caso.

O relator lamentou a falta de informações e citou ainda que as mesmas suspeitas são direcionadas a mãe do empresário Luciano Hang, dono da Havan. Segundo Renan Calheiros, ela teria ido a óbito por covid-19, o que não consta na declaração emitida pela Prevent Senior. Para ele, as denúncias, se certificadas, caracterizariam uma “farsa” para proteger a “narrativa negacionista” do governo.

“A falsificação da declaração de óbito do Wong, um dos maiores defensores do tratamento precoce, por favor: fazia parte de uma estratégia da Prevent Senior para fortalecer a campanha de fake news promovida pelo presidente da República para que as pessoas acreditassem que o kit covid e a cloroquina eram benéficos para os pacientes”, disse o relator. 

Hang foi defendido pelo senador Jorginho Mello (PL-SC), que o classificou como "empresário sério".

“Paliatização”
O senador Otto Alencar, que também é médico, denunciou o que apontou de “paliatização” do tratamento da contra covid-19 pela operadora. Ele explicou que o procedimento se dá com a transferência de pacientes da UTI para a enfermaria, onde são administrados medicamentos paliativos, já quando não haveria chance de recuperação. E considerou o ato como uma "violência macabra".

“Ouvimos vários colegas do senhor, pessoas honestas, corretas, sérias, de credibilidade. Não foram poucos os médicos, não. E eles falaram aqui: Olhem, o paciente fica sete dias na UTI, dez dias na UTI. Vendo que não tem jeito, eles saem para a enfermaria para inaugurar uma coisa que o seu hospital inaugurou no Brasil, uma nova especialidade: a 'paliatização'", relatou o senador informando que tinha o prontuário de um paciente para exemplificar o caso.

Inicialmente o depoente disse que não comentaria a denúncia, mas em seguida pediu que cada caso fosse avaliado isoladamente, levando em consideração também os dados gerais das mortes por faixa etária “para não haver generalizações”.

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