Expedição Vale do Rhône IV

Publicação: 2017-03-31 00:00:00 | Comentários: 0
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Gilvan Passos

A casta tinta Syrah reina no Rhône Setentrional (norte) sozinha. Vinhos como o Côte-Rôtie, Saint-Esteph, Crozes-Hermitage, Hermitage e Cornas, são a quintessência dessa uva que tem mais de 2000 anos de história. Por muito tempo se cogitou que fosse de origem siciliana, tendo seu nome derivado da cidade de Siracusa. Já outra linha de investigação defendia que a Syrah era nativa da Pérsia (atual Irã), e que seu nome faria menção à cidade de Shiraz. Mas a pesquisa conclusiva, comprovada por estudos de DNA entre o Departamento de Viticultura e Enologia da Universidade da Califórnia e a Estação de Pesquisa Vitícola de Montpellier, na França, atesta tratar-se de uma casta autóctone do Vale do Rhône, França, aonde vem produzindo vinhos desde os tempos da dominação romana. Todo bom observador perceberá que entre Syrah (grafia francesa) e Shiraz (grafia australiana e do novo mundo) há muitas diferenças que não se limitam apenas à garrafa e a grafia, mas, sobretudo ao estilo.
Brancos, rosados e tintos nobres do vinhedo Chapoutier foram desgustados nesta viagem
O estilo francês é mais clássico, tem taninos mais nobres (finos), é menos alcoólico, menos amadeirado e mais sofisticado. Seus aromas variam de empireumáticos a especiados, com madeira dosada, fruta negra e muita mineralidade nos aromas e sabores. Antepondo-se a esse estilo, o Shiraz australiano e todos os seus pares são uma bomba de fruta, mais alcoólico, mais doce na boca, com fruta quase cozida (em compota), e corpulento no palato. Seus aromas sugerem geléia de frutas negras, chocolate e mentol, com a madeira se fazendo notar na boca e no nariz. São vinhos muito raçudos que quase se corta à faca, faltando, algumas vezes, elegância.

A garrafa é o primeiro indício do estilo que se fará perceber na taça. Para garrafas da Bourgogne, com rótulos grafados de Syrah, esperam-se o estilo francês, ainda que o vinho seja de outro país. Para garrafas bordalesas com rótulos grafados de Shiraz, esperam-se vinhos de estilo semelhantes aos da Austrália, onde essa uva se notabilizou a partir Penfolds Grange, vinho ícone criado pelo enólogo Max Schubert em 1951. Um Shiraz moderno do Barossa Valley, suculento e mais bombado do que os Côte-Rôtie e Hermitage produzidos no norte do Rhône. Mas ainda assim, fica claro que escola esse vinho seguia desde sua primeira safra, inaugurando o estilo Rhône Rangers da Califórnia. Não por acaso ele se chamava Penfolds Grange Hermitage.

Maison Michel Chapoutier
Fundada em 1808, e atualmente na sétima geração, esta vinícola está localizada em Tain l' Hermitage (Hermitage). Michel Chapoutier está à frente da vinícola desde 1990, e é também o presidente do Sindicato de Produtores do Rhône. Com manejos biodinâmico e orgânico, a Maison Chapoutier produz só no Rhône cerca de 8 a 9 milhões de garrafas por ano, mas também atua noutras  regiões da França como Roussillon e Alsace, e até mesmo fora da França, na Austrália, em Portugal, e nos Estados Unidos, mas é no Rhône que essa Maison produz, em solos de granito e argilo-calcário, os seus melhores vinhos.
Paisagem da Maison Michel Chapoutier
Os seus dois grandes ícones são o Le Pavillon Ermitage, um vinho com 100 pontos Parker, cuja safra 2014 no site da vinícola custa 486,00 €, e na Mistral, importadora que traz o vinho para o Brasil custa R$ 1.792,98 (Safra 2008), e o L'Ermite Ermitage, ao preço de 508,00 € no site da Maison a safra 2014. Importante frisar que as vinhas do Ermitage L'Ermite são pré-filoxéricas, com plantas de 170 anos. Tive o prazer de visitar esta incrível vinícola no dia 19 de outubro último, às 15 horas, quando fui recebido pela gentil sommelière Marie Roche, ocasião em que provei 16 vinhos, dentre brancos, rosados e tintos, sendo 13 do Rhône, 2 do Roussillon e 1 da Alsace.

Convém citar do Rhône os vinhos: Chateauneuf-du-Pape La Bernardine 2014, Hermitage Sizeranne 2012, Hermitage Chante-Alouette 2015, Côte-Rôtie Les Bécasses 2014, Crozes-Hermitage Les Meysonniers 2014 e Crozes-Hermitage Petite Ruche 2015. Um painel de tirar o fôlego que seguiu uma crescente em termos de estrutura e complexidade. Apesar dos vinhos ainda muito jovens, era notável o potencial e a intensidade de cada um revelada na sua incrível territorialidade.



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