Experiências de acesso ao cinema do RN, longe das duas cidades com salas comerciais

Publicação: 2019-11-07 00:00:00
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Ramon Ribeiro
Repórter

O tema da redação do Enem suscitou vários debates. Afinal, num país de dimensões continentais e de realidades regionais tão distintas, natural que a proposta “Democratização do acesso ao cinema no Brasil” gere diferentes pontos de vista. Num estado onde as salas de cinema estão concentradas em duas cidades (Natal e Mossoró) 147 municípios, a TRIBUNA DO NORTE aborda essa problemática da realidade local por meio de depoimentos de gente envolvida com o cinema potiguar, seja enquanto público da capital, produtor de um grande festival à céu aberto no litoral norte, produtor de uma jovem mostra de curtas no Seridó, e enquanto diretor de um cine-teatro quase centenário no município de Assu.

Créditos: DivulgaçãoCine-Teatro de Assu tem parceria com distribuidoraCine-Teatro de Assu tem parceria com distribuidora
Cine-Teatro de Assu tem parceria com distribuidora

E é de Assu, cidade com quase 60 mil habitantes, que vem uma história curiosa. O Cine-Teatro Pedro Amorim é um patrimônio cultural do lugar. A inauguração do prédio se deu em 1925 e até hoje é o único espaço onde a população pode assistir espetáculos de teatro e música, e exibições de filmes. Se não for lá, a sala de cinema mais próxima é em Mossoró.

Segundo o diretor do Cine-Teatro, Marcos Henrique, as sessões acontecem nos fins de semana, sendo o sábado à noite dedicado à exibição de um longa-metragem para o público adulto (geralmente uma comédia ou ação), e no domingo no final da tarde com algum filme para as crianças. O lugar comporta 168 pessoas, a tela é 5 x 5, o projetor é grande resolução, e o ingresso é sempre gratuito.

“Temos um contrato guarda-chuva com uma distribuidora para poder exibir os filmes. Não são lançamentos, mas é o que podemos pagar no momento”, diz Marcos. Ele lembra que o espaço foi restaurado há sete anos por meio de patrocínio com a Petrobras, via Lei de Incentivo Fiscal. Quem frequenta o local encontra no hall de entrada o projetor antigo em exposição.

Cinema na zona rural
Mas Marcos ressalta que a programação do Cine Teatro sozinha não dá conta de dar acesso ao cinema a toda população do município. Para os moradores das zonas rurais é dificuldade de locomoção é um impeditivo. Nesse sentido foi criado no início deste ano o projeto Cine Itinerante, que leva uma estrutura de projeção semelhante ao do Cine-Teatro para as comunidades. Já foram realizadas 10 edições – a última em Nova Esperança, com público de pelo menos mil pessoas, como informou o coordenador do projeto. O movimento é tanto que alguns aproveitam para vender pipoca, picolé, algodão doce. “Chegamos com tudo, projetor, tela, cadeira. Geralmente montamos tudo da quadra de esportes da escola. É formação de público. A gente vê os jovens, mas percebe que eles trazem os pais para assistir os filmes também. É o nosso projeto mais acertado”, conta Marcos.

Ainda sobre o Cine-Teatro Pedro Amorim, o diretor do espaço adianta que no dia 30 de novembro será lançado o livro “Cenas Esquecidas”, de Maria do Perpétuo Socorro, sobre a história do lugar. Marcos também conta que durante todo o mês de dezembro o Cine-Teatro estará recebendo doações de brinquedo para serem distribuídos na última sessão do Cine Itinerante, dia 22 do mesmo mês, na comunidade Trapiá, a mais distante do município. “Será uma sessão especial com lanche, distribuição de presentes pra criançada, papai noel e cinema”, informa.

Cinema para contar suas histórias
Em Caicó a situação é semelhante, não há cinema, mas um festival de curtas tem gerado resultados importantes no sentido de aproximar os jovens do audiovisual por meio da produção de filmes, não apenas no município, mas em todo o Seridó. É o caso do Curta Caicó, criado ano passado e realizado pela segunda vez consecutiva.

“Até os anos 1990 Caicó tinha cinco salas de cinema. Também tínhamos muitas locadoras. Hoje só temos streaming. Quem quiser ver um filme na tela grande tem que ir até Patos (na Paraíba, distante 100km de Caicó), a cidade mais próxima com cinema. Muita gente faz isso”, conta Raildon Lucena, diretor geral do Curta Caicó, evento que deu oportunidade dos caicoenses entrarem em contato com a produção audiovisual potiguar e nacional. Também pelo segundo ano consecutivo, a equipe de Raildon promoveu a mostra do Dia Internacional da Animação.

Para o realizador, essas iniciativas, somadas a outras realizadas na cidade, mesmo em pouco tempo, tem se desdobrando em ações significativas. “Em Jardim do Seridó, pelo menos três escolas estão produzindo filmes com alunos. Em São José do Sabugi, já soubemos de um professor de arte que tem incentivado alunos a filmarem suas histórias. Em Acari está rolando algo semelhante. E aqui temos duas turma estudando Audiovisual no IFRN. A experiência tem sido tão boa que já fomos convidados para promover as aulas numa escola estadual também”, comenta. “Então, a partir do festival e de outras iniciativas, tem surgido incentivo à produção. A democratização, aqui, acontece assim. As pessoas estão entendendo a importância de contar suas próprias histórias”.

Formação de plateia na praia
Na praia de São Miguel do Gostoso, o único contado direto com a sétima arte que os moradores tem é durante os cinco dias de programação da Mostra de Cinema de Gostoso, a mais importante do Rio Grande do Norte. Os diretores gerais da Mostra são Eugênio Puppo e Matheus Sundfeld. Quando provocados pelo repórter sobre o tema do Enem, eles são enfáticos em afirmar que democratização de acesso e formação de público devem andar de mãos dadas.

Créditos: DivulgaçãoEm São Miguel do Gostoso, o cinema é ofertado ao ar livreEm São Miguel do Gostoso, o cinema é ofertado ao ar livre
Em São Miguel do Gostoso, o cinema é ofertado ao ar livre

“Quando falamos da Mostra de Gostoso estamos nos referindo à sessões de cinema ao ar livre, com qualidade de projeção e de acesso gratuito para a população. Mas isso só não é suficiente para falarmos de democratização. É preciso ter uma programação de filmes que eduque, provoque, que ajude a entender questões que estamos vivendo no mundo. E isso é uma responsabilidade que nos temos quando montamos a programação da mostra. A democratização tem que vir com acesso a boas condições de exibição, mas também com bons filmes”, argumenta Eugênio.

Matheus  atenta para outro ponto. “Todo mundo sabe que existem pouquíssimas salas de cinema no Brasil e que estas salas estão concentradas no Sudeste. Só que nos últimos anos houve um aumento na produção de filmes nacionais. Essa produção não é escoada, não vai para todas as salas de cinema. É ai que aparece a rede de festivais, principalmente aqueles festivais de fora do eixo, porque faz com que os filmes cheguem ao público”, complementa o produtor.

A pirataria como acesso
A ideia de democratização do acesso ao cinema é diferente dependendo a cidade. Tipo, a situação em São Paulo é diferente da de Natal que é diferente da de Parelhas. Olhando para a capital, percebe-se que a realidade é boa, se comparada com o interior do estado. Somando os principais shoppings da cidade, se tem uma quantidade considerável de salas de cinema; filmes do circuito alternativo têm aparecido por aqui com frequência; e a produção local tem encontrado público por meio de vários festivais grauitos. Vale lembrar também que boa parte da população tem a oportunidade de ter acesso ao Netflix ou outras plataformas de streaming. E, se estendermos para o aspecto do acesso a produção de filmes, há editais de fomentos disponíveis. Então, no tocante a questão da democratização do acesso ao cinema, qual seria o grande ponto a se refletir?

A pergunta foi jogada para o cinéfilo e pesquisador Sávio Randy. Ele concluiu o curso de Rádio e TV na UFRN com uma monografia que descreve a contribuição da banca 7ª Arte (no Mercado Popular da Cidade Alta) na democratização do cinema em Natal. Logo, para ele, a pirataria é fundamental ao se falar desse tema.

“Quem não pode ir numa sala de cinema e não possui internet para streaming, só tem acesso ao cinema com a pirataria. É algo que ainda tem uma função social incrível”, defende Sávio, que também atenta para o desaparecimento dos ambulantes, o que fortalece a relevância da banca 7ª Arte. “A 7ª Arte ainda é um reduto para quem quer ter acesso à filmes alternativos. É um espaço cinéfilo. Dá uma contribuição muito importante aqui. Natal tem os ambulantes, são necessários, mas estão sumindo”.

Mas o cinéfilo atenta também para outro ponto, o dá acessibilidade para pessoas com algum tipo de deficiência ou em situação especial. “Os cinemas daqui tem projetos importantes, como o Cine Materna, em que as mães podem ir com seus filhos de colo. E no Cinépolis há a Sessão Azul, adaptada para altistas, onde o o brilho e volume da exibição é diferenciado”, conta Sávio, para depois citar os problemas na cidade. “Temos deficiências com filmes de audiodescrição e tradução em Libras, que alguns cinemas no país já comportam, mas sabemos que são raros no país. Até porque os filmes não vem com essa adaptação. Acho que poderia ter uma empresa para cuidar disso, até para fazer com que as salas de cinema se preparem mais para receber esse tipo específico de público”.



Colaborou: Cinthia Lopes, Editora










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