Exposição “Sou Negro” retrata cultura afropotiguar

Publicação: 2009-12-30 00:00:00 | Comentários: 0
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As fitas coloridas girando, o reluzente das coroas na cabeça dos negros, o manto do Rosário e as incontáveis esperanças que habitam a comunidade dos Negros dos Rosários em Jardim do Seridó. Todos os detalhes das festas de São Sebastião e da Nossa Senhora do Rosário giram o imaginário de Joaquim Júnior desde que ele é criança. Na intenção de imortalizar essa sensação ele fotografou durante três anos as festividades e do material bruto -  mais de 200 fotografias – montou a exposição com 38 fotos e intitulou “Sou Negro: Reis e rainhas, ícones da fé de um povo”, que está em cartaz na  na Casa de Cultura Popular de Jardim do Seridó-RN. “As crianças do meu tempo esperavam muito por esse dia e saiam às ruas com varinhas trazendo fitas coloridas nas pontas. Fazia muito tempo que eu tinha o sonho de retratar essa festa que para mim é a coisa mais linda que existe. A fé das pessoas nas ruas consegue fazer a cidade mudar de cor, deixá-la colorida”, contou o fotografo por telefone.

As fotos foram feitas enquanto Júnior acompanhou a procissão de Nossa Senhora do Rosário tendo a irmandade dos Negros do Rosário vestida de reis e rainha carregando seus tambores e seus pífanos. “É uma maneira da comunidade expressar sua fé e manter viva sua força”.

Para as imagens, Joaquim Júnior optou por utilizar luz natural e levou a câmera para dentro da procissão, acompanhando cada detalhe, o andar, os pés, as mãos e principalmente os olhos dos fiéis. “Em alguns momentos eu deitava no chão buscando outros ângulos e o que mais me impressionava em todas as imagens eram os olhares”, contou.

E são exatamente dos olhos os retratos mais belos do fotografo, quando meninos, idosos e casais observam a câmera ela consegue captar dali sinais de luz durante as festividades. “É interessante como a gente consegue perceber a força dessa fé nos olhos. É como se uma luz especial saísse dali e a gente conseguisse captá-la”.

Com três anos de fotografia profissional, esta é a segunda exposição de Joaquim Júnior. A primeira intitulada “Um Olhar sobre o meu jardim” foi  em comemoração aos 150 anos de emancipação política do Jardim do Seridó exibida no ano passado. “Mostrei de todos os ângulos os jardins daqui. Mas o jardins internos de nossas vidas”, disse.

Para ele, a fotografia começa a ser vista como arte no Seridó agora. “Antes a gente só tinha referência da fotografia comercial, aquela dos casamentos e dos aniversários, mas hoje os fotógrafos começam a assumir outra postura. Prezo muito que a fotografia seja vista como arte, haja visto os salões de arte contemporânea. Antes era apenas uma recordação. Hoje, isso está mudando muito”, disse.

Retrato de uma realidade

Além da beleza das imagens da comunidade dos Negros do Rosário, para Júnior, as fotografias expressam algo além. “É uma maneira da própria comunidade se ver. Esse resgate das origens africanas é fundamental para a resistência da comunidade, que é  a união mais linda que já vi. A cidade está muito empolgada, pois as pessoas se vêem na fotografias. Todos são bem carentes na realidade e a gente precisa exaltar essa cultura que aos olhos dos outros pode ser pobre, mas que na realidade é muito rica. Elas não param para enxergar sua própria beleza”, contou.

Uma das imagens que Júnior mais gosta é a intitulada “Marias do Rosário”, duas mulheres que fazem parte do cortejo dos reis e rainhas. “A foto é especial pois  naquele momento o olhar delas estava voltado para a concentração na fé. Gosto de ver os olhares e pegar e transformar a foto eternizando -a. Não precisa ter legenda para expressar o que elas sentiam ali”.

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