Extrema pobreza cresce 35% no RN

Publicação: 2018-10-11 00:00:00 | Comentários: 0
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Ícaro Carvalho
Repórter

‘A dificuldade é você amanhecer o dia sem saber o que  vai comer”. A frase, forte, é dita pela catadora de resíduos sólidos Jéssica Valdenice da Silva, de 49 anos, justamente após tomar um gole de um iogurte que recebera da “filha” Francinete Pereira da Silva, de 39 anos. “Isso foi que deram para a senhora?”, pergunta  o repórter. “Não. Isso aqui foi do lixo”, responde, caindo em lágrimas após mais alguns minutos de conversa. As duas moradoras de um barraco localizado próximo ao viaduto do Baldo, zona Leste de Natal, fazem parte de uma estatística preocupante: o crescimento da extrema pobreza no Brasil. No Rio Grande do Norte, por exemplo, a taxa saiu de 5,3% em 2014 para 7,2% em 2017, um aumento de 1,9 ponto percentual , o que significa um crescimento de 35%. Os dados são de um levantamento feito pela consultoria Tendências, divulgado pelo jornal Valor Econômico, nesta quarta-feira (10).

Jéssica da Silva faz parte de uma estatística nada animadora: taxa de pessoas em situação de pobreza extrema cresceu no RN
Jéssica da Silva faz parte de uma estatística nada animadora: taxa de pessoas em situação de pobreza extrema cresceu no RN

O balanço mostra que 25 das 27 federações do Brasil apresentaram um crescimento na extrema pobreza nos últimos quatro anos. O RN figura na 12ª posição, mas teve crescimento menor que taxa nacional, que é de 50%. Em 2014, por exemplo, a população do Rio Grande do Norte era de 3.408.510, enquanto que em 2017, o número no Estado cresceu para 3.507.003.

Para ser considerado uma pessoa em extrema pobreza, leva-se em conta que a renda per capita é de R$ 85 por mês, segundo medição do governo.  Nesse quesito, o estado com maior crescimento foi o Acre, com aumento de 5,6 pontos percentuais nesse intervalo de tempo. A Bahia apresentou 5  pontos, enquanto que Sergipe (4,8), Piauí (4,1), Maranhão (3,6) vêm em seguida. Os dois estados que não apresentaram variação positiva nesses quatro anos foram o Tocantins (-1,1) e a Paraíba (-0,6).

Nacionalmente, os números também apresentam evolução. Nos últimos quatro anos, o aumento foi de 3,2% para 4,8%, variação de 1,6 ponto.

Para chegar aos índices percentuais, a consultoria Tendências utilizou estatísticas sobre a renda de todas as fontes (salários, alugueis, aposentadorias), de pesquisas domiciliares do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), e as pesquisas Pnad (Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios) e Pnad Contínua. Por terem amostragens e pesquisas diferentes, os balanços foram harmonizados e com isso, não se teve um quantitativo absoluto de famílias.

A catadora Jéssica da Silva é recifense e radicada em Natal há 15 anos, quando saiu das terras pernambucanas em busca de melhor qualidade de vida. A situação, no entanto, não avançou. Ela trabalha todos os dias por regiões próximas ao barraco onde está instalada catando materiais recicláveis, que são revendidos para distribuidoras, de onde Jéssica e as filhas Francinete e Geralda tiram o pouco sustento para sobrevivência. Quando conseguem com muito esforço, arrecadam cerca de R$ 500 reais por mês, que dividem entre si para comprar os suprimentos básicos do dia-a-dia.

Vivendo num ambiente insalubre e sem as menores condições para uma convivência saudável e plena, o barraco onde Jéssica mora juntamente com as companheiras é pequeno, apertado e repleto de imagens de santos, os quais se apegam à fé, para saírem de uma situação que foram condenadas a viver.

“Bota no jornal isso: que aqui no começo do viaduto tem uma família que precisa de ajuda. Hoje eu chorei porque não tenho nada pra botar no fogo. Nem para os meus cachorros”, lamenta, aos prantos.

Programas sociais
Mesmo com os índices de crescimento da extrema pobreza no RN e no Brasil, assim como nos casos de Jéssica, Francinete e Geralda, as famílias natalenses encontram diversas maneiras de ter o essencial onde moram. É o caso da família de Ana Paula Lima Mendonça, de 31 anos. Ela  mora com os cinco filhos e o esposo em um barraco na ocupação Padre Sabino, no bairro das Rocas,  existente há dois anos e sete meses. O esposo, João Batista, é ajudante de pedreiro e o único que trabalha na casa, recebendo aproximadamente R$ 250 por semana, valor dividido com o companheiro de trabalho. As contas são complementadas com recursos do Bolsa Família, que garantem a situação em casa nos momentos em que o esposo está sem trabalho.

“A dificuldade é mais de comer né? Porque todo dia tem que ter, tem eles [filhos] que a gente se preocupa né? É mais fácil faltar para gente do que para eles, porque a gente não deixa né? Fazemos de tudo para dar comida ao filho”, comenta, sem tirar o sorriso do rosto.

“Ele [esposo] recebe 250, mas divide entre ele e o companheiro que ele trabalha. E o trabalho dele não é fixo, tem semana que trabalha, tem semana que não”, comenta. “Dá para passar né? A gente faz de tudo, o impossível, porque Deus sustenta a gente”, diz.

Quem também mora na ocupação Padre Sabino é a natalense Marinalva Souza Gomes, de 45 anos, que divide a casa com o filho, Leandro, de 12 anos. Dividindo a rotina entre bicos, o cuidado com a casa e a atenção ao filho, Marinalva faz trabalhos de faxineira, babá e lava roupas .

“Eu faço uns biquinhos, tenho bolsa família. Como é só eu e ele a gente não tem tanta despesa. Eu compro uma cesta e a gente passa um mês, um mês e meio. Eu faço faxina, lavagem de roupa, cuido de bebê, que eu gosto. Está um pouco parado, porque o pessoal não está contratando ultimamente. A dificuldade é grande mas a gente vai se virando como pode”.

Marinalva Souza Gomes
Marinalva Souza Gomes

Marinalva, de 45 anos, é moradora da ocupação Padre Sabino praticamente desde o momento em que os moradores chegaram aos galpões que até hoje pouco se sabem a quem pertencem. Fazendo bicos de faxineira e cuidadora de crianças, além de lavar roupas, vive com o filho e responde com sorrisos às dificuldades que a vida lhe impôs


Ana Paula Lima
Ana Paula Lima

Ana Paula, de 31 anos,  fala com orgulho dos filhos e do marido, João Batista, que trabalha como ajudante de pedreiro. Enquanto os filhos estão na escola e o esposo no trabalho, ela cuida de Levi, bebê de nove meses, além de ajudar os companheiros da ocupação onde mora a manter o convívio saudável, que assim como ela, não tiram o sorriso do rosto apesar dos obstáculos.

Números
7,2% é o percentual de famílias no Rio Grande do Norte na condição de extrema pobreza, em 2017.

1,9 ponto percentual é o crescimento da miséria entre 2014 e 2017

4,8% é a média nacional de famílias na miséria

R$ 85 é o valor per capita considerado pelo governo para uma pessoa ser considerada de extrema pobreza.

Fonte: Tendências

Top 10 Estados com maiores índices de família na extrema pobreza em 2017
Maranhão - 12,2%

Acre - 10,9%

Bahia - 9,8%

Piauí - 9,5%

Alagoas - 9,4%

Sergipe - 8,9%

Amazonas - 8,0%

Ceará - 7,8%

Pernambuco - 7,7%

Rio Grande do Norte - 7,2%




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